terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A importância da Rádio












Ontem, foi o Dia Mundial da Rádio.

Há muito tempo, nos anos cinquenta sessenta, o rádio era um objecto de luxo.
Muito pouca gente tinha acesso a esse bem.
Na minha aldeia haveria meia dúzia, se tanto.
Era uma companhia, um divertimento e uma fonte de informação.
Em minha casa havia um aparelho desses.
Era através dele que o meu pai, às tantas da noite, ouvia com o som baixinho no recato da sua casa, a Rádio Moscovo.
Nessa altura era proibido ouvi-la.
Falava de assuntos que em Portugal eram tabu absoluto.
Esclarecia e mostrava caminhos.
Era uma rádio clandestina e por isso era ouvida quase em segredo.
Não esquecer que nessa altura, cá, se vivia no mais profundo obscurantismo.
Era a época da ditadura.
As notícias que passavam na nossa rádio eram filtradas e censuradas.
Só «saía» o que o governo vigente autorizava.
Por isso os que podiam tentavam, por aí, penetrar nos assuntos que lhes eram vedados.
Era muito difícil apanhar a frequência, só se conseguia por volta das onze, meia-noite ou mais.

Lembro-me que, na nossa rádio, passavam música todo o dia.
Havia aqueles programas de discos pedidos e era sempre a sair.
«Posso pedir um disco»?

Transmitiam também rádio-novelas.
Nessa altura (tal como agora na nossa televisão), tinham lugar de destaque na programação.
Passavam por volta das duas da tarde.
A essa hora, o som do rádio era posto no limite, para a que as vizinhas pudessem
seguir o enredo.
Lembro-me que eram rádio-novelas patrocinadas pelo detergente Tide.
Eram chamadas as novelas «da» Tide.
Tinham imensos os folhetins e toda a gente aguardava ansiosamente pelo próximo.
Às vezes era de cortar à faca.
Quando as cenas aqueciam, tudo chorava e dava palpites sobre o que achavam que deveria acontecer.

O rádio era realmente uma companhia e um meio de divertimento.

Havia também um programa que era feito em directo por um grupo de actores, que se chamavam os Companheiros da Alegria.
A essa hora, toda a gente ria com as piadas quase inocentes que diziam.

As músicas que passavam davam muitas vezes para um ou outro bailarico.
Punha-se o rádio na janela.
Na rua, os jovens faziam a «festa».
Com a chegada da televisão, a rádio ficou um pouco mais na sombra.
Tirou-lhe um pouco a importância que tinha então.
No entanto, nunca foi dispensada.
Pelo contrário, ainda hoje é um meio de contacto, diversão e informação.

Hoje, felizmente, não há censura (?).
E os conteúdos já podem ser outros.

Era assim nos tempos do obscurantismo.

Abraço.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ainda o Carnaval















Como disse no texto anterior, na minha aldeia de há muitos anos atrás, brincava-se ao carnaval de uma forma genuína e espontânea.
Era tradição, não podia passar despercebida.
Brincava-se muito, mas duma maneira tranquila e alegre.
As figuras de proa eram dois irmãos, homens do campo.
Travestiam-se de mulheres, enfeitavam os burritos com as quinquilharias mais estapafúrdias que encontravam e, cheios de confiança no sucesso, começavam o passeio carnavalesco pela aldeia.
Com as suas figuras grotescas e munidos de um papel que fingiam ler, diziam os maiores disparates.
Só de vê-los as gargalhadas estalavam.
Quando começavam com a lengalenga, então era como se estivéssemos a assistir a uma revista com todos os condimentos, mas caseira.
Eram seguidos pelas crianças da aldeia e iam parando aqui e ali para se exibirem.
Os adultos também eram contagiados e a animação subia de tom.
As tascas eram paragem obrigatória.
Era preciso molhar a garganta e reforçar a imaginação.
Essas investidas ao copo, traduziam-se em alegre bebedeira no fim do dia.
Era preciso que alguém os ajudasse a descer do animal e a caminhada até casa era feita em desequilíbrio de um lado ao outro da rua, com as paredes a ampará-los.
As mulheres recebiam-nos em casa sem rancor.
Elas sabiam que um dia não são dias.
A alegria e a animação que transmitiam davam para perdoar os exageros da bebida.
A cama era o porto seguro que os recebia para um bom e merecido descanso.
Para o ano, eles lá estariam disponíveis para mais uma saga.     

As minhas homenagens, aos irmãos Balbino.
Palhaços pobres, afáveis e genuínos

Abraço.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Carnaval e a tradição












Hoje vou falar do carnaval, mas do carnaval simples e ingénuo de há muitos anos, quando eu ainda era menina.

Nesse tempo em que fiz a Escola Primária, havia no carnaval uma tradição que fazia as delícias das crianças.
Essa tradição chamava-se «O Testamento do Galo».
Era simples, mas exigia por parte das crianças alguma movimentação.
Tratava-se de quê?
Comprar um galo que seria oferecido nesse dia ao professor da terra.
Para isso era preciso que as crianças arranjassem dinheiro (para o comprar).
Quando faltava mais ou menos um mês para o dia, as crianças encarregadas da tarefa corriam toda a povoação, metendo o nariz em tudo o que tinha galináceos.
Observavam e tentavam encontrar o maior, o mais bonito, o mais gordo e vistoso galo.
Depois de encontrado o que mais agradava, passava-se ao «negócio» propriamente dito.
Se tudo corresse de feição, pagava-se logo. E o animal ficava à guarda da vendedora até chegar o dia.
Logo que chegasse, todas as crianças vestiam as suas melhores roupas e iam buscar o galaró.
Com serpentinas de todas as cores, enfeitavam-no.
Pegando nele ao colo, ora umas ora outras, começava a «procissão».
Era chegado o momento mais importante e desejado.
Ler o Testamento do Galo.
Era uma cantilena muito engraçada.
Uma forma de mostrar a toda a gente as últimas vontades do «condenado».
Sim, porque, na pior das hipóteses, o animal ia dar uma bela canja em casa da pessoa a quem era oferecido.
Então era um desfiar de lamúrias e brejeirices que punha toda a gente a rir.
Até as meninas solteiras, os velhinhos mais velhinhos eram sujeitos a chacota…
No testamento, o galo oferecia todas as partes do seu corpo.
Sem escapar nenhuma.
Era lido em voz alta, nos sítios principais da aldeia.
Só no fim de todas as crianças terem brilhado a ler de uma forma exímia todo o conteúdo do pequeno fascículo, é que se ia finalmente entregar o galo.
Claro que era recebido com agrado.
Íamos para casa felizes, com a tarefa cumprida e as mãos com alguns rebuçaditos…

Era um dia para não esquecer mais.

Esta era uma das tradições, mas havia mais.

Sei que na minha aldeia estão a recuperá-la

Nem todos pensam da mesma maneira!... Veja-se o Primeir-Ministro.

Abraço.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pieguices














É isso, portugueses!
Então?
Onde está essa garra?
Chorões, lamechas, piegas?
Onde está a coragem dos nossos navegantes?
Do nosso aviador Gago Coutinho?
Onde está a força dos nossos emigrantes que sofreram no corpo o desenraizamento e o racismo de quem os recebeu?
Onde andam os nossos soldados que deram o corpo às balas, numa guerra fratricida durante tantos anos?
Onde andam os trabalhadores que todos os dias penam à procura de trabalho e não o encontram?
Onde andam todos?
E os que aguentam com toda a dignidade a fome?
E os que dormem na rua?
É aflitivo pensar que ficou tudo piegas, queixinhas mole, e pedinchão…
Razão tem o nosso primeiro.
Ele, sim, todo punhos de renda, mas um trabalhador à séria.
E ordens?
É um perito a dá-las.
Tradições?
Lixo!
A cultura?
Não está à discussão!...
O que «bebemos» nos nossos antepassados já era!...

O nosso primeiro tem toda a razão.
Abaixo as velharias.

As troikas, os rankings, os FMIs e outros palavrões modernos, é que estão a dar.
Vá lá, vá lá, deixemo-nos de carnavaladas e vamos ao trabalho.

Ó gentinha!...

Abraço.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

«Carnavalices»











Tão giro!
Não há carnaval para ninguém este ano.

-Onde é que eu já ouvi isto?
Ah! já me lembro!
Foi ao nosso ex Primeiro-ministro Cavaco Silva.

Como todos certamente nos lembramos, aqui há uns anos ele também decidiu retirar do mapa o alegre e bem-disposto carnaval.
Porque será esta embirração?
Será que os senhores apessoados que nos governam são tão taciturnos assim?
Não gostam que a gente brinque um pouco?
Se calhar acham que brincadeiras assim brejeiras, não dão prestígio ao país.
Sei lá, como é uma festa do povinho, devem achar que é coisa sem interesse!
Ou que o povo não merece festa?
Que raio de coisa esta.
Mas trata-se de uma tradição de sempre.
Mas o sr. Passos veio dizer que não devemos ficar agarrados a «velhas tradições».
Porquê? Podemos saber? Será que as tradições não fazem parte da cultura de um povo?
Será que este senhor primeiro-ministro não teve passado?
Não teve ontem?

Tem-me feito pensar…

Esperem lá.
Acho que descobri.
Eles devem achar que as palhaçadas são exclusivas e que só eles é que têm o direito de exercer!...

Se for assim, até têm uma certa razão, têm desempenhado bem o seu papel!.

Ai…ai…temos que ser nós a fazer o nosso próprio carnaval.
 
Abraço.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O fogo














Sempre, desde pequena, fui atraída pelo fogo da lareira.
Lembro-me de que até nas brincadeiras de rua com as minhas amigas, às vezes e à revelia dos pais, as mais velhas acendiam um pequeno lume, à volta do qual brincávamos e recriávamos cenas que provavelmente observávamos em casa.
Podendo parecer um gesto perigoso, na altura não seria tanto assim.
Era tudo muito pacífico e tranquilo.
Pelo menos as amigas que me rodeavam.
Havia sempre uma líder a quem os pais nos confiavam.
Isto tudo para falar do meu fascínio pelo fogo da lareira.
Talvez porque cresci e vivi durante bastante tempo à volta desse fogo de lareira.
Talvez porque em seu redor eu bebi muito do que sou hoje.
Talvez porque me devolve o que deixei para trás.
Talvez…
Talvez porque me identifico com a tranquilidade serena daquela chama.
Às vezes dou comigo sentada no chão a olhá-la fixamente e sou encaminhada para tempos que me deixam feliz e agradecida.
Pode parecer saudosismo.
Se calhar até é.
Mas é um saudosismo saudável.
Daquele que aquece e aconchega, tal como a chama da lareira.
Daquele que me devolve a serenidade e a paz que ao longo da vida sempre tenho procurado.

É bom não ser muito exigente com a vida!...

Abraço. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

É bom ter afinidades












Às vezes é bom recordar.
Ao longo das nossas vidas, são imensos os acontecimentos por que passamos e que observamos.
Alguns ficam connosco para sempre.
Outros, os menos importantes, são deitados fora porque o cérebro se recusa a registá-los.
Gosto, de quando em vez, de passar em revista algumas lembranças.
Sobretudo se estiver numa companhia agradável e com quem tenha afinidades.
Aí, começa a «retroescavadora» do cérebro a funcionar.
Percorre os recantos mais escondidos e traz à memória os arquivos que há tempos e tempos eram intocados.
É ver então os acontecimentos passados a saltarem para o diálogo, em catadupa.
Muitas vezes são pretexto para a gargalhada, outras para a saudade e outras para a emoção.
Há ainda os que nos fazem abrir a boca de espanto!...
-Olha! Já não me lembrava disso!...

Pretextos para dialogar.
Para comunicar.
Estar em sintonia.
Sentir que alguém com quem nos identificamos tem prazer em partilhar as recordações.

Os diálogos de convívio são sempre saudáveis.
Convívio apenas.
Sem interesse de coisa nenhuma.
Apenas contacto.
Tão importante nesta sociedade em que o isolamento é rei.
É saudável conduzir a vida nesta direcção.

Por mim, farei os possíveis.

Abraço.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Que griso!...













Lá fora o frio gelava.
Apesar disso, era preciso apanhar um pouco de ar puro.
Sim, porque aqui o ar ainda é puro.
Fui refrescar um pouco as ideias e, olha, para variar dei comigo na praia.
Lá, não havia ninguém no exterior.
Pudera, o tempo não convidava.
Ainda assim dei uma pequena volta.
Respirei o iodo e observei as envolventes.
O mar calmo beijava as areias que tinham como companhia umas poucas e tristonhas gaivotas.
O tempo não lhes era favorável.
O som sibilante do vento fazia-se ouvir fino e cortante.
O silêncio, hoje, «ouvia-se» mais.
Dava até para ouvir as águas do pequeno riacho que cantarolavam, ao escorrerem dos campos prenhes de água.
Um ambiente bucólico que me agrada muito.
Não fora o frio, ficaria a desfrutar por mais uns momentos.
O nariz gelava.
As pernas eram trespassadas pelo ar que, à beira-mar, é sempre mais fresco.
O mais aconselhável era voltar para casa.
Os pulmões já estavam com o oxigénio renovado.
O meu «ninho» quente esperava-me.
Este computador, como sempre, ajudou-me a partilhar mais um momento de calma e de tranquilidade.

São compensações que me reconfortam sempre.

Abraço. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O realejo dos meus encantos













Tive uns pais que, felizmente, me deram a oportunidade de, desde muito pequena, viajar e conhecer outros pontos do País para além da pequena aldeia em que vivíamos.
Isso, para a época, penso que foi uma oportunidade que não estava ao alcance de muitos.
Uma das muitas saídas foi á feira de S. Tiago, na Covilhã.
Uma feira já na altura muito frequentada

Tinha por volta de cinco, seis anos.
Lembro-me perfeitamente, como se não tivesse passado muito tempo.
O que vi deixou-me deslumbrada.
Então os brinquedos!...
É claro que ainda eram brinquedos artesanais e sem os artefactos e a sofisticação de agora.
Lindos e, para qualquer criança, apetecíveis.
Hoje, todos aqueles brinquedos são considerados uma verdadeira relíquia.
Depois de me terem satisfeito a curiosidade e de termos dado voltas e voltas à feira, lembro-me que o meu pai disse:
- Já escolheste o brinquedo que queres?
Eu respondi de imediato:
- Quero um realejo!
Espanto geral.
Esta minha resposta não era de modo nenhum a esperada.

- Realejo é para rapazes, escolhe outra coisa.
Lembro-me que insisti, mas não demovi o meu pai.
- Quero um realejo!

O meu pai considerava-se muito homem e não queria acreditar no que ouvia.
- Não, escolhe outra coisa.

O desgosto foi grande e chorei.
Chorei imenso.
Ou um realejo, ou uma bola.

Depois de fazer rir toda a gente, o coração derretido de meu pai rendeu-se.
Que vontade é que ele não fazia à sua menina?
Lá fui eu para casa com os dois objectos que fizeram de mim a menina mais feliz do mundo.
Fazia ferrôm… ferrôm… o dia todo.
A bola era para os intervalos com as amigas.
Devo dizer que mais tarde, e como forma de brincarem comigo, me ofereceram como prenda de anos, um pequeno realejo que conservo ainda.
Achei imensa graça.

Mais tarde, já adolescente, quis aprender a tocar acordeão.
- Nunca! - disse o meu pai - As meninas decentes não têm essas profissões!
Dessa vez foi ele que venceu.
Ainda hoje sinto uma certa frustração…

Outros tempos, outras mentalidades.

Abraço.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A vida e os humores














A vida não está para amar.
Isto é: não convida muito a grandes demonstrações de alegria.
Mesmo fazendo esforço, há uma enorme sombra.
O futuro não se apresenta risonho.
A insegurança tomou conta das vidas dos que vivem apenas do seu trabalho.
Dos que para terem uma existência digna não se serviram nunca, de esquemas menos claros.
Aqueles líricos que confiaram.
Aqueles ingénuos que nunca imaginaram que o seu trabalho honesto de uma vida não seria o suficiente para terem um fim tranquilo e igualmente digno.
Dói pensar nisto.
Dói pensar em como há tanta desigualdade e tantas diferenças.
Em como sendo todos feitos da mesma matéria, sejamos sujeitos a situações tão diferentes e humilhantes.
Está a ser difícil acreditar.
Acreditar nos Homens que nos governam, nas Instituições que nos deveriam servir
e, ao fim e ao cabo, num mundo de diferenças tão fortemente instaladas.
Porquê esta sociedade de poderes instalados e de gente tão egoísta interesseira e cruel?
Apesar de tudo, estamos sempre à espera de que, um dia, tudo seja diferente.
A esperança é como que uma tábua de salvação a que nos agarramos, neste mar revolto e tempestuoso em que nos encontramos.
Só os tubarões e os senhores do dinheiro se sentirão bem.
Quais vampiros que sugam o sangue das suas vítimas.

Devem comemorar com orgias de comidas, bebidas e outras, a situação que criaram e lhes está de feição.

Que lhes faça bom proveito

Ainda assim, prefiro não fazer parte desse grupo.
E, lá está: talvez um dia a vida se torne menos desigual!...

Abraço.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ventos cruzados












Só a palavra vento já me soa a tempo desagradável.
O som, esse, é-me mais simpático.
Isso, se estiver recolhida e tranquila quanto aos efeitos.
O pior é quando temos que ir para a rua e nos deparamos com o fenómeno!
Aqui onde moro, acontece de vez em quando um cruzamento endiabrado.
Cruza-se o vento do mar do Cabo Espichel com o da serra da Arrábida e é um encontro que faz faísca.
Eles, os ventos, não se entendem mesmo.
Vão de encontro um ao outro, e é uma luta que não é agradável e às vezes é forte. Vociferam, batem-se como se de gente deseducada se tratasse.
Levam pelos ares a terra do chão, vergam os inofensivos ramos das árvores, revolvem os cabelos de quem os tem.
Enfim.
O melhor é ver os efeitos atrás de uma vidraça protectora e deixá-los resolver a contenda.
É assim quando estes dois agentes decidem aparecer.
Vale o sossego do canto aquecido que me calhou em sorte.
Desfrutar dele nestes dias, parece que ainda sabe melhor.

Abraço. 

E a noite caiu













O dia esteve lindo!
O sol brilhou e encheu de luz os campos que, sequiosos, pedem água.
Este inverno seco deixa as plantas tristes e com sede.
Encolhem-se junto à terra, como que com medo de crescer.
Nem o sol brilhante as convence.
Não gostam do frio que as fustiga e enruga
Que lhes tira a beleza e o viço.
O sol esconde-se e dá passagem à noite.
Tudo fica diferente.
Pessoas e tudo o que mexe se recolhem e se aninham.
Cada um no seu canto.
Se o tiver.
É a suposta hora da família e do diálogo.
Será que ainda há?
Como é necessário o diálogo!
O diálogo saudável e tranquilo.

O corpo pede descanso.
Amanhã o sol espera-nos mais uma vez.
Seco e frio.
E a chuva que não vem.
E as plantas que não crescem!

Abraço.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Crescer
















Acontece desde que nascemos.
Até atingirmos a idade adulta.
Todos os dias crescemos um pouco.

É agradável observar o crescimento físico.
Ver as mudanças que se operam.
São tantas que às vezes nos embaraçam.
Pois bem, isto acontece até atingirmos a idade adulta.
Depois começa ou deveria começar, outro crescimento…

Aquele que nos vai ajudar a ter um pensamento mais apurado e crítico.
Aquele que nos ajuda no conhecimento mais completo e profundo dos assuntos.
Aquele que nos ajuda a saber opinar com rigor.
Aquele que nos encaminha para que sejamos seres mais completos.
Acontece que há muita gente que não tem interesse por esse conhecimento.

Não se interrogam, não lêem, não se informam.
Acham que já sabem tudo.
Alguns também acham que só os estudos académicos bastam.
Logo que se sentem doutores, pronto, pensam que é o fim da etapa que traçaram.
É claro que os estudos são necessários.
Mas é pouco.
O intelecto precisa de ser alimentado.
Sem esse alimento, os cérebros ficam desperdiçados e pobres.
Medíocres até.
Sem conteúdos.
Com o papel passado.
E a pose.

Alimentar o espírito dá trabalho e requer interesse.
E curiosidade, muita curiosidade… positiva.
Todos os dias das nossas vidas.
Os que não se interessam pelo conhecimento intelectual ficam como que amputados.
É pena.
Não crescem por dentro.
Ficam-se pelo aspecto.
E pela pose.

Abraço 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ingenuidade minha















Como é fácil enganar uma pessoa de boa fé!...
Só hoje é que eu percebi.
Carvalho da Silva fez tocar as campainhas do meu cérebro.
Percebi com o seu discurso que o Presidente da República abdicou do ordenado como presidente para optar pelas reformas, porque as reformas de Sua excelência são bem maiores!...
Fiquei chocada.
Pensava eu, a eternamente ingénua, que o Senhor teria achado bem dar uma ajuda à crise que também ajudou a criar.
Ó santa ingenuidade!
Afinal as suas reformas são maiores que o ordenado que receberia. E ainda se queixa de que não chegam. O que diremos nós quase todos...  
Já uma vez me socorri de um ditado alentejano para o caracterizar e, de cada vez que olho para ele, não posso deixar de o lembrar.
Dizem alguns alentejanos de pessoas dissimuladas que querem parecer o que não são, que parecem um «pai do céu de lata».
Pois é o que sinto sempre que olho para sua excelência.
Ainda dizem que os alentejanos são «devagarinho». Da cabeça, eles não o são, não!...

Quem perdeu por não estar caladinho foi o nosso chefe supremo.
Desta vez abriu a boca, olha, escangalhou-se todo.
Por mim, acho que se desmascarou num momento de distracção.
É sempre assim com gente que quer parecer o que não é.

Ele há cada um!

Abraço.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A família cigana














De tempos a tempos, no deambular pelos caminhos da vida, parava na minha terra uma família cigana.
Instalavam-se num olival mesmo por detrás da minha casa.
Ao longo de anos, tive a oportunidade de observar as rotinas (o meu terraço dava para o olival) daquelas vidas errantes.
Fascinava-me aquele modo de vida que estava tão longe do que estava habituada.
Passava horas a observar e a absorver, aquela forma de viver tão diferente.
O que mais me chocava, era vê-los no inverno a dormir ao relento, às vezes com um frio de gelar.
À noite, depois de comerem o caldo feito ao lume numa panela impecavelmente esfregada e com os ingredientes que conseguiam recolher junto da população,
acendiam enormes lumes, sentavam-se à volta e cantavam.
Cantigas em tom cigano que me encantavam.
Aquele tom melancólico e sofrido metia-se comigo.
Muitas vezes eu, na minha casa quente, imaginava como seria dura aquela vida que eu considerava instável.
Era demasiado jovem nessa altura.
Esta família cigana era «comandada» por um patriarca de nome Mário.
Mário cigano: era assim que era conhecido.
Tinha uma prole imensa.
Uns atrás dos outros.
Entre eles duas raparigas.
A Laurinda e a Preta.
Andavam mais ou menos por volta da minha idade.
Travámos conhecimento.
Fizemo-nos mulheres ao mesmo tempo.
Herdavam a minha roupa e tudo o que lhes pudesse dar.
A Preta casou.
Muito cedo, como ainda hoje é tradição.
O marido foi para França.
A Preta não sabia ler nem escrever.
As saudades do seu homem eram muitas.

- Ó menina, escreva-me uma carta para o meu homem!
- O que queres que eu escreva Preta?
- Não sei, o que a menina achar!...

Eu era amiga da Preta, não podia defraudá-la.

«Tenho muitas saudades tuas, amor, quando voltas»?...

E outras coisas belas que se dizem quando se está apaixonada!...
Tudo da minha lavra.
Que felicidade nos olhos da Preta!

«Ó menina, sabe dizer coisas tão bonitas»!...

Passou tanto tempo!...
Gostava de te rever, Preta.
O que será feito de ti e do teu homem?...
.
Abraço.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O que vale um sorriso


 











Quando nos movimentamos em meios frequentados por muita gente, nem sempre o ambiente é o que se desejaria.
Talvez por a maioria das pessoas não se conhecerem entre si, talvez por terem temperamentos diferentes e também, creio eu, talvez por timidez.
Isto, na melhor das hipóteses.
Porque depois pode também haver outras vertentes.
Há os que se apresentam indiferentes, fechados, sem sequer dirigirem um cumprimento!
Às vezes pode ser uma questão de pose.
Outras, uma atitude mal-educada apenas.
Uma ausência de princípios de educação e boas maneiras.
Vê-se de tudo por aí.
Conseguir estar no mesmo espaço sem articular palavra, é obra.
Sobretudo se esses encontros forem regulares.
Esta sociedade individualista faz de nós seres macambúzios, fechados e avessos à partilha, mesmo que seja da palavra.
Quando, numa situação destas, nos aparece pela frente um sorriso aberto e jovial, que cumprimenta, que diz até amanhã e continua a sorrir, é claro que faz a diferença.

Um sorriso pode ser o caminho para relações mais saudáveis, abertas e inter-activas

Abaixo os carrancudos e senhores do seu nariz.

Viva a boa disposição e o sorriso aberto, mesmo que para isso tenhamos que esquecer as preocupações do dia-a-dia.

Abraço.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Mês de Janeiro















Lembro-me que, aqui há muitos anos, o mês de Janeiro era considerado o mais frio do ano.
Nem Dezembro, o mês do Natal, o suplantava.
Era em Janeiro que as chuvas, os ventos gelados e a neve nos visitavam com maior probabilidade.
Era durante esse mês que as intempéries nos obrigavam a fazer uma vida mais retirada e caseira.
As noites ainda grandes eram passadas, sempre que era possível, junto da família à lareira.
Lá fora, a chuva fustigava as vidraças com bátegas fortes.
O vento assobiava e às vezes ameaçava arrancar telhados e paredes mais frágeis.
Eu aninhava-me mais ainda no meu banco junto de minha mãe, que me acolhia, protectora.

As conversas aconteciam naturalmente.
Às vezes em surdina.
Não fosse o temporal enfurecer-se mais ainda.
As estórias eram uma forma de passar o tempo e às vezes disfarçar o medo.
A lareira era inspiradora.
Eu, sempre atenta, absorvia as palavras e os gestos.
Aconteceu algumas vezes ir para a cama a olhar para todo o lado, pois os conteúdos nem sempre eram muito tranquilos.
Histórias de ladrões e outros temas similares não faltavam.
Acontecia também, ao outro dia de manhã e quando eu ainda dormia um sono reparador, a minha mãe chamar, ao mesmo tempo que dava a notícia tão aguardada:
«Está a nevar! Depressa, vem ver»!
Como que com medo de que a neve fugisse sem ser vista.
Tenho saudades desse espectáculo magnífico - algo parecido com o da foto.
Ainda hoje tenho na minha memória a beleza de uma aldeia coberta de neve.
Vão muito longe esses invernos rigorosos e às vezes perturbadores.
É por isso que não consigo vislumbrar este mês de Janeiro, que se apresenta como se de Primavera se tratasse.
Não fosse o frio nocturno, e diria que estávamos em Abril ou Maio.
Como os tempos mudaram!
Até no tempo.

Resta aguardar e ver se o ditado antigo ainda tem razão de ser:
«Janeiro quente traz o diabo no ventre»

Abraço.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Grandes momentos












Depois de alguns dias agrestes e frios, eis que o sol convida a uma saída.
Moeda ao ar.
Aqui há tantas opções!
Praia?
Campo?
Os dois?
Ganhou a última hipótese.
Sentei-me numa escarpa alta, em cima de um tufo de chorões selvagens e observei como gosto de fazer.
Envolvia-me a Natureza.
O mar era banhado pelos raios de sol que o acompanhavam tranquilos.
O grandioso pinhal manso verga-se à sua passagem.
Quase a perder de vista, o outro lado do Tejo

Marginal-Estoril-Cascais.

De plantão, sobranceira, a Serra de Sintra espreita.
Hoje como quase sempre, fazia-se cobrir por um ligeiro manto cinzento.
Misteriosa e segura da sua beleza.

Poderosa, sabe o que vale aquela Serra.

Do sítio privilegiado em que me encontrava, a vista era soberba.
O mar manso e suave era escoltado por gaivotas que, serpenteavam, provavelmente à procura da sua sorte.

Não me apetecia voltar para o país em crise.
Económica e pior ainda digo eu, de valores.

Grandes momentos para compensar!

Abraço.   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O golpe de misericórdia












Pronto.
Está feliz o capital.
O golpe de misericórdia foi dado.
Tudo o que foi conseguido com a revolução de Abril escoou-se assim, nas barbas dos trabalhadores.
Sem grande alarde.
Como este povo é submisso.
Como recebe tudo quase sem queixas.
Conformado e pronto a agarrar o futuro.
Que lhe oferece tão pouco ou nada!...
Se os senhores governantes fazem, é porque é preciso.
«A vida está má, mas se tem que ser assim».

Parece que anda tudo meio anestesiado.
Meio atordoado.
Enquanto suas excelências decidem, fazem leis e as impõem.
Imperturbáveis e donos.
Insensíveis e altivos.

Deceparam o cravo.
O cravo das nossas alegrias.
O cravo que foi o símbolo da liberdade.
Está a nossos pés.
Desfolhado e morto.

Decepado sem dó nem piedade.

Pronto.

Abraço.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Onde andarão os meus gatos?





Há dias em que a imaginação não é fértil.
Estou num desses dias.
Não pode «ferver» sempre.
A verdade é que me está a faltar qualquer coisa.
Será que estou viciada na escrita?
Ou estou preguiçosa mesmo?

Não se pode estar sempre a deitar os governantes abaixo, embora eles mereçam.
Logo hoje que saíram tantas novidades e tão quentinhas!
Era só pegar numa ponta...
Mas…não me apetece bater no ceguinho.
Depois também não se pode estar permanentemente em recolhimento, a analisar o que se passa à nossa volta.
Então fazer o quê?
Olha, dar conta das minhas limitações de hoje.
Limitar-me a fazer ginástica aos dedos e encolher-me no meu sofá a ouvir as bombas atiradas a quem trabalha.
A televisão está cheia de novidades!...
Ah! E a lareira. A lareira também é uma excelente companheira.
O calor cor de fogo que dela emana aquece não só o corpo mas também ao espírito.
Posso também imaginar o frio lá fora.
Pensar um pouco nos desprotegidos da sorte.

Na rua, o silêncio quase se ouve!
E como eu aprecio o silêncio

Onde andarão os meus gatos?

Abraço.

domingo, 15 de janeiro de 2012

«Pasmado»















Quando eu era pequena, as gentes da minha terra tinham uma expressão muito engraçada, para dizer que uma pessoa tinha pouca actividade, era muito parada e não intervinha quando era necessário.
Andava para ali meio zumbi, sem participação, ainda que houvesse às vezes necessidade de o fazer.

Pois foi ao ver o nosso Presidente da República, que fiz a analogia.
Quando aparece, anda ali, meio de boca fechada, mexendo os olhos, penso que para ver alguma coisa (será que vê?). E, não fossem estes gestos, eu diria que o senhor faz um papel de robot, com uma programação demasiado lenta.
Um «pasmado», diria o meu povo.
Vale-lhe a sua Maria que está sempre embevecida quando o seu homem fala.
Não se poupa, abananando a cabeça a apoiá-lo

Neste ambiente de trapalhada política, seria bom que o senhor Presidente mandasse mudar o programa que lhe inseriram.
O País certamente agradeceria.
Um presidente sempre é um presidente!...
E deve intervir e participar, quando vê que a situação não é correcta.
Foi para isso que, com confiança, a maioria votou nele.

E se este país precisava da sua intervenção isenta e honesta!.

Abraço.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Carácter














O carácter é a marca que nos acompanha desde o ventre materno.
Segue-nos ao longo da vida, sem nunca nos abandonar.
É o carácter que nos leva a agir melhor ou pior, em todos os momentos.
É o responsável de todos os nossos gestos, palavras, atitudes e ralações com os outros.
A nossa vida é pautada pelo carácter que herdamos.
A nossa vida será linear ou tortuosa, segundo a forma como soubermos ou não domá-lo.
E é muito difícil essa tarefa.
É qualquer coisa instalada profundamente, é congénito e herdado.
A raiz é quem comanda.
Há raízes mais ou menos saudáveis e mais ou menos robustas.
Há outras de má qualidade.
É dumas ou de outras que partimos.
Mais ou menos bom carácter.
Mais ou menos desprovidos.
A vida seria melhor se todos partíssemos de uma boa matriz.
Infelizmente não é assim.
Por isso o Mundo é povoado por tanta gente com atitudes incorrectas, tanta inveja e tantas raivas incontroláveis.
Falta a boa qualidade da raiz, aquela que faz uma boa árvore.

Heranças.   

Abraço.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mentiroso
















É um fartote ouvir os discursos do nosso primeiro, antes e depois das eleições.
Dá vontade de, logo na hora, lhe dirigir todos os impropérios conhecidos do calão existente.
Mas, como somos educados, fiquemos ao menos com o direito à indignação.
E, claro, porque achamos que o senhor ainda tem uma resteazinha de vergonha, chamar-lhe MENTIROSO e farsante, sabendo que não se irá ofender, pois lá, no fundo, sabe muito bem que o é.
É espectacular o desplante.
Como é possível desdizer amanhã o que se disse ontem, com o ar mais descarado deste mundo?
E mais, como é que quem está a ser governado por um figurão daqueles, pode depositar alguma confiança, alguma esperança no futuro?
Que falta de vergonha e de dignidade descaradas.
Que tristes figuras para se atingir um lugar de topo e mantê-lo!...
Que raio de sede de poder!
Pois é.
O poder vale muito.
Move muitos interesses.

Olha os «amigos» que já se perfilam!
Os boys tão criticados estão todos na fila, para engordarem ainda mais as barrigas.
Miseráveis barrigas!

Será que não haveria profissão melhor para «sua excelência» do que o poder de «mandar» em todos nós, pobres coitados?
Cá por mim, penso que, se tivesse ido para pasteleiro, teria feito melhor!...
Talvez até, quem sabe, melhorasse a qualidade das farófias que há por aí?

Ele há cada um!
E ainda diziam mal do outro.

Olha, este também já deve estar a preparar o pecúlio para, depois de tantos favores feitos aos amigos e de estafar com o resto, ir para algum país de eleição, onde gozará umas férias merecidas.

O povo que o elegeu tirará alguma lição para o futuro?

Tenham paciência, é tudo demasiado escandaloso!

Abraço.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Surpreendente














No meu passeio habitual até ao mar, tem-me dado que pensar a calma das suas águas.
Hoje, um pôr-do-sol de rara beleza condizia com a tranquilidade que se vivia naquela praia.
Naquele espaço quase deserto, o mar imponente estendia as longas «barbas» qual gigante adormecido.
Intermináveis barbas…
Só os peixes têm permissão de as acariciar.
Ondulando, passeiam-se descontraídos.
De vez em quando, fazem alegres piruetas, penso que para comemorarem a liberdade que lhes é concedida
Que espaço de eleição que os peixes têm!...

Bom, mas voltando à calma das águas.
Dou comigo a pensar que é estranha tanta serenidade.
Neste Inverno que finalmente se mostrou, parece que o mar destoa.
Será que é prenúncio de algum fenómeno estranho?

Não, a natureza é demasiado bela.
Acredito que haja algo que a proteja  

E a nós também.

Abraço.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os dias













Os dias são momentos.

Momentos grandes.
Que nos acompanham desde o primeiro segundo em que nascemos.
Com eles partilhamos felicidade e tristeza.

É a vida a mostrar-se!...

Chegam às vezes devagar, como se nos quisessem surpreender.
Para que, assim, o prazer de os saborear seja ainda melhor.
Como se fossem uma brisa, num dia quente de verão.
Outras vezes apresentam-se em forma de vento forte e furioso, que corre e desaparece como por magia.
E, assim, vão-nos lembrando como a vida foge de nós.
Como somos tão facilmente perecíveis e dispensáveis.
Como, de repente, podemos deixar de ser.
Os dias mostram-nos com clareza como somos frágeis e descartáveis.
Vão-nos guiando por caminhos ínvios e tortuosos.
Ou por largas auto-estradas que convidam a andar e a sonhar com prazer redobrado.

Os dias escoam-se por entre a nossa existência.
Quando damos conta, estamos esgotados.
Talvez outros, porventura, nos substituam com vantagem.  

Os dias.

Que se seguem uns atrás dos outros sem paragens.
E sem clemência.

Abraço.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

«Que parva que eu sou»

Que parva que eu sou é o título de uma canção dos «Deolinda».
Apetece-me também dizer o mesmo de mim própria.



Deolinda - Que Parva Que Sou (Legendado) - YouTube

www.youtube.com/watch?v=r5rJ-1xbWdc8 Feb 2011 - 4 min - Uploaded by flickpt
Música de intervenção dos Deolinda apresentada nos Coliseus de Lisboa e Porto.




Desde muito cedo, se calhar defeito de uma educação demasiado protectora, achei que o mundo era preenchido só por gente boa, com bom carácter, amiga e solidária.
Quando comecei a crescer e a contactar mais, apercebi-me de que não era bem assim.
Havia afinal uma mistura demasiado adulterada.
Tive aí as primeiras decepções.
Afinal, o mundo era diferente do que eu idealizei!
Apercebi-me dos interesses, do egoísmo, da hipocrisia camuflada, da feia inveja, da falta de solidariedade e do cinismo.
O mundo bonito que idealizei e onde eu me sentia tão bem, começou a desiludir-me.
E, digo com verdade, aquela constatação fez-me sofrer.
Afinal a vida não era só amor, carinho amizade e aqueles sentimentos que aprecio tanto: ternura e verdade.
O mundo era e é mais gelo que calor.
Calor humano, digo eu.
O mundo é uma amálgama de interesses, hipocrisia, indiferença e mentiras.
Abundam por aí muitos intrujões, a vender amizades, que dela só têm o nome.
Só conseguem enganar até se porem à prova.

Por mim, já tenho muita experiência!...
Vou tentar deixar finalmente de ser parva.

Mas continuarei a ter esperança num mundo verdadeiro.
Em que a solidariedade, a partilha e outros altos valores, tenham lugar.

Abraço.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Máquina





Sou apenas uma cidadã comum, que se preocupa com o que a rodeia.
De vez em quando, o meu cérebro leva-me a pensar mais fundo.
Dei comigo a pensar na máquina completa e complexa, que é o Homem.
Não existe no mundo nenhuma outra que a suplante.
A máquina humana é perfeitíssima.
Se pensarmos um pouco, ficamos sem palavras perante tão alta sofisticação.
Que venham os cientistas mais creditados.
Que venham as tecnologias mais avançadas.
Não.
Nada que ultrapasse a Máquina Humana.
Perfeita.

As máquinas, penso eu, são criadas para nos facilitar a vida.
Para nos levar mais e mais longe no conhecimento e na vida.

Então, pergunto: por que é que a mais perfeita de todas tem tendência para emperrar?
E, pior, para complicar?
Sim, porque, se olharmos à nossa volta, só vemos os Homens em guerras, malfeitorias e desavenças, que não honram tão alta criação!...
Será que não sabemos usar o cerne da Máquina que é o cérebro?
Será que o mecanismo de controlo é tão difícil assim de gerir?
Que pergunta difícil para mim.
Não consigo resposta

Alguém sabe?

Abraço.  

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sensibilidades





















No meio deste trovejar de medidas que enlouquecem, que pendem em permanência sobre as nossas cabeças – algumas já brancas de mourejar, outras coloridas para disfarçar…

Tentamos que a existência não esvazie.
Lutamos contra o destempero descomandado, procuramos o sol.
Que olha o mundo de cima.
Como se não desse conta.
Damos de caras com o mar que, com ondulação serena se deixa agitar pelo vento.
Que, indiferente, passa ao de leve rasando as ondas que vão e vêm.
Aos pássaros que voam livres, sorvendo a ar fresco, apetece pedir boleia.

Outros mundos.
Outros seres.
Outros pensantes com cérebro…
Que nos façam sentir Gente.

No meio deste turbilhão que quase enlouquece, que nos reste a Natureza.

Abraço.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Comida, mais comida













Lá aconteceu a tão esperada passagem de ano.
Depois de todos bem empanturrados e alguns muito bem bebidos, deu-se início ao Ano «Usado» como alguém já lhe chamou.
Pois é, presume-se que um Ano Novo seja qualquer coisa agradável.
Uma mudança, com a esperança de que seja para melhor.
Este que entrou não.
Já entrou com um carimbo negro.
Já trazia uma carga negativa, que assustou qualquer um.
Aliás, sustos atrás de sustos temos nós vindo a apanhar há muito.
Talvez por isso o apelidassem de Ano «Usado».
Nem está mal visto!...
Bem, tudo isto para dizer que, novo ou usado, comezaina não faltou.
Excessos!
Iguarias de toda a espécie para arrombar com o físico dos mais frágeis…
Esta semana devia ser parca de alimentos.
Uma espécie de purga, para limpar o que entrou a mais.

Nestas alturas, parece que a crise é apenas ficção.
Mesas a abarrotar, restaurantes cheios, hotéis esgotados, enfim, tirar a barriguinha de misérias, que o ano é de «elegância»!...

Morra Marta, morra farta.

Esta característica é a marca dos pobres!...

Boa digestão e venham mais festas.

Abraço.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Conviver é saudável


















No mundo louco em que vivemos, o convívio são é coisa a que poucos dão importância.
O que interessa à maioria é o ruído.
De preferência aquele bem gritado.
E em que todos falam e ninguém se ouve.
Já passou a época em que, famílias e amigos se juntavam e aí sim, havia convívio.
As conversas fluíam, tinham sentido e todos nós éramos interesse e ouvidos.
As ideias saltavam rápidas, quase primeiro que as palavras.
Em que todo o tempo era pouco para estarmos juntos.
Esse tempo passou de moda.
Agora não se convive, anda-se ao molho a tentar enganar a ausência de conteúdos.

Há também quem quase abomine a presença de outros.
Sentem como que uma alergia que provoca brotueja…
Fecham-se que nem bichinhos.
As suas quatro paredes são o seu mundo.
Temos ainda os que se entregam todo o santo dia e noite, às novas tecnologias.
Sem elas acho que a vida não teria sentido.
Comunicam desta maneira.
Fria.
Distante, escondendo a face.
E o calor humano.
Que não existe.
O toque.
A proximidade.
A ternura.
O que é isso, perguntarão!...
A ausência destas necessidades é substituída pelas teclas.

Clicar.

É a palavra de ordem dos tempos modernos.
Tudo o mais é demais.

Neste contexto gelado, desapareceram o convívio, as saudosas tertúlias.
Os grupos de amigos.

Que gelado que está este ambiente!
As pessoas fazem falta.
Os olhos, as mãos, os braços, o calor humano são indispensáveis para aconchegar amizades.

Que pena andarmos todos tão entorpecidos!...

Abraço.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Separar as Águas












Separar as águas às vezes é complicado.
A verdade é que se impõe que o façamos.
Nesta vida cheia de prós e contras, cheia de positivos e negativos, somos muitas vezes obrigados a separar o trigo do joio.
Tentar ignorar situações, relevar outras e avançar com a consciência de quem anda neste mundo por bem.
De quem não maquina nada para que a vida de alguém seja menos boa.
De quem gostaria de poder mudar o Mundo, embora saiba que não é possível.
Separar as águas nem sempre é fácil.
Mas é importante.
Para que tudo seja linear e limpo.
É preciso limpar o espaço que nos envolve.
E despoluir, despoluir, para que vivamos melhor.
Teremos assim, sem dúvida, uma maior tranquilidade e qualidade de vida. 

É preciso separar as águas.

Abraço.