sábado, 8 de dezembro de 2012

Todos diferentes



Ao analisarmos algumas atitudes com que nos deparamos no dia-a-dia, chegamos à conclusão de que, embora sejamos todos iguais na concepção, somos todos diferentes na maneira de agir e de pensar.
É claro que nem poderia ser de outra maneira.
Ou então seríamos uma sociedade de gente toda muito aprumadinha.
Clones uns dos outros, caminhando em fila indiana.
Quanto a mim, na diferença é que está a piada.

Só que às vezes a natureza prega partidas.

Somos feitos de uma massa que, à partida, é muito difícil de moldar.
Não há maneira de encaixar na forma da vida.
Por muito que tente trabalhar-se, fica sempre empenada e sem conseguir adaptar-se.
Acontece isso mais com os insatisfeitos.
Com os que não se aceitam.
Com os que não gostam de si.

Estou a lembrar-me concretamente da actriz Alexandra Lencastre.
Fiquei chocada ao deparar com a sua cara, numa revista de fim-de-semana.
Mais uma plástica.
E que plástica!
Tirou-lhe a expressão.
Não é ela, é uma outra que não ela.

Pena, pena, pena.
Era uma mulher bonita.
Mas lá está.
Nunca se aceitou.

Não aceitou a idade que, sem apelo nem agravo, chega sempre.

Não entendeu que as rugas são a nossa vida.
Fazem parte do caminho que trilhámos.

Agora aí está.

No mínimo, perturbador.

Abraço.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Jasmim





Chama-se assim, o meu gato mais jovem.
Tem cinco meses.
Se a traquinice fosse música, ele seria uma orquestra.
Tira a paciência ao mais manso dos seus amigos gatos.
Mais velhos, receberam-no bem.
Fizeram dele o boneco de brincar.
Bom, mas ele abusa!
Tanto, que todos já decidiram investir na sua educação.
Está já a ser educado para que perceba que tem de ser mais comedido.
Não importunar a privacidade dos amigos é uma das regras.
Ele insiste e, de vez em quando, leva.
Apesar de tudo acho que já surtiu algum efeito.

Depois de muitas tropelias, cansado, procura um sítio fofo para descansar.
A foto que ilustra este texto mostra um desses momentos de relaxe total.
O dia chuvoso e cinzento de ontem passou-o de pernas ao alto.
Numa posição, direi, no mínimo, estranha.
Habilidade de acrobata não lhe falta!

Qual crise, qual quê?
A ele passa-lhe à distância.
Os donos que se amanhem!

Vida de gato com sorte!

Abraço.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Quando a chuva cai











Hoje está um dia daqueles de que eu gosto mesmo.
Sem alarido, pé ante pé, a chuva cai de mansinho.
Como se andasse a brincar, tem-se mostrado e fugido.
Como se fosse um jogo.
Tem espreitado e desaparecido.
De repente, como quem não quer a coisa, decidiu-se.
Cai persistente e calma.
Sem incomodar, mas caindo.
Fazendo lembrar que o Outono tem destas coisas.
Ora frio, ora sol, ora sua excelência a chuva.
Chuva e sol.
Dois agentes indispensáveis à vida.

Para quem pode, sabe bem observar a Natureza.
Como ela se defende e se protege.
Como se despe e se renova.
A chuva ajuda.
Limpa a terra dos pólenes, das bactérias dos micróbios instalados durante os meses do verão.
A chuva.
O chuveiro gigante e abrangente.  
Aquela que impregna de humidade a terra sequiosa.
É agradável vê-la através da vidraça.
A penumbra reporta-nos à noite que está próxima.
Diria que a cama da noite se estende e prepara o descanso do guerreiro.
É bom o silêncio.

Abraço. 


Dois anos

















Como o tempo corre.

Estou consigo, leitor e amigo, há dois anos.
Nunca pensei que conseguisse ir tão longe.
Nunca pensei que me entusiasmasse assim.
Nunca pensei que me fizesse tão bem.
Nunca pensei que, nestes dois anos, tanta gente se interessasse pelo que escrevo.
Apenas curiosidade?
Algum apreço?
Seja o que for.

Sei que este é um blogue sem as características habituais.
É um blogue que me serve como se de um amigo se tratasse.
Em que eu debito o que sinto.
Os meus momentos bons e menos bons.
A minha opinião sobre o que me toca mais.
O que me dá alegria ou o que me indigna.
Às vezes bem-humorada, outras nem tanto.

Apesar disso, tenho sentido que despertei alguma curiosidade.
Sei que sou lida e também que haveria quem gostasse de comentar e encetar diálogo.
Só que a intenção não foi essa logo à partida.
Foi apenas a de criar um local de partilha, um local que me servisse de ombro amigo
Invisível, mas que eu sinto e me acalenta.

Este pequeno blogue, tem sido como que uma terapia.
Uma terapia que faço com gosto e com empenho.
Irei continuar sempre que me apetecer e ache oportuno.
Este blogue não me impõe tempos, nem qualquer espécie de obrigação.
É um blogue de entretenimento e ocupação dos meus tempos livres.
É um blogue que me ajuda a manter o cérebro activo e produtivo.
O cérebro.
Todos sabemos que é preciso ocupá-lo para que não fique preguiçoso.
Depois, tudo o que não é utilizado, um dia torna-se lixo.

Vou tentar não o ser enquanto puder.

Um abraço.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Imaginário


















Desde sempre, ouvimos dos nossos pais estórias dum mundo imaginário e fantástico.
Lembro-me que me deliciava com elas e pedia sempre mais.
Ainda hoje as guardo e algumas já foram passadas a outros, que igualmente as saborearam.
Vem isto a propósito do Natal, que se vai aproximando devagar.
Também porque era no inverno que o tempo era mais propício ao recolhimento e às reuniões de família.
À lareira, essas estórias tinham ainda um sabor mais intenso.
Com o aproximar da época festiva do Natal, a estória do Menino Jesus era contada de uma forma respeitosa e empolgante.
A fuga de seus pais para o protegerem da ordem do rei Herodes, o «mau», levou a que nascesse numa cabana que acolhia um burro e uma vaca.
Que, num gesto solidário, o aqueceram com o seu bafo quente, naquela noite gélida 
de Dezembro.
A manjedoura terá sido a sua primeira cama.

Aquele cenário de pobreza e despojamento era impressionante para uma criança digerir.
Toda aquela época era vivida num mundo imaginário de criatividade infantil.
Diria até que se prolongou por largos anos este delírio saudável que alimentou as nossas fantasias juvenis.

Qual não foi o meu espanto, quando há bem poucos dias, o Papa actual veio lesto desfazer esta fantasia.

«O presépio não teve vaca nem burro», disse.

Este Papa, altamente culto e intelectual, não precisava de privar deste sonho bonito tanta gente miúda e até graúda!
O que é que ganhou com isso?

Pelo menos devia ser-nos reservado o direito à fantasia e ao sonho!

Abraço.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

É bela

















É bela e quente.
Aquece o ambiente e o coração.
Sedutora, a sua chama forte prende o olhar.
Que fascinado, a segue até os olhos doerem…
É bom sentir este calor ambiente, que nos penetra o interior.
Que apazigua o espírito e nos traz calma.
Que nos leva a um mundo imaginário onde tudo é paz.
Lá fora, o frio convida ao aconchego.
O sol espreita, misturado com bátegas de chuva, de quando em vez forte.
As vidraças inundam-se de gotas irrequietas.
Irreverentes, não param.

O corpo cede ao calor.
Arquiva-o e saboreia-o.
Amolece.

É bela e quente.

Vermelha como o tom do sangue que nos corre cá dentro.
Quente como os corações sensíveis.

É a chama quente.
A companheira que nos mima e nos protege do frio lá fora.

Abraço.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Tanta coisa













Tanta coisa para escrever!
Mas…
Nem tudo é tão linear assim.
Nem tudo pode saltar para o ecrã do computador.
Existem os princípios, o bom senso, a educação.
Há coisas que ficam melhor arquivadas.

O silêncio é de ouro.

Calar as fitas negras da vida.
O que indignou.
O que tirou o sono.
O que marcou.
Marcou por dentro, bem no centro da nossa sensibilidade.
O mais correcto é esquecer?
Recordar os bons momentos.

Tanta coisa.

Tantos nós.
Apertados e grandes.

Tanta coisa.

E o silêncio é de ouro!...
   
Abraço.

domingo, 25 de novembro de 2012

As meninas gotinhas de água

















A propósito desta chuva que cai copiosamente, lembrei-me de uma estória doce e cheia de pedagogia, que tantas vezes contei às crianças que me foram confiadas.
Tal como na estória, também as minhas gotinhas vieram ajudar.

Durante muito tempo, as meninas gotinhas de água mantiveram-se calmas lá nas profundezas do mar.
Lá em baixo estava-se bem e assim descansaram mais um pouco.
O ruído, cá em cima, não condizia com elas.
Acontece que passado um bom tempo, sentiram que era o momento de espreitar a superfície.
Pareceu-lhes que, para lá do ruído do mar que se agitou de repente, o sol se fechou.
A gotinha mais dinâmica reparou que as nuvens estavam carregadas.
De repente, sem saber como, viu-se poisada numa, a sobrevoar o mar e os campos.
A gotinha de água achou tudo muito seco e triste.

Os campos rachados com tanta secura, as plantas vergadas com sede, os rios não corriam, as barragens estavam semi-vazias e os Homens andavam cabisbaixos e sem sorriso.
A vida sem água não era possível.
Assim, pensando depressa, a menina gotinha de água chamou as suas irmãs.
Deram as mãos e foram em socorro de todos.
Deixaram-se escorregar pelas folhas, pelos caminhos, pelos campos.
Encheram rios, poços e barragens.
A terra ficou prenhe de água e quem precisava dela sorriu de felicidade.
As flores abriam as pétalas em forma de agradecimento.
As árvores tornaram-se mais verdes e deram frutos saborosos.
Os passarinhos cantavam, aninhados nos galhos.
As searas engrossaram e o grão transformou-se em pão.
As ervas, alimento dos animais, cresciam e prometiam fartura.
A terra, hidratada pela chuva, não se cansava de produzir.

As meninas gotinhas de água olharam lá de cima e viram nos rostos dos Homens um sorriso gigante que as encheu de alegria.
O sol… mostrou-se resplandecente!

Agora sim, pensaram. 
Tudo era vida.

Podiam recolher-se outra vez.

Abraço.

sábado, 24 de novembro de 2012

Tornar útil o tempo














Depois de tantos anos debaixo de controlo, a cumprir horários e a responder com empenho à tarefa de educar, fiquei livre.
Logo de seguida, dei asas à minha liberdade de acção.
Comecei pelo que mais me agradou.
Saí, observei, saboreei e partilhei o que mais me tocou.
Pus à prova a minha sensibilidade.
Mostrei-me sem artefactos tal e qual sou.
Tenho-me sentido preenchida.
Deixei que a minha imaginação e criatividade fluíssem e falassem por si.
Assim, apenas eu, sem maquilhagem.

Tenho gostado desta ocupação do meu tempo.
Ainda mais porque gosto de partilhar.
Acontece que, de há um tempo para cá, apeteceu-me diversificar.
Pegar também em alguns trabalhos a nível manual.
Digamos: voltar a pegar em coisas que, em tempos idos, gostei de fazer.
Não dizem que a História se repete?

Pus mãos à obra e entusiasmei-me.
Afinal é como andar de bicicleta: dizem que nunca se esquece.
Bom, uma ideia aqui, outra ali, o resto é da minha lavra.
Apenas alguma criatividade.
Gosto de ver o produto final.
Dá-me gozo usar coisas completamente exclusivas.

Que saíram de mim e do meu gosto.

É bom criar.
É relaxante e preenche-nos o ego!

Abraço.

Nota
Os trabalhos das fotos foram feitos sobre peças de linho. Uma delas, a das alças, é linho «original» e terá bem mais de cem anos. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O prego caibral
















A crónica de hoje surgiu depois dum passeio ao passado.
Nesta tarde fria, decidi não sair do meu aconchego.
Enquanto me ocupava com outras tarefas, viajei.
Aliás, como tantas vezes me acontece.
Gosto destas viagens.
Sobretudo quando me trazem recordações que me fizeram tão feliz.

A minha avó materna, aos oitenta e tal anos, ficou confusa.
Trocava-se toda.
O seu cérebro deteriorou-se.
Nos dias de hoje, talvez se pudesse dizer que a minha avó tinha Alzheimer ou coisa parecida.
Eu, adolescente, gostava de estar com ela, por isso, estava sempre muito presente.
Gostava de a ouvir e brincar com ela.
Sei que, apesar de não me identificar como neta, gostava muito de mim.
Logo que eu chegava, começava a conversar e dizia as coisas mais desconexas que se possa imaginar.
   
Contava-me muitas histórias imaginárias sobre a sua própria vida.

Um dia perguntou-me quem era eu.
- Sou sua neta – respondi.
Muito ofendida, disse logo.
- Eu nunca me casei! Não é que não tivesse quem me quisesse!... Mas eu nunca fui nessa! Quando morrer, ainda levo o raminho da palma!!!

Queria ela dizer que ainda era virgem!
Levava a mal quando eu, de riso fácil, me largava a rir.
A minha avó foi sempre uma pessoa recatada, mas depois, com a doença, transformou-se. Metia-se com quem passava e dizia as coisas mais inesperadas.
Dizia por exemplo, quando uma mulher com a higiene menos bem feita aos sovacos passava por perto:
- Olha aquela! Leva ali o ninho da carriça!...
Às vezes deixava-nos embaraçados.

Se eu aparecesse de saltos altos e finos, dizia me:
- Ó menina, como é que consegue andar assim, em cima desse prego caibral?

Era querida a minha avó Maria Isabel.
Chamava-me simplesmente «menina», tratava-me por «vossemecê» e queria-me bem junto dela.

Falava, falava, falava.
Dissertava sobre o que, na hora, lhe passava pela cabeça. 
Pura ficção.
Bons tempos eu passei com ela!

Abraço.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Quando o olhar entristece















É agradável quando olhamos alguém, e deparamos com um olhar luminoso.
Um olhar que fala por si.
Com brilho, límpido.
Um olhar que traz ao rosto uma luz que irradia bem-estar.
Que sorri sem sorrir.
Que dá ao rosto um brilho radiante.
Que apetece admirar e até às vezes invejar.
No bom sentido, claro.

Isto acontece quando se está bem na vida.
Quando se está feliz.
Feliz e preenchido.
Sem nada que ensombre o espírito.
Para muita gente seria preciso pouco.
Bastar-lhes-ia estabilidade e o suficiente para o dia a dia.

No momento presente, dificilmente se consegue uma visão destas.
Existe, sim, desânimo.
Falta de esperança e um futuro interrogado.
Numa situação assim, o olhar deixa de brilhar.
Em vez de luminoso, o olhar fica triste e baço.
Como o de quem navega no escuro e não conhece o amanhã.

Quando será que os olhares voltarão a brilhar?

Abraço.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A aposta na educação






















Desde sempre e às vezes ainda hoje, a falta de educação, formação intelectual e preparação dos cidadãos foi e é, razão para que por vezes ainda haja cidadãos
pouco preparados e a agir de forma menos própria.
Sem bases, a grande maioria foi e é criada mais ou menos ao sabor do instinto.
Muitas vezes, também, das necessidades e das possibilidades familiares.
A educação e a cultura, elas mesmas, raramente estiveram /estão presentes nas preocupações dos responsáveis.
Por falta de conhecimento, por ignorância ou porque ainda se considera mais importante que o cidadão arranje um bom modo de vida, pois o dinheiro continua a ser o que move tudo.
Normalmente fixados nesse objectivo, somos encaminhados para o Mundo sem nos passar pela cabeça que há algo mais!
E igualmente ou mais importante.
Daí resultou uma sociedade pouco esclarecida e sem necessidade de se cultivar, de adquirir conhecimento.
Pouco preparados, vamos deitando filhos ao mundo, mais para continuar a descendência, e sem a preocupação da qualidade.
No momento em que vivemos, algumas mudanças já se operaram para melhor.
Praticamente todos estudam.
Só que esses estudos são de fraca exigência.
É só exigido passar.
O conhecimento a nível global ainda é de somenos importância.

As lacunas são enormes e lá continuamos nós em certos aspectos, muito parecidos
com o meio.  

Raramente a formação e a educação propriamente ditas estão nos horizontes.
Daí a falta de noção e de bom senso para discernirmos ainda hoje qual a melhor forma de actuar em certas situações mais sensíveis.
Qual o melhor caminho?
Depois de pensar neste assunto, só pude concluir que faltaram/faltam, as bases.
Faltou a transmissão por via umbilical.
Não há nada, ou haverá muito pouco.
Por isso mesmo, ainda hoje se age a maior parte das vezes apenas por instinto.

Só assim se percebe, o porquê de atitudes que deixam de queixo caído os mais incautos.  

Ainda hoje o problema da educação e da formação intelectual está actualíssimo.

Seria desejável que passasse a prioritário.

Abraço.

sábado, 17 de novembro de 2012

O meu momento














São neste momento dezassete e trinta e cinco.
A noite aproxima-se a passos largos.
Lá fora há uma semi-obscuridade que me convida a fazer uma pausa.
Neste fim de dia cinzento-escuro de Novembro, aqui no meu espaço ainda não se nota a presença do Outono.
As duas buganvílias, uma de cor amarela e a outra de cor vermelha, dão as «mãos».
Unidas pelo toque, parecem apelar às gentes que se unam também.

Tudo aqui ainda é verde e colorido.
Cá dentro a lareira crepita e dá à sala um ambiente morno, tranquilo e sereno.
E a noite chegou.
O céu fechou-se fortemente.
As nuvens pesadas anunciam chuva.
Eu, aqui no meu canto, faço só meus os momentos em que escrevo.
Como já reparou, nada de novo, apenas o trivial do dia a dia.
Também são necessários momentos banais.
Só nós e a nossa privacidade.
Quanto a mim, também ela necessária para o nosso equilíbrio.

Parar um pouco.
Não pensar em nada que incomode.
Dizer ou fazer apenas o que apetece no momento.

Apetece-me também agora, desejar-lhe um bom resto de fim-de-semana.
Tente não pensar na crise por alguns momentos.
Faça apenas aquilo de que gostar.

Abraço.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ver por dentro













Normalmente, quando olhamos para alguém, a tentação é fixarmo-nos no seu aspecto físico.
A partir daí, muitas vezes tiramos ilações erradamente.
Esquecemo-nos de que o aspecto físico é apenas um invólucro.
Um invólucro que às vezes não corresponde ao que parece.
Que nos passa uma mensagem que pode levar ao engano.
A tirarmos conclusões que não correspondem à verdade.

Uma avaliação apressada pode levar-nos a cometer erros.  
Julgar alguém merece cuidado e bom senso.
Um juízo de valor incorrecto, pode comprometer o futuro.
A análise deve ser feita à partida com tempo e alguma ponderação.

O que existe para lá do invólucro, o que não se vê logo à partida, é bem mais importante.
Os sentimentos, o carácter, o bom senso, a honestidade são valores demasiado valiosos para serem ignorados.
É debaixo do invólucro que estão.
E não se detectam logo nos primeiros contactos.
Só com o tempo vêm ao de cima.
O invólucro pode ser um enigma.

É só dar tempo e ir observando.

Abraço.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A crise e os humores





Nestes tempos de instabilidade, só com esforço se consegue encarar a vida com alguma leveza, e sorrir.
As dificuldades, as incertezas e a interrogação quanto ao futuro, tiraram de vez a vontade de brincar, à maioria dos portugueses.
A vida está sombria.
Embora o tempo esteja cheio de luz lá fora.

Nem o «labioso» do senhor Passos, a anafada da senhora Merkel, ou o rapidinho do senhor Relvas, devolvem o sorriso aos portugueses!
Tantas tropelias, tantos arranques falsos, ora para a frente, ora para trás, e só conseguem arrancar ou um sorriso amarelo ou uma catalinada de impropérios menos próprios.
Nem nos dão tempo para nos refazermos das surpresas! 

Não fora a seriedade da coisa, até daria para sorrir, quando a senhora Merkel disse com ar de pessoa a quem agradou o que viu, que, quando já não for chanceler, vem até cá passar férias!
Deve ter gostado das vistas que o senhor Coelho lhe mostrou no Forte de São Julião!
Que belo momento da visita!
Que regalo para os olhos pequeninos mas matreiros da senhora!

Provavelmente, nessa altura também será recebida pelo amigo que, com o pecúlio conseguido, já terá uma bruta mansão para a acolher a ela e aos seus – quem sabe!...

Vai um sorrizinho?

Que lhes faça bom proveito.

Abraço.

domingo, 11 de novembro de 2012

O cavalo e o homem


















Quando eu era criança, passava à minha porta um homem grande.
Passava montado num cavalo grande e para mim muito alto.
O homem, de chapéu de três bicos, intimidava a criança que eu era.
Ao vê-lo cá de baixo, parecia-me uma figura poderosa.
Algo de misterioso passava pela minha imaginação.
Tinha medo daquela figura.
Vista cá de baixo, parecia-me demasiado imponente e vinda de um outro sítio qualquer, que não do meu mundinho de menina.
Logo que, ainda lá longe, ouvia o trotar do cavalo, ficava em alerta.
Em alerta mas curiosa.
Meio dentro, meio fora da minha porta, via-o passar e olhava-o.
Ele, que já devia ter percebido o efeito que fazia em mim, olhava-me com um meio sorriso, que ainda o tornava mais enigmático.
Tinha medo daquele homem.
Saía do padrão normal dos homens da minha terra.
A minha ingenuidade de criança transportava-me para um mundo de gigantes, onde o perigo espreitava a cada canto.
Custou-me a habituar àquele trote de cavalo e àquele homem grande!...
Só mais tarde, já adolescente, interiorizei que aquela figura, para mim misteriosa, era apenas um lavrador abastado da minha própria terra.
O cavalo conduzia-o apenas às suas propriedades.

Ainda que desfeito o enigma, ainda hoje me impressiono, quando penso na figura grande, majestosa e imponente, daquele homem grande.

O que a imaginação de uma criança pode!... 

Abraço.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O português e as calinadas


 



Toda a minha vida levei na cabeça quando, ao expressar-me, o meu português não saía escorreito.
Foi uma luta de anos.
Valeu a pena.
Hoje sinto-me orgulhosa por nunca me ter rebelado.
Aceitei sempre com agrado as correcções e tirei o melhor proveito.
Talvez por isso esteja sempre muito atenta à forma como cada um se expressa.
Principalmente, quando se trata de alguma figura com visibilidade pública.
Ou de algum docente com obrigações de ensinar com correcção.

Infelizmente é frequente por aí.
Pessoas com responsabilidades deixarem de rastos a língua de Camões.
Ainda nunca percebi se o fazem porque acham que é uma questão de somenos importância, ou se é mesmo porque não dominam a gramática.
Falha da Escola?
Desinteresse?
É pena.
O português bem «dito» é uma língua bonita.
Difícil, mas muito bonita.
Dizê-lo bem é um prazer e um desafio.

Eu gosto muito.

Abraço.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Extractos de uma vida






















Uma pessoa que, como eu, viveu trinta e tal anos rodeada de crianças, tem sempre um sem número de estórias engraçadas para contar.
Tenho muitas.
Só por comodismo não vou ao «sótão» buscá-las e descrevê-las.
Hoje lembrei-me de uma que me vem à memória muitas vezes, pela força que teve.

Carlos era o nome da criança.

No seio familiar chamavam-lhe Càquinha.
Era de cor preta.
Três anos grandes.
Antes de entrar para o infantário, a sua vida – se é que se pode chamar vida àquilo – era passada na rua, num bairro degradado da Damaia.
No inverno, semi-nu, brincava na lama, que dava até meio da pernita magra.
A completar o cenário um permanente ranho grosso sempre a correr.
No verão a lama era substituída por um sol tórrido.
Pele ressequida e sempre com feridas.
Tinha um olhar perdido.
E muitos gestos de revolta.
Ao entrar no infantário foi um choque.
Não estava habituado a regras.
Nem sociais nem de higiene nem nada.

Calhou-me em sorte.
Foi um osso muito duro de roer.
Já estava habituada a outros casos igualmente difíceis.
Encarei o facto com um desafio difícil, mas que teve resultados compensadores.
Pus-me à prova.
Peguei nele com vontade e muita paciência.
Penso que me posso orgulhar de lhe ter sido útil.
Continuava quase sem roupa, ainda que o frio gelasse.
No primeiro inverno que se seguiu à sua entrada, não aguentei vê-lo assim e decidi arranjar-lhe algumas roupas.
Aceitou-as com relutância.
A sua pele não estava habituada.
A pior reacção foi quando tentei vestir-lhe a camisola de lã grossa, que fiz de propósito para ele!
Com fio duplo.

Logo que lha enfiei, a gritaria pôs o infantário em alerta geral.
«Mejola não, Duche. Mejola não!...»
(Camisola não, Dulce!...).

Com muita pena minha, não insisti.
Entendi-o.
Estava habituado a andar solto e aquela coisa grossa prendia-o.
Tirava-lhe a liberdade a que estava habituado.
Foi um episódio marcante, mas revelador.
Já bastavam as regras a que foi submetido.

Fiquei com a camisola na mão meio desconsolada.
Foi usada por um filho de uma colega minha.

Este caso ficou para a história do infantário.

Deixou-me a pensar.
A partir desse dia, dei ainda mais atenção ao «Càquinha».
Foi um trabalho árduo, mas valeu bem a pena. 

Abraço.

domingo, 4 de novembro de 2012

Conhecimento


 















Para mim o conhecimento resulta da sede de saber.
Ao adquirir conhecimento estou a desbloquear o cérebro e partir à procura.
De quê, porquê, para quê, onde, como?
Adquirindo-o, posso tornar-me uma pessoa mais confiante.
Mais sabedora e esclarecida.
Posso ser mais completa na relação comigo e com os outros.
Posso estar mais consciente do que quero.
Sem me deixar manipular.
Sem deixar que me amputem a inteligência.
Sem deixar que me conduzam.
Angariar mais defesas par me saber conduzir.  
Conhecimento é não ficar fechada em mim.
É a procura de tudo o que me possa enriquecer.
É juntar a minha experiência de vida á experiência de vida dos outros.

Em suma, é o caldear de saberes.

Abraço.

sábado, 3 de novembro de 2012

Por esta não esperava






















Não esperava mesmo.
Passaram trinta e sete anos.
Cabinda, Buco Zau

Duas crianças: Nuno e João.

Duas crianças em plena floresta do Maiombe.
Também elas «recrutadas» para a guerra.
Era preciso, junto com a mãe, apoiar o pai, médico.
Também ele chamado a cumprir o «dever».
Ainda hoje vejo os dois, escorrendo suor.
Massacrados com o calor.
Arrastavam-se pingando.

O João ainda com fralda e chucha.
Penso que um ano e meio.
Cabelos pretos um pouco longos, caíam-lhe em cachos.
Olhos negros grandes de carvão.
Fralda pesada de suor e às vezes não só.
Que eu mudei algumas vezes!

O Nuno, pouco mais velho.
Pele clara, cabelo louro.
Olhos grande e bonitos.
Era calmo e ponderado.
Conviviam os dois com o calor, arrastando-se todo o dia sem exigirem quase nada.
Só mais tarde iriam perceber o porquê daquele castigo!...

Que bom que tenham tomado consciência.
Conhecendo os pais como conheço, nem seria de esperar outra coisa.

Fiquei muito contente por o Nuno ter entrado em contacto.
Por o saber sensível e curioso do seu passado.
Que, como não pode deixar de ser, fará parte da sua história de vida

Obrigada, Nuno, por teres transcrito parte do meu texto no teu facebook.
Fiquei reconhecida e ao mesmo tempo surpreendida.

Que bom ter feito parte da vossa vida durante algum tempo.

Um beijo grande aos dois.

Dulce 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Sem tema





É isso, hoje não estou com inspiração.
Se é assim, porque não dou meia volta?
Olha, porque já me habituei a esta rotina e enquanto não me sento e digo qualquer coisa, parece que não estou completa.
Bom, mas quando se escreve é para partilhar, para dizer algo com interesse.
Só que hoje, parece que o meu cérebro se está a recusar a colaborar.
Porque será, pergunto eu?
Não sei, só sei que tenho como que uma nuvem, que trava o que normalmente sai sem dificuldade.
Gosto que o que escrevo me saia bem cá de dentro.
Gosto de sentir o que sai.
Gosto de o transmitir tal e qual.
Assim, em directo e sem rede.
Hoje estou meio-vazia.
Será que o dia está a influenciar-me?
Nunca gostei de meias tintas.
Está enevoado, meio sombrio e indefinido.
Há qualquer coisa que me trava o pensamento.

Sei como isto se resolve.
Vou pôr o cérebro a mexer.
O cérebro e não só.
Preciso mesmo é de puxar pelo físico.
Nada melhor do que hora e meia de ginásio.

Abraço.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Tempo para reflectir





Nem sempre, ao longo da vida, temos tempo para parar e pensar.
O tempo é demasiado preenchido e cheio de preocupações.
O que nos resta não é suficiente, nem sequer para dedicarmos a nós próprios.

Perante este cenário, a reflexão passa ao largo.
No meu caso, sempre tentei estar atenta.
Mas só agora, depois de arrumar essa fase «activa», me pude dedicar mais atentamente à reflexão séria.

Parar para pensar.

Esta frase ouvimo-la ao longo do tempo.
E até achávamos que sim, que devíamos parar e pensar.
Só que no meio de tanta ocupação, aquilo era um apelo que nos parecia longínquo e nós disfarçávamos e continuávamos na labuta.
O cérebro recebia a mensagem.
Mas acomodava-se.
Negava-se a parar, sobretudo a pensar.
Continuava meio adormecido, embalado pelos afazeres.
Convenhamos que reflectir dá trabalho!
E responsabilidade também.

No que a mim diz respeito, agora sim, nesta calma em que vivo, tento olhar, ver, pensar e concluir sem pressas nem pressões.
Nem sempre fico confortável com o que vejo.
Mas pelo menos não posso dizer que não vi.
Que não tive tempo!...
Meter a cabeça na areia, seria demitir-me de cidadã consciente e responsável.

E como o Mundo precisa de todos!
Em conjunto, seria mais fácil.

Abraço.  

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

«Um exemplo a seguir»





Uma frase destas, dita seja em que contexto for, é sempre agradável de ouvir.
Sobretudo quando nos é dirigida cara a cara.
Desta vez fui eu a protagonista.
Nem sempre a vida nos dá lambada!
Também nos reserva atitudes de simpatia e apreço.
Atitudes de incentivo e reconhecimento.

«Se eu mandasse, punha na parede deste ginásio um cartaz com uma foto sua a treinar.
Por baixo, uma frase que diria:

- «UM EXEMPLO A SEGUIR»!...

Foi esta a frase que me deixou vaidosa.
Vaidosa e sem resposta.
Não estava á espera.

O seu autor: o meu professor de há quatro anos.
Jovem licenciado na matéria e com mestrado ainda quente.

Como não me sentir gratificada?

Abraço. 

domingo, 28 de outubro de 2012

A dor





A dor é abstracta.
Não se mede nem se pesa.
Só dói.
A dor física é forte, sobretudo se for uma cólica renal das fortes.
Essa também já me tocou.

A dor psicológica, essa, é para mim a maior de todas.
A única que já me fez sofrer a sério.
Infelizmente, também já a conheço.
Dói de uma forma diferente.
Estende-se a todo o corpo, à mente, às entranhas e ao cérebro.
Aperta o coração e dilacera a alma.
Conheci-a quando da morte repentina dos meus pais, ambos ainda muito novos.

Não há como descrever esta dor.
É uma dor grande.
Longa, demasiado profunda e incontrolável
Desesperante.
Dura… dura… dura…
Penso que para todo o sempre.
Embora tentemos disfarçá-la, distraí-la, não há forma.
Pelo menos, nos primeiros tempos.
Temos a sensação que perdemos tudo e nada mais vale a pena.
Queremos estar sozinhos.
A rever o filme da nossa vida, onde os que partiram eram personagens principais.
Precisamos disso para sentir que ainda estamos ligados aos que perdemos.
Precisamos de tempo para interiorizar que não há mais.
Nunca!...
Acabou.

É difícil arquivar tudo o que se viveu.
Sobretudo quando a ligação era muito forte.
Com quem tínhamos tantas afinidades, com quem partilhávamos tudo.
Que sempre e em todos os momentos, bons ou menos bons, nos deram um amor incondicional.

Sentimo-nos mutilados por dentro.
Profundamente doridos.

A tão falada dor da perda!

Não é fácil arrumá-la, não!...

Abraço.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A tradição





Está a aproximar-se o dia de finados.
É quase certa uma invasão às campas de quem já partiu.
Em todo o país é a corrida às flores.
O seu preço triplica.
Os cemitérios enchem-se.
De semblante carregado, cada um procura alindar o melhor que pode a última morada dos seus entes queridos.

É a tradição a cumprir-se.
Não tenho nada contra.
Contudo, tenho há muito tempo a minha opinião formada sobre este tema.
Como já aqui tenho referido, tenho infelizmente autoridade moral q. b. para falar de perdas.
- De caminhadas para o cemitério.
- De ramos de flores.
- De saudade que dói.
Tudo isto é normal.
Mas o que para mim tem mais peso é a lembrança que fica.
- Os laços que não se desfazem.
- As memórias que marcaram e que nos visitam todos os dias.
- Que nos mantêm, ainda que sem flores, unidos todos os dias de todos os anos.
Tudo o resto, que muito respeito, é cumprir a tradição.
Uma tradição que, por mim, acho lúgubre e que as pessoas cumprem obrigatoriamente de ar compungido.
   
Para lembrar e homenagear os nossos, também é preciso não os esquecer no resto do ano.

Ainda que não haja flores nem velas.

É este o meu sentir.

Abraço.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Não desistem de mim


sitemeter

 ... 


É bom constatar que há quem não desista de mim.
Refiro-me às visitas a este blogue.
Há já alguns dias que nem sequer tenho pegado no computador.
Não por falta de tempo.
Apenas porque sou humana e às vezes desmotivo.
Foi como que um enjoo!

Hoje decidi-me.
Vim espreitar.
Pensei até que viria encontrar o contador parado.
Fiquei surpreendida e pensei exactamente:
- Que bom! Não desistem de mim!

Ainda pouco activa, achei que me devia mostrar.
Mostrar que tenho apreço por quem o tem por mim.
Obrigada a todos por me procurarem dia após dia, mesmo comigo quieta.
Não é que o meu cérebro tenha estado parado.
Antes pelo contrário.
Se calhar esteve até demasiado activo.
Só que virado para outros campos, que não o da escrita.
Vou tentar continuar.
Vou tentar continuar a partilhar como sempre fiz.
As minhas preocupações, alegrias, revolta, decepções etc….
Vocês, desse lado, são os meus interlocutores.
Interlocutores silenciosos e pacientes.

Obrigada pelo apreço.

Abraço.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Celibato sim ou não





















Ao criar este espaço, pensei que o aproveitaria para me questionar, reflectir e interrogar.
Para lá, claro, de passear pelo passado e falar dele.
Isto é, recordar e partilhar.
«Memória» (Rota da).
Dar-me a conhecer.

Como certamente também já se percebeu, tenho os meus momentos.
Dias de satisfação, de indignação, de surpresa, de dúvida!...
Hoje dei comigo a pensar num tema sobre o qual muita gente se tem interrogado.
Celibato dos padres, sim ou não?

Para alguns:
-Sim, porque de contrário estariam divididos e não cumpririam a sua missão?
Para outros:
- Não, porque antes de serem padres são homens e não é correcto levarem uma vida de frustrações e solidão, quando alguns o que desejariam, era poder ser homens de corpo inteiro.

Por mim apoio a segunda hipótese.
Devo lembrar que esta lei é uma lei imposta pela Igreja.
E que, por causa dela, muitos escândalos têm rebentado no seu seio.
Desde relações clandestinas de que nascem filhos, até às que se «escondem» eternamente mas de que toda a gente fala.

Hipocrisia – é o que eu acho.
Com abandono de mães e filhos.

Penso que todos lucraríamos mais com uma situação de verdade.
Sem ter que andar com um ar mais ou menos seráfico de olhos no chão.

Tenho autoridade moral para falar assim:
Sou bisneta dum Abade (do Sabugal), que teve três filhos.
Para maior vergonha abandonou um.
O meu avô, que enquanto criança comeu o pão que o diabo amassou.

Bonito não?

Abraço.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Convites























Hoje o dia está convidativo.
Convida a…
Não me refiro a convites formais, que esses nunca foram muito o meu forte.
Nunca gostei muito de formalidades.
Gosto muito mais que os amigos e familiares me entrem casa dentro, sem eu os esperar.
Isso, sim, faz-me sentir bem.
Faz-me sentir acarinhada e lembrada.
São sempre surpresas agradáveis e que me dão alegria.

Hoje, quero eu dizer, que o dia convida ao recolhimento.
À reflexão.
À execução de tarefas que nos exijam alguma concentração.
Pelo menos é isto que eu sinto.

Está um dia cinzento, meio chuvoso e com uma mistura de ar fresco, que pede aquele ambiente de silêncio que me agrada sempre.

Só por pudor é que a minha lareira ainda não se acendeu.
Por detrás do vidro, esperam três troncos por uma pinha incandescente.
A temperatura dirá quando será que o fósforo se irá acender.

Até lá, a mantinha fofa desempenha um papel importante.
Entretanto, a chuva mostra-se lá fora.
Suave e mansa mas persistente.
Por detrás da vidraça e para lá da chuva, mostram os braços as minhas buganvílias. Uma vermelha outra amarela, que daqui a mais algum tempo se hão-de entrelaçar.

Bonito de ver!  

Que bom esquecer por momentos o turbilhão atarantado dos governantes!...

Abraço.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Débeis é que não





Vemos todos os dias situações muito tristes.  
Falta de educação, falta de respeito.
Um pouco por todo o lado.
Por isso, sentir-nos-íamos certamente muito mais confortáveis, se não nos deparássemos tão frequentemente com humanos acéfalos.

Infelizmente, não é esse o caso.
Ao longo da vida, cruzamo-nos com atitudes e gestos tão inesperados, incorrectos e sem critério, que nos levam a pensar que estamos perante gente débil, sem ideias próprias e facilmente manipulável.
Tipo homem das cavernas, mas com cérebro incompleto.

Por algum motivo, começa a haver responsáveis a pedir uma Escola mais exigente.
Mais completa.
Cujos conteúdos não se fiquem apenas pela matéria obrigatória para se obter um diploma.
Mas com conteúdos onde os bons princípios, o respeito pelos outros e a educação estejam bem mais presentes.
Que obrigue as pessoas a atingir uma maior capacidade de pensar.
De reflectir.
De decidir.

Partilho há muito desta preocupação.
Acredito que só com um grande esforço de mudança se conseguirá uma sociedade mais exigente, mais criteriosa e bem formada.
Deixaremos de ver pessoas conduzidas por arrastamento.
Manipuladas e a agirem com o cérebro dos outros.

Um país de gente que saiba não só o que quer, mas também como agir.

Abraço.

domingo, 14 de outubro de 2012

Sua Eminência e a rua












Sua Eminência o Cardeal Patriarca de Lisboa foi a Fátima.
Até aí, nada a estranhar.
Sua Eminência falou à imprensa.
Também aí, nada de anormal.
Falou com voz calma, seguro de si, sem sinais de preocupação no rosto.
Nota-se que sua Eminência está de bem com a vida.
Não lhe falta emprego.
Não lhe falta casa e que casa!...
Não lhe falta dinheiro!
Nem sequer precisa de comprar o tabaco de enrolar!
Até pode continuar com os seus cigarritos do costume!...
E mordomias?
Ui!
Mordomias e mordomos!...
Sente-se bem no silêncio dos seus amplos aposentos, o senhor!
Por tudo isto, a rua faz-lhe confusão, coitado.
Incomoda-o!...
Depois, não acha bem tanto alarido, Sua Eminência!
Tanta gente, tanta gente…
Vão para casa, meus filhos!
A rua não resolve nada!...
Vão para casa e…rezem… rezem…

Vá, porque cinquenta anos a rezar sentadinhos ou de joelhos, ainda não foram suficientes.
É preciso que continuem.

Agora eu:
Está-me a cheirar a mofo, a fumo de velas… ou é a naftalina?
Se calhar é a isto tudo.
Deve ser a batina de sua Eminência que saiu de alguma arca do século dezanove!...

Ele há coisas!...

Rezem meus filhos, rezem!..

Abraço.

Leia e oiça:
- José Barata Moura, aqui.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O gigante acordou





O gigante acordou cedo.

Acordou e acordou-me.
Pareceu-me mal-humorado.
Pelo seu rugir, alguma coisa não lhe agradou ao despertar.
Fiquei intrigada.

Logo que pude, fui visitá-lo.
Lá estava ele.
Grande!
Mas para meu espanto, estava quieto.
Sereno, conversando com um punhado de gaivotas espraiadas ao sol.
Mudou de humor.
Acalmou-se e resolveu gozar o belo dia que entretanto rompeu.

Também eu usufruí deste dia.
O ambiente convidava a um passeio.
Já há algum tempo que precisava de um ambiente assim.
Só eu e o mar.
Aproveitei e pus com ele a conversa em dia.

É um bom amigo, o mar.
Tinha saudades da forma como sabe ouvir.

A manhã terminou com um banho, que nem em pleno verão saberia melhor.

Regressei em paz.

Até amanhã, mar.

Abraço.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ainda os ratos






Coitados dos ratinhos.
Vociferaram a sua indignação e recolheram-se.
Aliviados da raiva, mas não conformados.
Conversaram e decidiram dar um tempo àquelas ratazanas parasitas e gulosas.

Continuaram a mourejar, porque os filhotes precisavam de comidinha.
Todos os dias saíam e trocavam ideias com os outros ratinhos.
A paciência esgotava-se a conta-gotas.
A raiva crescia dentro deles.
As dispensas começavam a ficar vazias, as migalhas escasseavam.
De focinhitos caídos e barriga meio-vazia, não desistiam.
Só esperavam que as ratazanas lustrosas, e de casacas de grilo, se dignassem a olhar para eles, figuras pequenas, mas corajosas e trabalhadoras.

Eis se não quando, a ratazana de topo mandatada pelos gulosos que a rodeavam, apareceu no alto do seu buracão e disse.

-As regras são estas, vocês só têm que se acalmar.
Nem todos podem ter a barriga cheia como nós.
O palácio é grande, mas nós somos ratos exigentes e precisamos de muito espaço.
De comida de qualidade e não de migalhas deixadas por outros.
Deixem de ser piegas e trabalhem.
Olhem as formigas!
Deixem de ser ignorante e aceitem o que vos digo.

Perplexos, os ratitos engoliram em seco, mas prometeram voltar.
Não sem antes gritarem sua indignação.

Recolhidos, matutam, matutam, e esperam o momento.

Temo que saia violência!...

Abraço.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Redacção - Tema: «Os ratos»






Era uma vez um grupo de ratos vaidosos, ambiciosos e gananciosos q. b..
Reuniram-se pela calada da noite e tomaram de assalto um palacete.
Porquê?
Porque, segundo eles lá teriam uma vida melhor.
Teriam acesso a todas as guloseimas e mordomias.

Nos primeiros tempos, a coisa correu-lhes de feição.
Não faltaram banquetes e diversão!

Os outros ratos, coitados, olhavam para aquelas festanças e perguntavam-se:
- Mas porque é que eles têm direito àquela vida e nós não?
- Porque é que temos que andar aqui a apanhar migalhas, com os filhotes atrás a pedir mais e mais?
- Isto é injusto.
Decidiram rebelar-se.
Comunicaram através de buraquinhos, juntaram-se no sótão duma casa muito velha e traçaram um plano.

Chamaram os ratos de toda a cidade e foram até ao palácio.
Chiaram, chiaram, chiaram e nada.
Dos ratos do palácio ninguém apareceu.
A chiadeira ecoava cada vez mais alto.
Nada.
Enquanto eles se esmifravam, uma corja de ratazanas assustadas, focinhos no chão e sem serem vistos, fugiram pela porta dos fundos.  

Regressaram só quando o silêncio se fez ouvir.

Ratazanas cobardes, medrosas e fugidias, não merecem pertencer ao mundo dos ratinhos honestos e trabalhadores.

Abaixo os vaidosos, medrosos e sem «focinho» (sem cara).  

Dos ratinhos,
Um…

Abraço.

domingo, 7 de outubro de 2012

A capacidade de sonhar





Signos?
Sou do signo Touro.
Dizem que sou Terra.

Apeteceu-me hoje ler o que o signo diz sobre mim.
Devo dizer que nunca pautei a minha vida pelo que o signo diz ou deixa de dizer.
Contudo, na verdade, revejo-me em muitas das características que me atribui.

Estabilidade.
O gosto pela natureza.
Entre outras.

Nestas duas acertaram em cheio.
Gosto de estabilidade.
Preciso muito de ter os pés assentes na terra.
Amo a natureza e não me canso de a observar em pormenor.
Rodeio-me de tudo o que me possa ligar a ela.
Flores, animais e objectos que, embora inertes, mostrem bocados da sua beleza.

Afectiva.
Teimosa.

Também aí estão certos.
Sou sim as duas coisas.

Quanto aos afectos, por causa deles já sofri algumas decepções.
Ainda assim, vale a pena ser afectiva.
São imensas as compensações.
Teimosa.
Talvez um pouco, quando tenho que defender causas em que acredito.
Quando tenho a certeza que a razão está comigo.

Não conheço o «fundamento» dos signos.
Às vezes acho que são uma grande patranha.
  
Coincidências?

Abraço. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Surpresas boas


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Durante a vida, quando menos esperamos, somos surpreendidos.
Nem sempre as surpresas são agradáveis.
Muitas vezes, aparecem-nos em forma de marteladas que, ao atingirem-nos, doem mesmo.
É suportando-as que crescemos e vamos endurecendo.
É com elas, também, que nos tornamos muitas vezes mais duros e indiferentes.
Que valorizamos menos as coisas vulgares e fúteis.
Que passamos a apreciar mais as coisas boas.

Sim, porque a vida também nos traz alegrias.
É bom, ficamos agradecidos e felizes
O espírito fica mais leve e é mais fácil descobrir a tal parte boa da vida.
Ficamos mais disponíveis para olhar à nossa volta.
Para observar o que está mal, mas também o que nos pode deliciar o olhar. 

A Natureza por exemplo.
Essa, nunca deixa de nos surpreender.
A sua beleza e capacidade de mutação são uma constante.

Começa agora a desnudar-se.
Um «striptease» lento e quase sensual.
Belo, sereno e natural.
Apenas uma mudança singular de roupagem.

Assistir a esta mudança, é um privilégio.
Um espectáculo aberto a todos.

É de aproveitar.
   
Abraço.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Há dias


 




Há dias em que nos apetece fazer tudo menos o que está planeado.
Hoje estou num desses dias.

Tenho o ginásio daqui a quarenta minutos.
Apesar de saber que é indispensável à minha saúde e bem-estar, apetecia-me mais ou menos, ficar a zanzar por aqui.
Espreitar esta planta, semear aquela, sentar-me um pouco a espreitar um livro, um jornal.
Ouvir uma musiquinha, divertir-me com os meus felinos, etc…
Há dias.

Bom, mas o que é certo é que não vou ceder.
O ginásio tem sido um bem para mim.
É a ele que devo a actividade que tenho.
A força física e intelectual.
É por via dele que me mantenho com um espírito que consideram jovem.
É por ele que o meu corpo se mantém em boa forma.

Foi ainda por causa dele que reduzi significativamente a medicação a que estive sujeita.
Sei que enquanto puder ir lá, terei uma melhor qualidade de vida e que a minha saúde estará mais protegida.

Então vou.

É bom não esquecer que movimento é saúde.

Até amanhã.

Abraço.