quinta-feira, 22 de agosto de 2013

No primeiro dia

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

Reflexão










Sei que este assunto poderá estar um pouco fora do contexto habitual do dia-a-dia de muita gente, mas às vezes é preciso ter contacto com outras realidades, parar um pouco para pensar.  
A propósito de uma observação diária, ao vivo e em directo, dei comigo a pensar em como a vida é injusta, às vezes até agressiva, para a maior parte das mulheres. Apesar da igualdade de direitos já adquirida, a mulher continua a ser aquela que, salvo excepções, sente na pele o maior peso no seu dia-a-dia. E quando digo «peso», quero dizer também, peso físico. Para lá da sua actividade profissional que é normalmente exigente, ela corre para casa onde a espera a tarefa imensa de dona de casa, mãe e educadora. Ela corre para o infantário onde deixa o filho apressadamente, sem tempo sequer para se despedir com calma e tempo, para que ele fique tranquilo e estável. Corre para o emprego onde a maior parte das vezes é explorada e mal paga, corre para as compras onde tem que se controlar para não desequilibrar o orçamento. Corre, corre, para que nada falte. No fim do dia, exausta, ainda tem que ter um sorriso para o marido, disponibilidade para as crianças e, já a cair para o lado, contar com a ternura possível a historinha da praxe quando vão dormir. Ao homem, educado ainda segundo a mentalidade arcaica dum passado já distante, resta-lhe receber das mãos da mulher as refeições a horas, a roupa lavada e passada a ferro, e claro, se for possível não dar sinal de cansaço. Não quero com isto dizer que não haja excepções, mas ainda não é assumida a colaboração normal e sem diferenças. Às vezes, ele faz o favor de pôr a mesa, sacudir a toalha e sente o dever cumprido. Talvez a alguns esta minha pequena reflexão pareça demasiado radical, mas a verdade é que esta realidade existe, a mulher continua a ter um papel de exigência, que a obriga a uma sobrecarga e a impede de olhar para si própria, esquece-se de que existe, cai no desleixo, perde a auto-estima.
Era tempo de mudar mentalidades, para bem de todos. A propósito, veio-me à memória um poeta que marcou a minha juventude: António Gedeão. Para além de outros igualmente significativos, ele deixou um poema muito forte, que descreve na perfeição este tema. Chama-se «Calçada de Carriche» e refere estas questões:

«(…) Anda, Luísa, / Luísa, sobe, / sobe que sobe, / sobe a calçada. / Chegou a casa / não disse nada. / Pegou na filha, / deu-lhe a mamada; / bebeu a sopa / numa golada; / lavou a loiça, / varreu a escada; / deu jeito à casa / desarranjada; / coseu a roupa / já remendada; / despiu-se à pressa, / desinteressada; / caiu na cama / de uma assentada; / chegou o homem, / viu-a deitada; / serviu-se dela, / não deu por nada. / Anda, Luísa. / Luísa, sobe, / sobe que sobe, / sobe a calçada. / Na manhã débil, / sem alvorada, / salta da cama, / desembestada; / puxa da filha, / dá-lhe a mamada; (…) salta para a rua, / corre açodada, / galga o passeio, / desce o passeio, / desce a calçada, / chega à oficina / à hora marcada, / puxa que puxa, / larga que larga, / puxa que puxa, (…)»

Afectos









Os afectos são o pilar das nossas vidas. São eles que nos ligam de uma maneira saudável a quem nos rodeia. É impossível ser feliz, se transformarmos a nossa vida num mundo pequenino, que não nos deixa espaço para olharmos para os que precisam de nós.
Um ombro, um abraço, um sorriso, fazem a diferença.
São gestos que reconfortam e fazem os outros sentir-se melhor. Às vezes é difícil descermos do nosso pedestal, quantas vezes imaginário, e parar para pensar.
Há muito mais para lá do nosso mundinho efémero e arrogante. Há um mundo de valores a defender e entre eles temos a amizade, a ternura, as relações de solidariedade, a lealdade com todos os que nos rodeiam, a inter-ajuda e tantos outros igualmente importantes.
Depois, temos que pensar que de um momento para o outro, tudo pode ficar diferente e sermos nós a precisar dos que ignorámos. A vida é uma passagem, vale a pena vivê-la em paz.

O frio lá fora








Novembro começa a mostrar os dentes arreganhados de frio.
Lá fora é noite, uma longa noite de inverno que ameaça chuva.
Cá dentro, saboreia-se o aconchego do calor da lareira que crepita. O silêncio deixa ouvir o ronronar dos gatos amantes do calor e da comodidade que os rodeia. Os donos, no fim dum dia preenchido, tentam limpar o cérebro da poluição ambiente e sonora.
É bom ter este privilégio, é um pouco a recompensa de uma vida simples e sem ambições desmedidas.
É pena nem toda a gente poder ter acesso ao bem-estar suficiente para poder ser feliz.

22-10-2010.
Sesimbra.

Silêncio










Nunca como agora o saboreei. Sinto-o à minha volta, quase o oiço. Um pássaro inoportuno mas feliz interrompe, com a sua visita habitual aos filhotes que chilreiam no ninho. Apesar disso, não impede esta introspecção desejada e consentida. Ter tempo e ambiente para ponderar melhor na situação actual do meu país. O que é feito da educação, da cultura, da saúde, do emprego, que a Constituição consagra? Porque se lê
nos olhos das pessoas  tristeza e desalento?
Tenho pena de que tudo esteja subvertido.
Chego à conclusão de que, à minha maneira, e dentro do que me foi possível, também ajudei a sair de cinquenta anos de silêncio imposto e medo contido. Não soubemos utilizar a liberdade que conquistámos, demo-la de barato, a semente não floresceu, era estéril. Deixámos que os valores básicos se perdessem, a educação, o afecto, a ternura, e a solidariedade não nos dizem nada. Apesar de a situação nos passar à porta, vivemos indiferentes a tantos e tão profundos problemas que giram diariamente à nossa volta. É bom viver longe do bulício, da intriga, da mentira e da injustiça.
Pode parecer uma atitude egoísta mas não é: é apenas uma defesa.

O sótão


Há muitos anos atrás, quase todas as histórias começavam por: «era uma vez» … 
Ao ouvirem esta pequena frase, as crianças concentravam toda a sua atenção (por vezes tão difícil de captar) no que então começava a ser descrito. Hoje, e se não for muito maçador, também eu vou começar assim a pequena história verdadeira que vou contar. Era uma vez uma criança muito desejada e querida por toda a família. Nasceu, foi recebida com alegria e a protecção era permanente, nada podia faltar nem perturbar o seu crescimento, era a terceira de dois irmãos mortos pouco depois de nascerem. A ansiedade dos pais era muita e a necessidade de a proteger impunha-se. Tudo lhe foi proporcionado para que se desenvolvesse saudável e a sua socialização se fizesse normalmente e sem redomas a separá-la da realidade. Sem preparação específica, estes pais seguiram o seu instinto que por certo foram beber nas suas origens. Gratidão imensa!!!...
Estas crianças muito protegidas ficam por vezes demasiado caprichosas, mal-educadas, egoístas e pouco sociáveis. Neste caso, não aconteceu. A menina da história viveu e conviveu num espaço amplo, rodeada de amigas e condições para viver e pôr em prática todas as fantasias, criatividade e imaginação próprias da idade – e como são férteis estes factores naquele período da vida! Para dar largas a tudo isto havia o sótão da casa dos pais que tinha todos os condimentos necessários. Desde uma arca com roupa, mesa, bancos, sapatos (rasos e de salto), e ainda alimentos a sério para confeccionar as refeições imaginárias. Aquele sótão marcou pela positiva a vida daquela criança! Mais tarde, passada a idade de brincar ao faz-de-conta, refugiava-se lá. As transformações físicas e de personalidade foram digeridas aí, as alegrias e as angústias foram também partilhadas com algumas das companheiras de sempre. Os momentos eleitos eram os dias de inverno com chuva, vento e trovoada. Que belo refúgio, e que reconfortante que era aquele sótão!!! A vida deu muitas voltas… A criança um dia fez-se mulher: por motivos inesperados e tristes, teve que crescer mais rápido do que seria desejável, teve que abrir as asas e voar. A sua vida tomou outro rumo, o seu futuro não estava ali, o seu querido sótão e tudo o que viveu passou a fazer parte do passado, e arquivado na gaveta das suas memórias: as tais memórias que se recordam com saudade e às vezes nos deixam com uma certa melancolia no olhar. Ironia do destino: muitos anos mais tarde apareceu sem procurar, outro sótão na vida daquela criança já mulher. Diferente mas igualmente aconchegante e com o som do mar em fundo. A história repete-se?
Abraço.

sábado, 17 de agosto de 2013

Fantoches e fantochadas



Há muita gente que, por causa dos factos políticos que todos os dias ocorrem quase em directo, passou a chamar aos políticos fantoches.
E porque será que esta designação lhes fica tão bem?
Toda a gente sabe que um fantoche é um boneco mais ou menos caricaturado, de uma qualquer figura.
Sabem também que esses bonecos são manipuláveis e fazem o que quem os manuseia
quiser que façam.
São bonecos, simplesmente.

Bonecos sem vida.
Só se movem se alguém tomar a iniciativa de os mover.
São bonecos que normalmente divertem quem os quer ver.

Até aqui tudo bem.

São engraçados e os pequeninos adoram-nos.

Mas… e os políticos?
Serão eles eleitos pelo povo para ser fantoches? Para fazer fantochadas?
Para se deixarem manipular?
Claro que não.

Sendo assim, a designação corresponde.
O povo tem razão.
São mais ou menos fantoches.
Vaidosos e sem alma.

Pois é.
Esta forma de tratar os políticos revela a baixa cotação e estima em que a grande maioria das pessoas os têm.

As fantochadas que vão exibindo, pelos vistos, não agradam a quem as vê.
Ridículo – não?

Fantoches, robertos, marionetas, tudo bem.
São de aplaudir.
Mas os que o são a sério!

Abraço.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Inflação de afectos



Para mim, os afectos são o pilar da vida.
São o tempero do espírito.
São a alegria de viver.
Sem eles, a minha vida seria movida a carvão morrediço e sem chama.
Sem eles, a minha existência seria um deserto triste e árido.
Seria a sombra permanente a impedir-me de ver a luz.
Seria viver apenas empurrada pelo tempo.
Que passaria sem gozo nem prazer.
Os afectos são a minha força de viver.

Este fim-de-semana, as gentes da minha terra entregaram-me uma inflação desses afectos de que tanto gosto.
A surpresa foi boa de mais.
Vim com o peito cheio e o coração a transbordar.
O meu ego atingiu o clímax.
É por isso que nunca poderei desligar-me, e nunca perderei de vista as minhas origens.
Aquela gente que gosta de mim, merece o que de melhor eu tenho para lhes dar: respeito e muita, muita consideração.
É por isso, também, que o meu pensamento todos os dias passa por aí e se queda um pouco.
Fico assim mais completa.

Um abraço de apreço para todos e um «muito obrigada» cheio de gratidão.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A memória dos sons




O nosso cérebro alberga tanta informação...
É espantoso como guardamos tantas memórias.
Com maior ou menor importância.
Admiro ainda mais como se guardam igualmente os cheiros e os sons.

Sim, hoje apeteceu-me falar dos sons.
Dei comigo a recordar os que ouvi ao longo da minha existência, no meu torrão natal.
Há um que recordo frequentemente: o som das rodas dos carros das vacas.
Que, mansas e submissas, puxavam o carro que rolava as rodas no chão da minha rua.
Despertei muitas vezes com aquele som pesado que, no meio do silêncio se fazia ouvir quase como se surgisse das entranhas da terra.

Ou o som do trotar dos burritos que, humildemente, recebiam dos donos chicotadas e impropérios, para que caminhassem mais depressa.
Esse apertava-me o coração.

Também as cabras e as ovelhas deixaram na minha memória auditiva o som dos seus chocalhos pesados.
Som monótono e barulhento, acompanhado do balir que é próprio daqueles animais.

Outro som que não esqueço é o da água que saía das bicas do chafariz à minha porta.
Adormecia e acordava todos os dias com o som do seu correr monótono e persistente.
Esse, para mim era música de nanar.
Até o som da água a cair dentro dos cântaros de barro e nos regedores de lata, tenho ainda registado nos meus ouvidos.

São memórias que me fazem feliz e me ligarão para sempre ao meu passado.
Muito mais sons haveria para mencionar.
Hoje ficam apenas estes.
    
Sei que haverá alguém que viveu estas experiências e certamente vai gostar de recordar.
Talvez até pare um pouco, para ser transportado a esse passado.
Afinal, é ele que nos mantém presos às nossas raízes.
E claro, à nossa identidade.


Um abraço.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O descrédito total




O governo vigente bate o recorde do descrédito.
É inacreditável.
Não há semana em que não rebentem broncas.
O grupo de governantes parece que foi catado no meio da lixeira onde vai parar tudo o que já não faz falta.
Personagens sem qualidades.
Nem humanas, nem profissionais e/ou políticas.
No meio desta maralha, escapará um ou dois exemplares que, sozinhos, não têm força para manobrar o leme.
Onde terão sido desencantados todos estes espécimes?
Em que sucateira estariam depositados?
É preciso pontaria para acertar em tanta falta de capacidade!...

Que figura triste faz o nosso país ao passar esta imagem!
Um país que já mostrou tantas vezes do que é capaz, está entregue a meia dúzia de figurantes sem mérito.
O pior de tudo é que entram e saem do governo, com a mesma falta de vergonha.
Não se lhes vislumbra no rosto qualquer espécie de constrangimento.

Triste, triste, triste, ter que viver às ordens de quem nem mandar sabe!... 

Desejo-te melhor sorte, meu país.


Abraço.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

As férias






















Pode começar por ouvir o Hino à Alegria







Se olharmos para trás, o tempo fica lá longe.
Cada vez mais distante.

Às vezes, corre veloz.
Outras, deixa-se saborear e quase mastigar.
O tempo está colado à nossa pele, às nossas recordações.
Ao nosso corpo, à nossa memória.
Deixa marcas muitas vezes irreversíveis e bem incrustadas.
Deixa memórias que nos assaltam e nos levam até sítios e situações que pensávamos nunca mais viver ou sequer rever.
O tempo é um companheiro presente.

Estava aqui a pensar que já não escrevo há alguns dias e que me está a fazer falta.
Tenho estado mais ou menos em regime de férias.
Então, fazer o quê?
O melhor será arrancar de dentro de mim o que sinto e partilhar.

As minhas férias de jovem.

Estão muito longe no tempo!...

Quando chegava a altura, a ansiedade, a alegria e a contagem decrescente dos dias eram uma constante.
A mala ficava pronta muitos dias antes.
O tempo passava lento e os dias eram longos demais.
Quando chegavam as férias, logo de manhã bem cedo e depois de uma noite curta, era finalmente a hora da partida.
O corpo e o espírito palpitavam de alegria.
Aquela mudança era mesmo necessária.
As rotinas precisavam de ser alteradas.
O contacto com a família e com os locais onde nasci eram uma necessidade.

A chegada era uma festa.
Só que depois vinha o odioso da questão.
Aquele mês passava demasiado depressa.
O regresso era sempre complicado.
O aconchego e o carinho sabia a pouco. 
A melancolia era inevitável.

O tempo.

Aquele que marca e deixa saudades.

Abraço.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Juiz, mas calma aí

 




Senhor juiz, excelência.
Que pena só agora saber da vossa existência!
A minha vida teria sido muito mais animada, se vos tivesse conhecido antes.
Certamente até as crianças que ajudei a crescer teriam sido mais felizes.
Talvez pudessem ter esquecido o excesso de tempo que estavam no infantário.
Talvez, quem sabe, esquecessem o pouco tempo que os pais, coitados, tinham para lhes dar!... 
Pessoalmente, teria de certeza aderido à sua tese.
Bebia-lhe uns copitos de vez em quando e o tempo seria mais animado, leve e produtivo.
As criancinhas, essas, iriam divertir-se muito mais.
E por que não umas pinguinhas a elas também? Sempre adormeceriam mais calmas…

Eu, de voz entaramelada a contar estórias e a cantar cantigas!...
Gaguejando, claro, e a ir de encontro às cadeiras e mesas.
A estatelar-me no chão, borrachinha que nem um cacho!...
Pensariam que era uma dramatização e então é que seria o delírio, com elas a colaborar.

Pois é, excelência.
Pena, pena, pena!
Os copitos que eu não bebi.
Como a minha vida teria sido uma reinação comigo assim, feita uma esponja.
A animação que eu e o meu grupo de crianças perdemos!
A qualidade de trabalho que nos escapou!

Diga-me, excelência.
Onde é que o senhor exerce?
Tenho que descobrir.
Quero ouvir de viva voz as suas sentenças.
Quero vê-lo a sair do tribunal ainda de toga, e de braço dado com os seus arguidos.
Divertidíssimos, a dirigirem-se para a tasca mais próxima, emborcarem mais um copo de três.

Bonito serviço, este!...
Afinal ainda há mais bebedolas ao serviço do povo do que eu imaginava!
E não há quem os controle?

Agora compreendo algumas decisões de certa justiça!...

Está bonito o meu país. 


Abraço.

terça-feira, 30 de julho de 2013

A fera
















Há estórias que são história.
Há realidades que parecem ficção.

Num determinado dia, a fera chegou com a família.
Com os olhos baços, os corpos magros e desnutridos.
Aquela família vinha acossada e com muita fome.
O futuro era incerto.
Uma coisa era certa.
Alguém com o mínimo de sensibilidade não podia ignorar.

Foram recebidos com hostilidade naquele novo mundo.
Como se de bichos peçonhentos e repelentes se tratasse.
Como se a fome e a miséria que aparentavam, não fosse suficiente.

Passado algum tempo, a medo, a mãe fera pediu ajuda.
Alguém a encaminhou.
Com gestos submissos e uivos melosos, lá se fez entender.
Impossível ficar indiferente.
A partir daí, as portas daquela outra família onde bateu passaram a ser franqueadas.
Os acossados até então inseguros, ganharam não só um refúgio, como ganharam amigos que até aí nunca tiveram.
Apesar dos olhares de admiração e até de censura das outras famílias residentes.

«Eles não são dos nossos, eles são de má índole, eles são os outros, os desconhecidos, os oportunistas que a qualquer momento podem morder»...

Apesar dos comentários, aquela família ajudou em tudo.
Deu tudo, fez tudo, e tratou-os como uns dos seus.
Desde bens essenciais a tudo o que tornasse menos penosa a vida dos errantes e deserdados da sorte.
Nada pediram que não tivessem com rapidez e boa vontade.

A vida foi melhorando para aquela família de esfomeados.
A pele luziu.
Os olhos brilharam.
Com o amparo de quem os apoiou, conseguiram a custo integrar-se e até impor-se.

Mas…coisa inesperada!...de repente começaram a rosnar.
Mostraram uma dentuça afiada e o verdadeiro carácter.
Morderam a mão de quem lhes deu o pão, a estabilidade e até a dignidade.

Estupefacção.
Afinal aquela família cheia de boa vontade não foi só ingénua.
Foi maldosamente enganada.
Foi injustiçada e agredida.
A fera, essa, parecia não entender o mal que fez.
Continua ladrando com os restantes membros da ninhada. E, diga-se de passagem, tem-nos muito bem treinados.

Lições de vida que deixam marcas fortes.


Abraço. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

As cançonetas




Pensar nisto hoje, até me dá vontade de rir.
Pois é.
Passei a minha juventude a ouvi-las.
Quem as trazia até mim era a Rádio Altitude da Guarda.
Canções ligeiras, leves e vazias.
Serviam apenas para embalar os sonhos de jovens adolescentes, e ajudar a passar o tempo dos mais disponíveis.
O conteúdo era frívolo, sem a preocupação de educar nem de esclarecer fosse o que fosse.

Houve durante anos um programa chamado «Discos Pedidos», que punha tudo maluco.
Exigia que se dissesse uma frase publicitária antes de pedir a música preferida.
«Posso pedir um disco? Posso dizer a frase»?
Blá…blá…blá… blá…
Passava-se o tempo assim naquela alienação e de cabecinhas vazias.

Jovens e menos jovens, sem acesso ao saber e ao mínimo de cultura.

Era assim naquela altura em que a ignorância era apanágio dos governantes.
Salvou a situação a biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian que, de vez em quando, passava e disponibilizava livros à escolha para os interessados.

Nem tudo podia ser medíocre! 


Abraço.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Aflição






Não é esta a primeira vez que falo aqui do sino da minha aldeia.
Referi como foi importante para as populações em tempos idos.
Fiz várias referências, mas esqueci-me de uma muito importante e até traumática em certas situações.
Não sei muito bem porquê, fui buscar uma lembrança remota, que se encontrava «entalada» entre tantas outras no meu disco rígido.
Isto para dar um ar mais actual.

Lembrei-me de como a aldeia estava mergulhada em silêncio.
Mesmo que fosse dia, ouvia-se o zumbir das moscas, o bichinho da madeira a fazer trre…trre…
Enfim, ouvia-se, como costumo dizer, o silêncio.
Era no meio do silêncio que, de vez em quando, o coração disparava e os corpos tremiam.
Alguém se dirigia ao sino e tocava em ritmo muito acelerado.
Dlão-dlão-dlão-dlão-dlão…
Chamava-se toque a rebate.
Era alarmante e significava grande aflição.
Normalmente era incêndio.
Também me lembro, de poder ser assalto ou outra coisa grave.
O sino era o agente mobilizador.
Nesses momentos, levantava-se uma população inteira e corria aflita.
Se fosse incêndio, não havia baldes, regadores e outros recipientes para carregar água que chegassem.
Em grupo, uns para lá e outros para cá, lutava-se até eliminá-lo.

O sino despoletava a situação, a solidariedade fazia o resto.
Sem água canalizada, sem mangueiras, sem bombeiros, a solução estava mesmo na inter-ajuda.

O sino.

Um objecto que foi tão útil em tempos e hoje não passa de um objecto decorativo.


Abraço.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Isto em que se vive





Todos os dias nos passam pela frente situações e/ou atitudes, que nos deixam desiludidos, surpreendidos e inquietos.
Se formos pessoas atentas, se olharmos para o que se vai passando à nossa volta, então pode instalar-se em nós um sentimento de desilusão, acompanhado de interrogações.
O que irá acontecer connosco, com os nossos jovens, com os nossos idosos, enfim. Com a nossa sociedade.

As relações entre as pessoas são cada vez menos verdadeiras e de ocasião.
Serão muito poucas as amizades de verdade.
Daquelas incondicionais, que nunca falham.
As relações são mais ou menos à distância, com uma boa dose de frieza e movidas quase sempre por interesses.

Mesmo parecendo de boa saúde, há sempre um odor de hipocrisia no ar.
Não se percebendo bem como e porquê, as quezílias estão quase sempre presentes e arruínam o que aparentava ser sossego e harmonia.

Se olharmos para as relações de poder então, para os governantes por exemplo, é de fugir.
Diria até que são um mau exemplo para qualquer um.
Dentro e fora daqueles aposentos repletos de nobreza, perpassam doses de intrigas, golpes baixos e traições.
Apesar dos «filtros», não passam despercebidas.
   
Tudo se complica, quando os maus exemplos vêm de cima.

A sociedade está doente.
Como escapar disto?

Só com muito boa vontade se vive aqui

Abraço.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Morno e calmo


 


















É assim que o «meu mar» se encontra de há uns tempos a esta parte.
Diria até que, para lá destes dois estados, se encontra também um pouco solitário.
Porquê?
Porque este ano só por alguns dias teve companhia a sério.
Por incrível que pareça, até as gaivotas o abandonaram.
É mesmo verdade.
As inseparáveis companheiras do mar, não se vêem por aqui.
Um fenómeno que não é habitual.
Alguém vai ter que me explicar o porquê deste acontecimento.

Restam alguns aficcionados de praia mais afoitos.
Ah!
E, coisa única: golfinhos!
É isso mesmo.
Os golfinhos passeiam-se por aqui como nunca se viu.
Saracoteiam-se alegres e brincalhões como se não houvesse crise!...
É muito bonita de se ver esta dança.
Muito próximos da beira-mar, dão saltos exímios e descontraídos.
Até parece que desafiam quem, deliciado, os observa.
Só por isso, este mar deveria estar feliz.
Este acontecimento não é nem pouco mais ou menos habitual nesta zona.
São momentos bem passados os que reservo a observar aqueles seres cheios de graça.
E tão meigos!...
Apetece-me dar-lhes uma grande salva de palmas.

«Louca» - diriam alguns.
Outros, enternecidos como eu, aplaudiriam também, quem sabe?!

O mar, bonançoso como está, se calhar também está de camarote a gozar o espectáculo!...
Por isso, tanto respeito
Que belo que é o mar.
Calmo ou, quando perde a compostura, sempre um belo e bom gigante.


Abraço.  

domingo, 14 de julho de 2013

Vistas curtas




Pois é.
Quando as vistas são curtas tudo se complica.
Mais ainda quando se trata de um país.
Quando os governantes são tacanhos, o país não evolui.
Não se desenvolve.
Não tem condições para criar riqueza.
Nem emprego.
Não investe na saúde, na educação e no ensino.
Não dá condições para que se possa ter uma vida minimamente digna.

Quando assim é, tudo falha.

Um país com dirigentes de vistas curtas só pode gerar uma sociedade tacanha e pouco esclarecida.
Logo, pouco dinâmica e insegura.
Uma sociedade sem capacidade de iniciativa, que actua mais ou menos ao sabor do instinto e das oportunidades.

E nos núcleos familiares?
Aí, as falhas são muitas.
A maior parte das pessoas não está preparada para enfrentar as dificuldades.
A educação dos filhos não se pode assacar a pais a quem não foram dadas bases.
A quem não foi proporcionada uma oportunidade de se cultivar.
Num país onde a educação, o ensino e a cultura são postas em segundo plano, não se pode esperar que os cidadãos sejam mais que medianos.

Vistas curtas, que pena!
 

Abraço.

sábado, 13 de julho de 2013

O mestre





O mestre é um homem meão e magricela.
Contudo, distingue-se no meio de tantos outros mais ou menos parecidos.
Veste-se quase sempre de cinzento e usa um boné da mesma cor.
Tisnado pelo sol, tem no rosto esculpido o mapa da vida.
Uma vida por certo muito dura e de risco elevado.
Sim, porque o mar não brinca!
E ele enfrenta-o quase todos os dias.
E como é rudimentar a embarcação que utiliza!
É aquilo o que por aqui se designa de Gaivota.
Transporta quatro ou seis homens que remam, e ele mesmo, sempre em pé.

O cerimonial que antecede a saída para o mar é lento e rodeado de cuidados.
Ele, o mestre, comanda a operação.
Com a embarcação (que foi transportada da areia por um tractor) já encostada à água e com todos já lá dentro, esperam pacientes as ordens do mestre.
É ele que estuda o mar, é ele quem conhece as ondas e é ele que sabe qual é o momento certo e sem perigo para entrar.
Há dias em que demora mesmo um bom bocado.
Ele, de olhos fixos no horizonte, espera pacientemente.

Dá gozo observar a mestria e o cuidado com que tudo é feito.
Aquela figura castiça, franzina e pequena, tem consigo a força e a sabedoria da arte da pesca.

Finalmente a ordem.
UP!
Um magote de homens empurra a embarcação que, mais ou menos balançando, enfrenta o mar.
Já afastados, ao largo, lançam as redes.

O resto depende da sorte.
Ah! E dos golfinhos que agora se passeiam por estas águas e espantam o pescado.
Nem tudo é perfeito.


Abraço.     

terça-feira, 9 de julho de 2013

Eu não faço mais, Sr. Professor
















Isto disse o menino Paulinho quando foi apanhado a fazer umas traquinices.

É um menino muito hábil e retorcido nas relações com os outros, o menino Paulinho.
Quer muito ser o maior.
Mas ao dar-se conta de que tinha ido longe demais, desapareceu.
Desapareceu e deixou todos em pânico.
E agora como vai ser?
Ele, matreiro e muito rato, mostrou-se só um bocadinho.
Cucu… Cucu…
Eu apareço, mas…
Mas o quê, Paulinho?
Nhênhênhênhênhêêê...
Tenho as minhas condições.
Quero ser o chefe e não quero brincar mais com a Mariazinha!
Vamos pensar.
Mas tens de pedir desculpa e prometer que não foges mais.
O senhor professor está à espera.
O menino Paulinho decidiu-se antes que fosse tarde.
Sr. Professor, prometo que não faço mais traquinices.
Desculpe.
Vou ser o melhor de todos os meninos que brincam comigo.

E assim continuam os meninos daquela escola.
Brincam alegremente aos crescidos e obedecem a quem é mais chefe que eles!...

Que bonitinho, não é?

Abraço. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Crescer na província






Decididamente sou uma provinciana de raiz.
Dou comigo a pensar como foi generoso comigo o destino.
Nasci e cresci na província, rodeada de tudo o que a natureza tinha para me dar.
Contactei, toquei e explorei tudo o que havia para explorar.
Depois, tive também o privilégio de fazer a minha socialização que, embora controlada, foi saudável e enriquecedora
A variedade de opções, os espaços, os afectos, enfim, um sem fim de regalias.
Para completar, tive a sorte de ter uns pais que sentiram a necessidade de me mostrar novos horizontes.

Aos seis anos levaram-me a fazer uma viagem que me mostrou pela primeira vez o tão misterioso mar.

A Nazaré e a Figueira da Foz foram as escolhidas.
Lembro-me do impacto que isso teve em mim.
Aquela quantidade imensa de água deixou-me encantada e surpreendida.
Devo dizer que não me meteu medo.
Simplesmente me impressionou.
Brinquei imenso na areia.
E, maravilha das maravilhas, encontrei lá aquilo que para mim foi um tesouro.
Montes de conchas lindas.
Pedrinhas de todos os tamanhos, cores e feitios.
Trouxe para casa um saco cheio que fez não só as minhas delícias, como as das minhas amigas.
Foram pretexto para criar, inventar e viver situações de fantasia que nos fizeram muito felizes.

Viver em liberdade e rodeada de amigas e de família, fez de mim a pessoa afectiva que sou hoje.
Essa faceta sempre foi uma mais-valia.


Abraço. 

sábado, 6 de julho de 2013

Pelo menos em sonhos




Há várias interpretações para definir os sonhos.
Para mim, a mais simples é a que diz que são uma forma de aliviar a mente.
Penso assim, de uma forma amadora, que serão pequenos momentos de recreio para o cérebro.
É claro que isto não será bem assim.
Os cientistas iam rir-se de mim, se me lessem.
Mas é claro que não corro esse risco.

Bom, é que uma noite destas acordei feliz e com lágrimas.
Tive um sonho que considero de sonho!
Passeava num sítio onde o verde predominava.
A água corria em cascatas pelas ruas com casas caiadas de branco.
As ruas estavam meticulosamente limpas.
Sem poluição de nenhuma espécie.
O ar corria sereno mas fresco.
As pessoas eram alegres e educadas.
Relacionavam-se com delicadeza e falavam baixo.

Naquele país, que por segundos foi o meu, todos tinham emprego e apoios à saúde e educação.
Andava-se em veículos silenciosos, e passeava-se a pé.
As crianças estavam de férias.
Não se viam na rua sem rumo e desocupadas.
Eram acolhidas e apoiadas em centros de jovens, onde profissionais qualificados lhes proporcionavam a aquisição de conhecimentos e os ajudavam a desbravar caminhos, que nas suas cabecitas jovens ainda eram muito confusos.

Ninguém sabia o que eram faltas de apoio e solidariedade.
Os idosos eram estimados e considerados mestres de sabedoria.
Vivia-se em sociedade e com amizade.

O meu sonho deu-me, por alguns momentos, o privilégio de ver e sentir como era viver numa sociedade perfeita.

Pura ilusão.
Não há sociedades assim.

A lágrima de emoção com que acordei foi limpa.
Encarei o mundo possível e levantei-me para iniciar mais um dia neste, que não tem nada a ver com aquele outro mundo em que vivi por alguns momentos

É capaz de ser verdade.
Os sonhos às vezes são mesmo um pequeno recreio.
Uma terapia, quem sabe?


Um abraço.   

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O gosto pelas cantigas





Desde sempre gostei de cantar.
Canto, mesmo quando não estou muito nos meus dias.
A música, o ritmo, proporcionam-me muito bem-estar.
Tenho passado grande parte da minha da minha vida a cantarolar, ou mesmo a cantar.
Enquanto trabalhei, cantei para e com as crianças do infantário.
Eram sempre momentos de alegria e grande diversão.
As crianças adoravam o momento e, para dar fim a essa actividade, era sempre complicado.

Bom, mas esta conversa foi apenas para introduzir o tema, porque ao ver ontem e hoje a televisão, me lembrei de uma cantiga que falava de confusão, de reinação, de palhaçada, enfim, tal e qual o que se tem passado à minha frente sempre que olho para o pequeno ecrã.

Uns meninos grandes a brincar aos palhaços, ao bate e foge, ao vai e volta, etc..
É pena que não me divirtam como a cantiga divertia as crianças.
Antes pelo contrário.
Deixam-me com um sentimento de indignação e perplexidade que não me deixa nada confortável.
Adoro ver crianças a brincar.
Garotada grande, irrita-me e deprime-me.

Portugal merecia mais.
Não há por aí gente sem a síndrome da garotice?
De certeza que há.

Apareçam por favor.


Abraço.