terça-feira, 24 de abril de 2012

Uma criança triste

















Primeiro dia de infantário após as férias de verão.

Tinha uns olhos grandes.
Castanhos, amendoados e tristes.
Semblante de menino assustado e inseguro.
Nada lhe era familiar.
E ele sabia que aquela seria a «sua nova casa».
Aqueles seriam a «sua nova família».
Foi difícil a despedida dos pais.
Foi difícil a integração.
Não aceitou facilmente as propostas.
Preferiu sentar-se encolhidinho numa pequena cadeira.
De braços cruzados e meio dobrado sobre si, com se fosse um adulto velho.
Olhava sem interesse os colegas que tentavam contacto.

Uma coisa era certa.
Aquilo não era normal.

«Mãe, porquê esta atitude»?
«Já lhe devia ter dito, Dulce. O meu filho esteve um ano com uma ama idosa. A senhora, para o proteger, sentava-o num banco e embrulhava-o num xaile, que atava atrás das costas. Daí aquela atitude».

Meu Deus, há um trabalho urgente e individual para fazer!
Sistematicamente, sem falhar.

Foi difícil.
Mas compensador.
No fim de três anos, tínhamos uma nova criança.
Interactiva, mas ainda e sempre (?) com uma marca no olhar

O que se pode fazer de uma criança!...

Abraço.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um cheirinho a cravo



















Estação de televisão SIC.

Cheira-me a cravos!...
Ah! Vinte e cinco de Abril..
Trinta e oito anos!

Alegria, união, sintonia, Liberdade!...

Bebi aquelas imagens.
Distantes, mas presentes no meu coração.
Um pouco de nostalgia, apenas e sempre...
Alguma frustração.
Não assisti àquele momento histórico.
Estava com o meu marido que andava de arma na mão em Cabinda.

Nós dois!

Quase crianças, no início das nossas vidas, a combater «os turras»!
Meu Deus que heresia!...
E o futuro a fugir...
E o vinte e cinco de Abril a acontecer.

E nós na ignorância.
Na expectativa...
Chegaram rumores.
O que será?
E os corações, … pum, pum.
Foi verdade.
O país que deixámos amordaçado e silenciado estava a mexer e falava, falava, gritava de alegria.
E nós não vimos, não fomos presenteados.
Tivemos que concretizar a tarefa.
A tarefa que nos impuseram os que se serviam dela para viver.
Lá estávamos nós, distantes, com saudades e ansiosos.
As imagens que a SIC passou prenderam-me.
Acontece-me sempre.
Coração apertado e…nostálgica!
Tanta pena!

Agora, o cravo está murcho.
Mas ainda cheira.
Já distante e… tão presente!
Vinte e cinco de Abril.
Ingénuo, idealista, mas com a coragem dos bravos.
Que, em paz nos trouxeram a liberdade.

É claro que valeu a pena.

Abraço.

domingo, 22 de abril de 2012

Carimbos






















São-me familiares.
Durante quatro anos, passaram-me pelas mão centenas se não milhares deles.
Pum!...Pum…Pum…

Eram as cartas as encomendas os postais, etc… que saíam todos os dias do posto de correio de que eu, com dezassete anos, era responsável.
Menor.
Menor mas responsável.
Era dali que vinha o sustento para eu e a minha mãe nos aguentarmos sem mexer na pequena maquia que meu pai deixou ao morrer.
Como se tivesse premeditado o que aconteceu inesperadamente.

Carimbos.
Pum…pum…pum…
Também na minha cabecinha de adolescente ainda a acabar de crescer.
Pum…pum…pum…
Meio atordoada.
Meio sem saber como seria amanhã.

Carimbos.

As notícias seguiam alegres ou tristes para os que estavam longe.
Em França, na Alemanha, em Lisboa…
Os que ficavam esperavam resposta.
«Não tenho carta hoje?...»
«Ó que bom, já chegou carta!»

Carimbos.
Todos os dias.
Pum…pum…pum…

Na minha cabecinha de jovenzinha havia insegurança.
Medo de falhar aquela responsabilidade pequenina, mas para mim tão grande!

Pumm…pum…pum…

Carimbos que vão, carimbos que vão ficando!...

E a aprendizagem para mulher.

Carimbos.

Abraço.

sábado, 21 de abril de 2012

Gosto disto


















Estive aí uns dias desmotivada deste meu espaço.
Tive, inclusive, vontade de desistir.
Só o diálogo à volta do tema me fez mudar de ideias.
Sempre há quem ache que escrever me é útil.
Eu também sei que é.
Só que, às vezes, entra-se num certo desencanto...
Contudo, tenho que reconhecer que, apesar de ser apenas um «hobby», é uma forma saudável de libertação e de ginasticar o cérebro.

Vou continuar, ainda que com menos regularidade.
Isto, digo eu hoje.
Talvez amanhã sinta de outra forma.
Talvez me façam falta estes momentos de silêncio, isolamento e introspecção de que tanto gosto.
Se bem que a Primavera está aí.
E com ela o tempo agradável.
O sol que ri, o ar morno que aconchega.
As flores que despontam e pedem ajuda para crescer.
Gosto de andar lá fora a cuidar do meu espaço.
A mexericar.
Retirar as ervas daninhas, compor os canteiros, dar de beber às plantas quando precisam.
Plantar, transplantar, alindar os muros com a minha «arte» simplória e ingénua mas com alma.

O que para muita gente pode parecer demasiado ingénuo e de somenos importância, para mim é o sentir a vida e a natureza.

Abraço.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Tem sido muito bom



Rota da Memória


Tudo tem um princípio e um meio.
Mais tarde, até pode ter um fim.
Hoje, é o fim da primeira parte do meu blogue.

Tem sido um espaço que me fez muito feliz.
Ajudou-me muitas vezes a parar para pensar.
Ajudou-me a sair da minha concha.
Ajudou-me a partilhar factos e sentimentos.
Obrigou-me às vezes, a virar-me do avesso e mostrar o meu lado mais íntimo.
Ajudou-me a conhecer-me melhor e em certas situações, a conhecer melhor o mundo.
Surpreendeu-me.
E ensinou-me também muito.
Com ele, desenvolvi faculdades que pensava não ter.
Posso garantir que foi mais uma aprendizagem de vida.
Tirei lições que me ficarão para o futuro.

Tem sido bom, mesmo.

Mas agora, e digo-o com uma certa nostalgia, esta primeira parte acabou.
Continuarei a escrever.
Mas já com menos memórias e com mais temas actuais.
O dia-a-dia, apenas para meu prazer.
O cérebro não pode definhar.
Escrever é um grande treino.

Obrigada a quem tem gostado de mim.

Esta parte da Rota da Memória ficará eternamente comigo pelo que tem significado.

Vou embarcar noutra rota qualquer que me dê prazer.

Até já.

Abraço.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Medos




















Só quando muito criança, experimentei os medos normais das crianças.

Tinha medo que acabasse o Mundo.
Rezava para que isso não acontecesse.
Tinha medo que à noite, na parede do meu quarto, aparecessem monstros.
Logo que me apagavam a luz, era um pavor.
Tiveram comigo alguns problemas por causa disso.
Tinha medo que os meus pais morressem.
Eu própria, tinha medo de morrer.

Rezava, rezava, para que isso não acontecesse.

Hoje, à distância, muitas vezes já me diverti com estas lembranças.
Não aconteceu nada de anormal comigo, todas as crianças têm os seus medos.

Com o crescimento e com o que o que fui vivendo e aprendendo, todos os medos foram racionalizados e se esfumaram no tempo.
Se alguma dúvida me restasse, os vários episódios com que a vida me tem presenteado são esclarecedores.

Às vezes é preciso sermos postos à prova para que aprendamos a crescer.

Fiz o meu tirocínio em Buco-Zau, Cabinda, quando estive com o meu marido na guerra.
Aí, valeu tudo.
Vim de lá mais adulta e artilhada para a vida.

Não me assusto com qualquer coisa.

Só com a falta de valores.

Abraço.

domingo, 15 de abril de 2012

Prazeres














Prazer o que será?
Penso que dependerá da pessoa que somos.
Mais ou menos exigentes, mais ou menos ambiciosos, mais ou menos sensíveis.
Mais ou menos…
Para mim, o maior prazer é viver.
Viver com a consciência tranquila.
Fazer o que gosto.
Viver onde gosto, com quem gosto e rodeada de e do que gosto.

Prazer para mim é…
Viver no campo.
Com os meus gatos a trepar às árvores.
Na minha casa rasteira, com plantas logo ali.
Ouvir o marulhar do mar em dias de bulício.
É ficar no meu canto a escrever ou a ler.
É ir ao ginásio buscar saúde física e mental.
É sentir-me respeitada.
E amada.
É a minha privacidade.
É receber em casa os amigos.
É correr para eles quando me chamam.
É fazer o melhor que sei para lhes oferecer.

Prazer para mim é ouvir o silêncio.
Prazer é aprender sempre, cada vez mais.

É um banho em casa ou no mar.
Num mar que me desafie mas…não demasiado.

Prazer, é ter à minha volta quem me compreenda e dialogue comigo de uma forma construtiva e calma.

Prazer para mim, é simplesmente isto.
Será que é querer de mais?

Abraço.

sábado, 14 de abril de 2012

Momentos que ficam. Momentos que vão













  

A vida é feita de momentos.
Momentos…
… de felicidade, de satisfação pessoal, de alegria, de prazer.
Esses, são os momentos bonitos e gratificantes.

Mas há outros.
Outros menos bonitos e menos apetecíveis.
Aqueles que nos deixam cicatrizes, que doem pela vida fora.
Que nos deixam sensíveis e fragilizados
Sentindo, por vezes, o Mundo desmoronar-se à nossa volta.

Quer queiramos quer não,
Uns ficam mais presentes que outros.
Todos eles fazem de nós as pessoas que somos.
Todos interferem no nosso bem, ou no nosso mal-estar.
Ou batem na nossa indiferença

Todos, em conjunto, constroem o «puzzle» que é a nossa vida.

Os momentos são como ponteiros que lentamente vão caindo.
Plamp…Plamp…
Ora nos proporcionam viagens por caminhos ínvios e escuros…
Ora por auto-estradas ladeadas de árvores floridas e cheirosas.
Também nos podem levar por veredas tortuosas e sem saída.
Aí, poderemos encontrar silvados com picos afiados, que nos picam no corpo e quantas vezes na alma.
Veredas íngremes de difícil acesso, que nos deixam exaustos e quantas vezes desiludidos.

Há momentos que vêm e momentos que vão.

Há a vida que vai caminhando, sem contemplações.
Sempre à espera do próximo momento.

O próximo será florido?
Ou escuro que nem breu?

Abraço.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

E a educação que falta
















Parte-se do princípio que quem lê está interessado em se informar, em tomar conhecimento.
E que percebe também que quem escreve, o faz porque gosta.
Percebe que quem escreve, é porque precisa de exteriorizar.
Exteriorizar o que o preocupa, o que o indigna, o que lhe agrada e o que o faz pensar.
Muitas vezes é uma forma de limpar a alma.
Limpá-la das desilusões, das preocupações, das mágoas e do espanto.
Também acontece que, às vezes, apetece partilhar os bons momentos.
Os momentos que nos dão força, que nos fazem sentir que o Mundo não é só desamor e tropelias baratas.
Todos os dias assistimos a situações que nos deixam de olhos arregalados e com a indignação estampada no rosto.
Acontece de tudo.

Hoje vou falar das faltas de educação que são uma constante.
Essas, sim, é preciso denunciar e indignarmo-nos com elas.
Essas sim, chocam os que foram educados na base do respeito pelos bons princípios. 
O mais grave, é que passam impunes.
O que fazer então?
O cidadão comum pouco ou quase nada pode fazer.
Resta-lhe indignar-se.
Indignar-se e, sempre que puder, denunciar.
Escrever é uma das formas de o fazer.

Continuo a achar que é preciso que quem de direito passe a preocupar-se mais com a falta de valores e dar mais atenção à formação e à educação que não há.
É preciso formar a sociedade futura.
Já que a que existe não tem remédio possível.

Se for uma questão estrutural, olha!
Temos pena.

Abraço.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Qualidade ou a falta dela














Qualidade.
Característica pouco apreciada no momento que corre.

Qualidade.
Deveria ser, não só exigida, como também apreciada, premiada até.

Produtos de qualidade.
Profissionais de qualidade.
Serviços de qualidade.
Pessoas de qualidade.

A meu ver, e sei que não estou sozinha, o país tornou-se um país de pechisbeque, um país de plástico.
Os responsáveis não investem na cultura, nos valores e na qualidade.
Contentam-se com as aparências, com o vazio e com o artificial.
Até sabemos que, muitas vezes, os que se empenham, os que têm brio e os que não bajulam, são os menos apreciados.

Vivemos numa sociedade de faz-de-conta.
Uma sociedade de artifícios.
Estamos numa crise não só económica, mas de extrema falta de qualidade.
Parece que a qualidade nem sequer faz falta.
É preocupante, porque esta crise tende a crescer cada vez mais.

Ao falar de plástico, lembrei-me do momento exacto, em que tive o primeiro contacto com esse material.
Chamavam-lhe casquinha.
Tinha os meus quatro, cinco anos.
Foi uma oferta de natal.
Um minúsculo serviço de chá completo e minuciosamente desenhado, sem faltar qualquer pormenor.
Vinha num invólucro de papel celofane e deixou-me louca.
Era cor-de-rosa.
Mal sabia eu o que aquele material vistoso e atractivo iria significar no futuro!
Tudo se rendeu a esta invenção.
Até a sociedade!... 

Abraço.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Crítica











Hoje lembrei-me de um Homem que, quanto a mim e a muita gente, era um gigante da escrita.
Chamava-se Manuel Nunes da Fonseca, mais conhecido por Mário Castrim.
Imediatamente a seguir ao vinte e cinco de Abril e durante largos anos, fez crítica de televisão.

Passava horas e horas em frente do pequeno ecrã, a ver, ouvir e observar, tudo o que nele se passava.
O resultado era uma crónica diária em que ele dava «pancada» brava em tudo o que quanto a ele, não tinha qualidade.
Também aconselhava quando achava que se justificava.
Ficou conhecido pelo seu valor.
Era um crítico invulgar.
Exigente, sarcástico e com um espírito de humor invejável.
As suas crónicas eram esperadas com entusiasmo e, sôfrega e obrigatoriamente lidas.
Eram crónicas muito fortes, muito completas e que davam vida ou poderiam matar qualquer programa de televisão.
Era um crítico muito respeitado e temido.
O seu rigor metia respeito.
Ensinou muito aos jovens daquele tempo (eu incluída), que estivessem interessados em aprender.
A crítica era sempre didáctica embora dura.
Era irónico e mordaz.
Tinha um espírito de humor que nos deixava, muitas vezes, a rir a bandeiras despregadas.
A palavra dele era lei.
Foi uma grande figura que deixou saudades.

Tenho a certeza que se viesse ao mundo e visse e ouvisse o que se passa hoje, a sua ira seria tão grande, que teria uma apoplexia, que o levaria de volta.
Amava o bom português e a competência de quem se servia dos meios de comunicação.
As conversas em casa dele eram aulas.  

Grande Mário Castrim, como sentimos a tua falta.

Abraço

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Festa de Flores














Na minha meninice e juventude, sempre ouvi a minha mãe referir-se à Páscoa como a Festa de Flores.

Não sei se esta expressão é conhecida por quem me lê.
Eu sempre a achei bonita e cheia de frescura.
Penso que seria chamada assim porque a Páscoa acontece na Primavera, quando as flores já despontam e os campos se mostram com a alegria da cor e do sol.
A festa de flores era recebida com brio.
Depois das casas bem limpas e arejadas, eram alindadas.
Recorria-se a tudo o que de mais bonito e de estimação havia em casa para a decorar.

Na segunda-feira seguinte, recebia-se o pároco que ia dar as boas-festas e benzer as casa com aspersões de água benta.
Era recebido na melhor sala da casa, que cheirava a limpo.

Ainda hoje guardo com muito carinho a toalha que a minha mãe usava nesse dia.
As flores não faltavam, mas as rainhas da mesa eram as camélias.
Num pratinho cheio de pétalas de silva fina, uma flor branca muito delicada, eram depositadas as moedas disfarçadas.
Um pequeno contributo para o pároco.
O sacristão levava com ele um saco onde à saída as depositava.
A casa era o orgulho de quem a preparava.
Só depois de alguns dias se retiravam os objectos de maior estimação.
Voltavam às arcas e às gavetas, para no próximo ano voltarem a brilhar.

Para lá das cerimónias religiosas, havia a festa da família que se deslocava para comemorar o dia festivo.

Nunca mais ouvi a expressão festa de flores.

Penso que era uma expressão doce, que não tem nada a ver com o tempo que se vive hoje.

Boas Festas.

Abraço.

domingo, 1 de abril de 2012

«Gente como você»











Pessoas amigas contam histórias.
Parecem a vida real.

Quando se chega ao ponto do desrespeito e da traição pelas costas, algo se passa no
pouco que ainda restará (?) do cérebro.

As palavras chegam.

Com o cunho da raiva.
Raiva acumulada e contida durante anos.
Raiva disfarçada e envergonhada, sem motivos.
Raiva pelas frustrações vividas e contidas.
Raiva por cobardias disfarçadas.

Palavras com uma missão:

Ferir.

Não só aqueles a quem se dirigem, mas muito mais quem os rodeia.
Por razões óbvias.

Pelo que significam.
E pelo que revelam.

Vergonhosamente ameaçadoras.

Apenas por não se saber ler.
Não saber interpretar.
Não ter a frontalidade de se informar junto da fonte.
O tema é actual.
A interpretação foi de ignorância e de desrespeito.

As máscaras também caem.
Ainda bem.
Assim, sabemos o terreno que pisamos.

Pelos vistos, a memória é muito curta.

Dialogar é bonito.
O diálogo vale mil erros.
Diz-se nestes casos e com razão que o passado, e que passado, já foi esquecido!
Há gente surpreendente e sem critério!...

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mãe chuva















Mãe chuva apareceu.

Como eras desejada, chuva!
Como tudo estava sedento de ti!...
As plantas, as árvores, as flores e todos os seres vivos saúdam-te.
Eu em especial.
Desta vez, sem qualquer interesse mais egoísta.
Gosto muito de chuva e de lareira, mas agora outros valores mais altos se levantam.
Os campos estavam com um ar amargurado e triste, tal era a sede.
Os verdes já quase não eram verdes.
As hortaliças vergadas de tristeza.

Os humanos e os animais, com olhares interrogativos e ansiosos.
As perguntas andavam no ar sem serem ouvidas.

Foi bom acordar de noite com o tamborilar das tuas gotas no telhado do meu quarto.
E como eram fortes!
E persistentes.

Fiquei feliz por te ouvir.
Sei que muita gente ficou feliz como eu.
Sei que a terra te recebeu e acarinhou.
Os verdes ficaram mais verdes, os riachos soam mais forte.
Os campos estão agora prenhes, para um dia destes brotarem de vida.

Bem vinda, Mãe chuva.

 Abraço.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Reconhecimento













Esta tarde de ventania esquisita e quente que não joga muito bem com a primavera, resolvi sair e explorar.
Os caminhos aqui vão quase inevitavelmente, dar a uma praia.
Foi lá que, passados alguns minutos, fui parar.

Havia novidades naquela praia.
Aquela que, até há pouco, era ainda uma praia em estado natural, apresentava agora algumas melhorias.
Sem alterarem o ambiente, melhoraram o acesso.
Uma extensa e ampla escada de madeira muito bonita estende-se do parque de estacionamento ao areal.
A meio, uma varanda panorâmica com uma cobertura e banco, que faz as delícias de quem gosta de apreciar o mar e a paisagem que o rodeia.

Gostei do que vi.
Vou visitar mais vezes aquela praia e usufruir da sua beleza.
Aquele areal extenso, por muita gente que apareça, tem espaço para descansar e desfrutar.

Vai-me saber bem sentar-me naquela varanda e absorver toda a sua beleza.

Em silêncio.
E em paz.

Bem-haja à Natureza e a quem a protege.

Abraço.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tiques







Os tiques são pequenos gestos que algumas pessoas fazem sistematicamente, às vezes sem quase se darem conta.
Alguns são bastante desagradáveis não só para quem vê, mas também para o próprio.
Tanto quanto sei são tiques de origem nervosa.
E quanto mais nervosa a pessoa estiver, mais o tique aumenta.
Há tempos tive a oportunidade de conviver de perto, com um problema destes.
Chegou ao ginásio que frequento uma colega nova que deu nas vistas.
Não pela sua imagem, que era perfeitamente normal, mas porque tinha um tique que, por não ser muito vulgar, deu imediatamente nas vistas.
Com os lábios muito unidos em bico, movimentava-os freneticamente para a frente para trás e para os lados, sem parar.
Era aflitivo para quem via.
Perturbante até.
Estava uma hora e tal no ginásio e não parava nunca.
Isto aconteceu durante algum tempo.
Quinze dias talvez.

O que surpreendeu é que os tiques foram diminuindo aos poucos.

Hoje, a colega nova está praticamente normal.
Apresenta-se com um aspecto muito mais leve, jovial, e o tique foi-se.
Que alívio!
Penso que principalmente para ela.

Conclusão:
Deduzo que o ginásio foi uma terapia.
Quem sabe, prescrita por algum médico?

Mais uma vez me dou ao direito de achar que o ginásio resolve mesmo alguns problemas de saúde.

Até amanhã.
Vou até ao ginásio, também ele para mim, uma terapia.

Abraço.

terça-feira, 27 de março de 2012

Os bons e os maus













A minha prima Belinha, disse-me um dia:
-Ó prima, sabes que há os bons e os maus?
-Como assim, Belinha?

-Eu sei que é assim.
-Nos filmes, eu oiço sempre dizer:
Olha os bons,
Olha os maus!...
-Ó Belinha, isso é nos filmes!
Na sociedade é diferente.
Todos de vez em quando somos bonzinhos e todos de vez em quando também fazemos as nossas maldades!
-Mas também ouvi outro dia a Anita dizer que ela e a família dela eram bons.
Que não faziam mal a ninguém!...
E que os outros eram maus!...
-Não ligues ao que te disse a Anita.
Ela ainda é muito pequena,
Precisa de aprender a pensar.
Isso vai acontecer, quando crescer mais um pouco.
Quando ela se der conta que é preciso olharmos para dentro de nós, e sermos honestos connosco mesmo.
Vais ver que já não diz essas coisas um pouco infantis!....
 -Mas ó prima…
-Vá lá, Belinha.
Ouve o que te digo.
Também tu quando cresceres, irás aprender que é preciso ser modesto e não acharmos que só nós é que somos bons!
A isso chama-se arrogância.
É estarmos cheios de nós próprios e não querermos ver os nossos defeitos.
Há pessoas que ainda não descobriram uma coisa, que se chama modéstia.
Sabes o que isso é?
É não andarmos para aí a dizer que só nós é que somos bons!...
São pessoas que, apesar do tamanho do seu corpo, têm um cérebro pequenino.
Leram pouco, aprenderam só o que lhes fazia mais falta!...
É preciso ir mais além.
Estudar muito, durante toda a vida.

-Ó prima!
Então não há bons para um lado e maus para o outro pois não?
- Claro que não, amiguinha.
Isso só existe em cabecinhas diminuídas!

-Que bom, prima, assim é melhor.
Podemos ajudar-nos uns aos outros.
Tu, estiveste a ajudar-me!
Obrigada por isso.
 -De nada, amiguinha.

Abraço.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Está tudo avariado














É impressionante.
Estamos no mês de Março e esperam-se vinte e oito graus para hoje.
Temperatura que nem o verão às vezes tem.
Só podem estar a acontecer «avarias» neste Universo que nos dá tudo.
Dá e tira, quando muito bem lhe apetece.
A diminuição da camada de ozono pelos vistos é mesmo coisa séria.
As experiências nucleares e outras parece que se estão a reflectir nestas alterações climáticas.
O pouco cuidado com o ambiente também ajudará.
A verdade é que a seca que se tem feito sentir pode-se agravar com este calor fora de época.
É de levar ao desespero quem vive da agricultura e pecuária.
Por aqui quase apetece ir ao banho.
A praia, mesmo ao lado, espera os mais sedentos.
O fim-de-semana já deu para sacudir o mofo do Inverno e recarregar baterias.
Até o corpinho aliviou das roupagens pesadas e «sisudas» que se usam na época fria.

Vou ter saudades da minha lareira.
A quietude e a paz que sinto junto dela vão ser interrompidas por uns meses.
O ruído do mar também vai deixar saudades.

Talvez a Primavera ainda nos surpreenda.
Nada melhor poderia acontecer.

Tudo a seu tempo, como diziam os nossos avós.
.
Abraço.

domingo, 25 de março de 2012

Pau mandado













 
Desde sempre me lembro de ouvir os mais velhos fazerem de uma pessoa manobrável, a seguinte apreciação:
«Oh, aquilo? É um pau mandado»!...
Isto, dito com desdém mesmo.
Não percebi logo a ideia.
Só mais tarde quando comecei a ter a percepção das coisas e perante situações concretas, é que entendi a alusão.

É claro que um pau mandado em sentido figurado, é uma pessoa de personalidade fraca. Meio (não direi débil, porque seria demasiado forte), mas digo meio sem carácter e facilmente influenciável.
Nem sequer tem capacidade para pensar no que pode advir dos gestos que alguém lhe encomenda.

É pena.

Por acaso gosto de marionetas.
Mas têm de ser manobradas por quem sabe.
Essas, sim, proporcionam às crianças e ás vezes aos adultos, momentos felizes.

São manuseados com mestria e os seus gestos são de aplaudir, não só pela habilidade, mas também pelo fim a que se destinam.

Os paus mandados, coitados, são uns pobres diabos.
Recebem os recados e cumprem.
Felizes por mais um mandadinho.

Os mandantes, esse, ficam à espreita, tipo raposas matreiras que não se atrevem a dar a cara.

Há sempre um pau mandado à espera de mais um recado.

Fretes!...
Nos dias que correm, nesta sociedade e na nossa política é o que mais há.

Abraço.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Bate e foge















Quando era criança, lembro-me que às vezes, brincava na rua.
Éramos um grupo de amigas muito amigas e tínhamos uma série de brincadeiras que nos obrigavam a uma interacção muito positiva.
Os jogos tradicionais eram os preferidos.
A cabra cega, o jogo do descanso, a berlinda, o Ti limão o digo-dim- digo-dão, etc.
Havia sempre alguma das amigas que, quando perdia algum dos jogos e com a malandrice própria de criança, resolvia vingar-se.
Enquanto as companheiras continuavam a brincadeira, ficava a espreitar para conseguir uma oportunidade de vingança.
Então, pela calada, esperava a colega de surpresa e zás, um valente empurrão.
Como não se atrevia a encarar a outra, fugia a sete pés para não receber o troco.

A partir desse momento, ficava apelidada de bate e foge.
Esse rótulo não mais a largaria.

Neste mundo de brincadeiras com ar sério, há gente sem coluna vertebral, a quem se pode com toda a propriedade, chamar de bate e foge.
Ou, quem sabe, cobardolas de meia tigela.

Abraço.