terça-feira, 5 de novembro de 2013

O magusto



O tempo era de frio intenso.
Ainda que o sol aparecesse, era gelado o ar.
Trespassava a pele envolvida por agasalhos (os que os tinham...).
Naqueles tempos tão distantes, o outono não brincava, era rigoroso mesmo.
As aulas estavam no seu auge e o trabalho era a sério.
A escola das meninas era um pouco fora de portas.
Fosse qual fosse a temperatura, lá íamos, pequenas e franzinas, a iniciarmo-nos no saber.
Apesar da seriedade das tarefas escolares, as tradições não só não eram esquecidas, como
eram preservadas com alegria.
Era chegada a hora do magusto anual das escolas.   
Algures dentro das instalações, um cesto de verga larga aguardava os punhados pequenos mas grandes na intenção, das castanhas levadas pelas crianças, que ansiosamente aguardavam esse dia.
Era fora da aldeia que se fazia o magusto e era uma atividade lúdica que mexia com todos.
Pequenos e grandes.
No dia combinado, todos em grande algazarra (uma algazarra muito saudável), lá iniciávamos a caminhada.
A proximidade de um pinhal era o local certo.
As castanhas eram assadas no chão e a caruma era o combustível usado.
Uma camada de caruma e as castanhas espalhadas em cima, com mais uma camada de caruma alta.
Fósforo aceso – e começava a brincadeira tão esperada.
O fogo era meio caminho andado.
A euforia apoderava-se de todos.
Crianças controladas, as castanhas iam sendo distribuídas conforme se iam assando.
Não faltavam brincadeiras e mãos e caras enfarruscadas.
Com os coraçõezitos a pular de alegria,
Vivia-se um dia que ficava na memória, como pode ser constatado neste texto.
 O sabor, esse, nunca mais me passou pelo palato.
As tradições e as vivências são a nossa história de vida.


Abraço.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O dia do Aniversário das Almas



A aldeia estava quieta.
Apenas os sons normais e domésticos do dia-a-dia.
Um automóvel ou outro.
Um carro de vacas que passava a chiar, um burrito que trauteava, um porco que grunhia!...
E o cão, que na sua missão de guarda, tentava fazer-se ouvir.
Báu, báu, báu…

De repente um som sobressaía.
O sino da igreja dolente, tocava a finados.
Começava aí um marulhar de sons meio abafados, que impunham respeito.
Era o toque para o início da cerimónia anual.
A aldeia em peso deslocava-se até à igreja e ocupava o seu lugar.
Aquele espaço ficava repleto.
A cor predominante era o preto.
Os semblantes carregados seguiam os preparativos para a cerimónia.
No meio da igreja, um esquife simbolizava a morte dos entes queridos.
Um grupo de sacerdotes (talvez oito) também de preto, ora sentados ora em pé, rezavam, cantando, em latim.
Era longa, triste e dolorosa a cerimónia.
Seguia-se a missa composta de um sermão, feito por aquele que era considerado o melhor orador.
Esse orador era esforçado.
Dirigia-se ao púlpito (um lugar nobre da igreja) e falava dos que já tinham partido.
Com uma voz inflamada, falava dos mortos e ia apontando o dedo para este e aquele, na perspectiva de que todos já tinham sido atingidos.
Ouvia-se um fru-fru de roupas e corpos que se mexiam, sons abafados de choros contidos.
O orador, vermelho do esforço, tentava melhorar a sua prestação, repetindo e dirigindo-se aos que visivelmente estavam mais emocionados.
Aconteciam lágrimas, muitas, soluços mais ou menos contidos e tristezas engolidas.
Era uma cerimónia recheada de emoções exploradas.
Tétrico.

É assim que hoje e a esta distância eu rotulo o que a igreja, na sua ingenuidade (?), fazia em prol dos nossos entes queridos.
Na sequência disto, acontecia um retrocesso no luto que para muitos já tinha sido feito: voltavam as dores da morte dos entes queridos.
O dia acabava bem mais triste do que tinha começado.
O cheiro enjoativo a velas permanecia por algum tempo.

O revolver de lembranças e tristezas deixava a aldeia num silêncio que doía.

Os nossos mortos estão sempre connosco.
Será que seriam necessárias cerimónias tão tenebrosas?
Que descansem em paz.

Abraço.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Quando?



Pesadelo é carga pesada que derruba.
É medo, é insegurança.
É mal-estar e tristeza.
É aflição.
São momentos de ansiedade e angústia, que paralisam.

Como sair?
O precipício é logo ali!...

Tanta gente assim nessa situação hoje.

E as pessoas… sozinhas e sem saída.

Pesadelo…
É a vida a complicar-se.
É a insegurança.

É ser ignorado.
E humilhado.
Pesadelo é perder a identidade.

Pesadelo é a situação actual do nosso País.
Mas um dia virá o sol.
Quando?






Oiça, entretanto, esta voz de menina... clique no cinzento do texto.

Abraço.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Chove chuva mesmo





Está um dia que para muitos, pelo menos para os que trabalham, será um dia tenebroso.
Chove torrencialmente.
Para mim, que sou amante da chuva, está um dia óptimo.
Transporta-me em pensamento e em afectos, à minha infância, à minha velha casa, à minha lareira sempre acesa e, sobretudo, ao mimo da minha mãe.
 Nestes dias chuvosos e de vento, era hábito ficarmos em casa sentadas à lareira.
O tempo ficava mais leve, quando a minha mãe decidia ocupar-me a ouvir as suas estórias.
E como ela as contava bem.
Eu adorava ouvi-las.
Eram estórias fantásticas e que ela contava com alguma piada.
De ladrões que assaltavam os senhores ricos para depois darem aos pobres.
 De lobisomens que à meia- noite saíam batendo os pés fortemente na calçada à procura de sangue fresco.
De bruxas que, dizia-se, perseguiam homens de noite, e os transportavam para um sítio diferente daquele onde tinham a certeza se terem deitado!...
O tom dramatizado com que ela as contava redobrava o meu interesse, claro.
Enfim, estórias fabulosas contadas de uma forma intimista e com o afeto de mãe.
Preenchiam o meu imaginário de menina, aquelas estórias.
Foram momentos íntimos e de muita cumplicidade.
Quanto a mim, à noite, para dormir é que era pior.
Os monstros, os ladrões e aquelas figuras de ficção, tornavam-se reais.
Às vezes até os «via» na parede do meu quarto aos pés da cama.
Aí, o sono tardava.
Nunca me queixei, para poder continuar a ouvir as estórias de minha mãe.
Mais tarde e já distante da meninice, tudo isto tem sido motivo para sorrir e fazer sorrir.
Estórias de encantar que me encantavam e «prendiam» em casa com todo o gosto.
Que tempo bonito e feliz aquele!

Abraço.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Asas



Queria ter asas.
Queria voar para bem longe.
Sem destino nem tempo.
Queria ser livre.
De movimentos,
De horários e limites.
Voar para o espaço quem sabe?
Conviver com as estrelas.
Abraçar a lua.
Beijar o sol.
Descansar num colchão de nuvens.
E sonhar.
Sonhar com um coro de querubins.
Ser embalada por eles.
Ouvi-los, aplaudir, e pedir mais.
Queria sentir que faço parte de um mundo diferente.
Queria sentir paz e harmonia.
Queria viver sem medos nem incertezas.
Queria que a beleza me brindasse todos os dias.
Queria um mundo onde a mentira e a insensibilidade não tivessem lugar.

Queria abraçar o mundo e sentir que a injustiça acabou.

Queria demais, eu sei.


Abraço.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Olá a todos





Sei que a vida não está bem para a maioria das pessoas.
Sei que há no ar um cheiro a preocupações que tira o sono e o sorriso a muitos.
Sei que a maioria se levanta de manhã sem entusiasmo e sem energia.
Sei que muitos nem sequer têm emprego.
Sei que aqueles que o têm pelo menos uma grande parte são precários.
Temos ainda os outros, os que conseguiram manter-se, mas que, e depois de terem trabalhado uma vida, vêm-se todos os dias confrontados com os direitos adquiridos roubados.
Como não há-de o ar estar impregnado de preocupações?
 A perspectiva de um futuro incerto provoca em todos desânimo e falta de entusiasmo.
Não se pode agarrar uma vida e uma profissão com gosto e garra, se não houver incentivos e alguma recompensa.
Só assim nos sentiremos pessoas dignas e com um lugar útil na sociedade.
 Não é espezinhando os trabalhadores e retirando-lhes a sua dignidade e brio, que se consegue produzir seja o que for.
É muito complicado quando se pensa a sério na situação em que se vive.
Sente-se uma grande angústia.
Uma grande revolta e uma impotência sem limites.
Mas… então, não estamos todos no mesmo barco?
Não é a união que faz a força?
 Porque é que nem toda a gente percebe isto que me parece tão óbvio?
O comandante do navio é que está a mais!
Tem que ser substituído não?

Abraço.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Diálogo de nuvens


 


Começou por ser um monólogo.
Lá bem ao longe, um som surdo mas forte fazia-se ouvir.
Sugeria mau-humor aquele som.
Um quase roncar de raiva meio adormecida.
Àquele, juntaram-se outros e outros e, todos juntos, mais parecia uma guerra.
Uma guerra em que todos queriam atirar primeiro, em que todos soltavam o seu rancor.
Endureceu o embate.
Ribombavam sons ferozes que impunham alguma apreensão.
No meio deste embate, começou a ouvir-se outro som, esse mais suave, embora intenso.
Eram as nuvens, que em desespero, soltavam lágrimas imensas.
 Não aguentaram a pressão e soltaram-se, jorrando uma torrente que caía aflita nos telhados e ruas que a deixavam escorregar para os caudais sedentos do verão que então terminara.
A batalha amainou.
Ouviu-se apenas um diálogo afastado e em tom cansado, apostado na paz.
As nuvens aquietaram-se.
Ao olhar para o céu, apenas desenhos fantásticos de artista de primeiro plano.
É bonito este contemplar.


Abraço.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Suavemente

 



Está uma tarde de outono suave e calma.
O silêncio é quase a única coisa que se ouve.
O sol, o senhor sol, hoje não se dignou aparecer.
Antes pelo contrário, deve ter decidido viajar para outras paragens.
Deixou-nos um dia fusco, de dentes meio cerrados e com cara de poucos amigos.
Está uma tarde que convida à reflexão, ao sossego, ao recolhimento.
Muita coisa me passa pela cabeça nestes dias!
Tenho que fazer a triagem.
Desta vez decidi que não vou falar de nada que me chateie.
Vou fazer de conta que estou num imenso campo cheio de flores e de pessoas lindas, sobretudo por dentro.
Vou imaginar um local onde a vaidade (má), a inveja e o fausto balofo não tenham ordem de entrar.
Vou imaginar que não há governo nenhum que roube nem que humilhe.
Vou imaginar que o Passos Coelho é só uma ficção!...
Ai, não consigo abstrair-me, que seca!...
Está, sim, uma tarde dos anjos.


Abraço.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vaidades




Estive a espreitar um determinado facebook, e divaguei por outros que me despertaram alguma curiosidade.
O que fui vendo, é o normal que se vê num facebook normal.
Às tantas deparei com um, que me deixou perplexa.
Àquilo, eu não chamaria facebook, mas sim uma feira de vaidades.
A exposição para o Mundo da parcela faustosa de uma vida.
De forma obsessiva, doentia.
A mostra, para quem não saiba, do ambiente  em que se movimentam os protagonistas.
A vaidade sem pudores.
A leveza intelectual e humana.
Acho engraçado o facebook, quando é utilizado com parcimónia e não serve para expor as grandezas.
Acho deplorável, quando as pessoas se servem dele para se mostrar.
Para se engrandecer.
Haverá certamente outros casos de pessoas que expõem assim o que pode ser a mentira da sua vida.
Mas este caso chocou-me especialmente.

Parece-me também, que é um assomo de insegurança pessoal!...
Ou não será?

Em tempos, ao que sei, o facebook seria outro.
E esse, não mostraria vaidade nem tanta grandeza, de certeza!...

Tenhamos bom senso, senhores!...


Até.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Atrás de tempo…



O tempo vai passando a cada instante.
Às vezes ligeiro, sem se fazer notar, outras vezes vagaroso e indolente.
Com alegria.
Com tristeza…
Depende da perspectiva e do nosso estado de espírito.
Temos muita responsabilidade na forma como encaramos o tempo.
O nosso cérebro é quem comanda tudo.
Somos nós quem o programa.
Temos por isso a responsabilidade de ser bons programadores.
Os dados que lhe inserimos têm que ser bem filtrados e passados a pente fino.
 Só assim poderemos ver passar o tempo sem deixar marcas demasiado feias.

O tempo é manhoso, não deixa que o toquemos, que o vejamos, esquiva-se.
Apenas nos permite que sintamos os resultados bons ou menos bons e de que temos conhecimento apenas no momento presente.
Logo a seguir o que virá?

Sabemos apenas que «atrás de tempo, tempo vem».
Será que iremos fazer parte desse tempo que há-de vir?

O tempo é mesmo uma incógnita!…


Abraço. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A árvore

















De um vaso até 4 metros 
 de altura ou mais



A árvore de que hoje vou falar tem uma história.
Esteve num pequeno vaso em casa durante bastante tempo, mas não gostou.
Se era pequena, pequena ficou.
Apesar dos mimos, da luz do sol e do ambiente quase de estufa onde se encontrava.
Como todos os seres vivos, achei que tinha direito a uma segunda oportunidade.
Veio acondicionada fazer uma viagem até à margem Sul.
No exterior e em sítio estratégico, fez-se uma cova e transferiu-se para lá.
Será que te agarras à vida?
Será que vais ser mais feliz aqui?
A resposta não tardou.
A pequena planta que teimava em não querer crescer, de repente deixou o seu aspecto insignificante e, a passos largos, transformou-se numa planta grande, bonita e muito útil.
É hoje uma árvore frondosa muito bonita, que faz as delícias não só dos donos, como também de quem a conhece.
Ao cair da tarde, recebe nos seus braços fortes, as dezenas de pássaros que a escolheram para passar a noite.
Uma curiosidade:
- Os meus gatos são seus fãs. Instalam-se e, ora dormindo, ora fazendo corridas pelo seu tronco acima, são quem mais usufrui da sua sombra soberba!...
Valeu a pena esta segunda hipótese.
Depois, sabe muito bem tomar as refeições de Verão (e ainda hoje isso aconteceu) debaixo da árvore que teimava em não querer crescer.

Abraço.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Palavras para quê?




Quantas palavras se dirão por dia?
Só aqui no nosso pequeno canto, quantas?
Muitas mesmo. Milhares!…
Muitas delas são apenas para preencher vazios, quantas vezes em conversas de maldizer e opinar sobre o que nem se conhece!
Todos sabemos que o diálogo é necessário, e que é através dele que as relações enriquecem.
Sem ele, seriam relações vazias, sem vida, sem liberdade e sem opinião.
Mas, para dizer a verdade, nem sempre é agradável ouvir tantas palavras.
Sobretudo quando não têm conteúdo!
Há pessoas que usam e abusam do «modo» tagarelar.
Os governantes e a maior parte dos políticos, têm uma enorme necessidade de o utilizar.
Para não referir os telejornais, que, durante pelo menos três dias, não se cansam de falar dos mesmos assuntos.
Palavras.
Umas tão deliciosamente úteis, outras tão perigosas e ofensivas.
 E fúteis, na sua essência.


Abraço.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Olá, mar




Saí do carro só para dar uma espreitadela.
Não resisti e comecei a caminhar.
O sapato não era o mais próprio.
Saltou do pé e rapidamente, descalça, pisei a areia macia.
Não sei como dizer isto, mas senti que algo se soltou de mim.
Alguma energia pesada?
Sei que me senti bem.
Num SPA, aquela massagem não seria melhor.
Não teria o ar puro, nem aquele mar grande e acolhedor.
Aquela paz que vem do marulhar das ondas!...
Ele, o mar, estava só.
Talvez a descansar do cansaço do verão quem sabe?
Aquela massagem nos pés propagou-se pelo cérebro.
Uma quietude de espírito acompanhou-me, enquanto o sol, a passos largos, se passava para o outro lado do mar.
Aquele pôr-do-sol tão intenso fez do mar um espelho onde o céu, vaidoso, se reflectia.
O mar é sempre bonito.
Mas àquela hora, com aquele silêncio, é a cereja no topo do bolo.


Abraço.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Que grande vassourada



O dia vinte e nove de Setembro de dois mil e treze vai certamente ficar na história do nosso pequeno grande país.

O presunçoso do primeiro-ministro e a sua política foram varridos com um enorme vassourão.
Uma grande parte do país não os quer.
Aqueles que têm sido vítimas das torturas que ele instaurou estão feridos e magoados.
Só os obsessivos, os cegos políticos, os fanáticos… conseguem não sentir o chicote que todos os meses e a toda a hora, zurzindo, lhes cai em cima.
Esses seguem o seu senhor, quais masoquistas ignorantes e sempre prontos a dar a outra face.

Pois é verdade, apesar da varridela, sua excelência apresentou-se com a mesma presunção a assumir a derrota.
Nem um minimozinho de sensibilidade lhe espreitou no rosto.
Sua alteza não achou necessário dar um mínimo sinal de desconforto.
Simplesmente, qual pau seco e hirto, disse que iria continuar a sua política.

Apesar de muito, ainda foi pouco – digo eu.
Este espécime precisa que lhe vão preparando o futuro.

Até à próxima.


Abraço.

domingo, 29 de setembro de 2013

Uma pitada de Outono




Esta viragem do Verão para o Outono é para muita gente deprimente.
São as férias que terminam, são os dias que encurtam, são as noites que se alongam, é o tempo que muda, enfim são mudanças às vezes um pouco abruptas que deixam desconfortáveis muitos cidadãos.

Eu não faço parte desse grupo.
Recebo o Outono com agrado.
Para mim é o início de uma época de maior privacidade, de maior reflexão e intimismo.
Adoro o silêncio, gosto da surdina da noite.
Adoro entrar dentro de mim, despir-me, vasculhar o que tenho guardado e enfrentar-me.
Gosto de reflectir sobre os acontecimentos vividos e tirar deles lições para o futuro.

Às vezes deparo-me com acontecimentos que considero pouco próprios.
Tanto a nível de país, como da vida corrente.
Interrogo-me:
– Porquê?
Encontra-se de tudo neste caminhar pela vida.
Gente boa, e gentinha.
Sim, mal-formada e que é capaz de qualquer atitude para satisfazer os seus ímpetos selvagens e cavernosos.
Gente incapaz de reflectir e de se questionar.
Daqueles que pensam que nunca erram.
Que não precisam de rever os seus actos.
Que são os melhores!...
Que não se questiona nunca!
Para quê o silêncio e a reflexão?
A fuga à realidade é bem mais fácil.

As estações mais agrestes levam-me para um mundo aconchegante e intimista de que gosto muito.

Bem-vindo, Outono.
Traz as tuas chuvas, o teu vento.
Traz as tuas folhas da cor da terra, de que tanto gosto.
A tua magia nostálgica de fazer dançar tudo o que mexe, num bailado de cor.
Que nos leva em pensamento a um desfilar de emoções doces e serenas.

Bem-vinda sejas, estação das cores!...


Abraço.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O mais cego é o que não quer ver



Este é um ditado antigo que, acho eu, tem muito de verdade.

Costuma dizer-se quando há quem se negue a ver – mesmo o que tem debaixo do nariz.

Há muitos acontecimentos e situações, que preferimos ignorar.
Desviamos o olhar, fingimos que ignoramos. Enfim, pequenos truques que muitas vezes nos deixam a consciência menos pesada e nos facilitam a vida.
Ficamos bem mais confortáveis e sem preocupações.
Evitamos enfrentar e, quem sabe, tomar posição – o que para muita gente é uma atitude difícil.
Tomar conhecimento é por vezes muito complicado.
Talvez seja por isso que há tanta gente a fazer de conta que não vê, que não dá conta.

A cegueira fictícia é perigosa e enganadora.
É bem mais corajoso e sensato encarar os problemas de frente e, se pudermos, ajudar a resolvê-los.

Há ditados que se aplicam á vida real

Abraço.


domingo, 22 de setembro de 2013

O dinheiro não compra tudo

 

Pois é.
O dinheiro.
O deus dinheiro.
Não, não compra tudo.
É apenas uma ilusão enganadora e uma forma de nos distrair do essencial.
É claro que é um bem necessário.
Sem ele, é tudo bem mais difícil.
Mas nem tudo se consegue com dinheiro.
Os sentimentos mais profundos de solidariedade, de amizade e de afecto não se adquirem com as quantias mais significativas desse metal.
Esses sentimentos não se compram.
Têm que nascer dentro de nós.
Têm que brotar espontaneamente e ser canalizados sem esforço, nem frete.
Como se dentro de nós houvesse uma fonte corrente de ternura a passar para quem gostamos.
O dinheiro «é» quase sempre fútil.
«É» soberbo, «é» orgulhoso e «não tem» sensibilidade.
É um bem necessário, sim, mas se for mais do que o que precisamos, pode ser perigoso.
Pode ser a forma de nos fecharmos e de ficarmos desumanizados, egoístas e egocêntricos.

O dinheiro.

O bem mais desejado.
O que «enlouquece» os mais fracos de espírito.

A saúde e o necessário para o dia-a-dia, seria uma riqueza impagável.


Abraço.    

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pedaços de mim




Às vezes dou comigo a pensar o quanto eu já percorri.
Por quantos sítios já andei e o que já fiz.
Ao olhar de longe o meu trajecto, imagino quantos pedacinhos de mim andam por aí espalhados!
Pedacinhos cheios de vida.
Cheios de entusiasmos, de alegrias, de vontade de fazer o que fiz e da melhor maneira que soube e me deixaram.

Há de certeza, junto desses bocadinhos, momentos menos bons.
De tristeza, de desilusão e de impotência também.
Outros, e são tantos, cheios de ternura, muita, e de muito amor!
Amor pelas pessoas que se têm cruzado comigo e que merecem.
Amor por tantas crianças que ajudei a crescer.
Amor pelo trabalho que sempre me entusiasmou.
Amor pela família com quem me criei e me transmitiu os genes que fizeram de mim a pessoa que sou.
Com os princípios e a educação de que sempre me tenho orgulhado.
Da ligação forte a tudo o que – e todos aqueles a quem – me ligo.
Da forma como encaro o que me desagrada.
Com a dignidade que me é possível.
Com indignação e muitas vezes revolta, mas sem cair no que considero vulgar.
Foi isso que colhi na origem e é isso que me norteia.

Pedaços de mim.

Alguns com uma marca de alegria e felicidade.
Outros mais ou menos em ferida e que doeram muito.
Esses, eu quero esquecer.


Abraço.


E oiça O Chico Buarque 
(acompanhado), 
clicando na foto:



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sofrimento



O sofrimento.
É a parte feia da vida.
É parar de ser feliz.
É a tristeza a entrar.
É o coração a fechar-se.
São as marcas incrustadas e visíveis.
São lágrimas que enchem os sulcos que a vida desenhou.
São também lágrimas recolhidas que apertam a alma.
É o coração dilacerado.
É o corpo a não querer reagir.
Sofrimento é dor.
É a impotência a tomar conta.
Sofrimento é a ausência de objectivos.
É a vida parada.
Sofrimento é desistirmos de nós.
Dos outros e do mundo.
Sofrimento é um túnel sem luz.

E a solidariedade de quem tem conhecimento, não ajudaria a colmatar a dor?


Abraço.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ser solidário



«Ser solidário» é o nome de uma bela canção de José Mário Branco.

Foi há muitos anos.

Quando a solidariedade ainda fazia parte das atitudes normais entre as pessoas.
Hoje, poucos serão os que a praticam ou, diria até, aqueles que sabem o seu verdadeiro significado.

Hoje, os interesses não passam muito por aí. As preferências vão mais para aquilo que nos aliena.
Recebemos de braços abertos tudo o que nos desvie da realidade que nos rodeia.

Quanta coisa supérflua!

É bem mais cómodo atentarmos nos supérfluos que a vida se encarrega de nos pôr à frente todos os dias.
Naquilo que por momentos nos «preenche» os vazios interiores.
Que serve como uma forma de alienação consentida.

Ser solidário não é fácil.
Exige muitas vezes sacrifícios e renúncias.
A canção do José Mário Branco é ainda hoje bem actual e oportuna.

Como o Mundo seria melhor se tentássemos entender o verdadeiro significado da palavra solidariedade e procurássemos pô-la em prática!


Abraço.

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Para ouvir a música, clique na foto:

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Volto dentro de momentos






















É esta a legenda que me passa pela cabeça sempre que, ao ver televisão, começa o desfiar de desgraças que vão pelo mundo.
É certo que temos que ter conhecimento do que se passa.
É um facto que não podemos ignorar.
Mas insistir em mostrar as tragédias de uma maneira repetida, diria que é um excesso.

Então agora com a chacina na Síria…
Mostrar repetidamente ao mundo aquela monstruosidade com crianças a morrer em directo, penso que não será a melhor forma.
Parece-me que, para informar, não será necessário explorar os sentimentos dos mais sensíveis!
E mais.
Há crianças sozinhas em casa, enquanto os pais labutam pela vida.
São imagens demasiado fortes para uma criança digerir, quando não há apoio de um adulto por perto.
Será que alguém já pensou nisto?

Violência do princípio ao fim de um telejornal, será demais – eu acho!
Por isso, apetece desligar e… voltar dentro de momentos…


Abraço. 

sábado, 7 de setembro de 2013

A noite caiu




O sol, devagar, foi-se inclinando.
Tocou a linha do horizonte, lambeu as águas do oceano e descansou atrás das nuvens.
A noite espreita como que para saber se pode entrar.
Chegou mais cedo, a noite.
Setembro é o mês em que as mudanças se começam a acentuar.
Dias um pouco mais pequenos introduzem novos hábitos de vida.
Na rua, nota-se uma aragem fresca, a fazer lembrar que o verão começa a despedir-se, para dar lugar a mais um longo período de labuta.
A noite começa a ser rainha.
Convida à introspecção, ao recolhimento e a um certo silêncio interrompido pelo período de férias, normalmente buliciosas.
Cheira um tudo-nada a Outono.
Aquele cheiro bom e fresco da humidade nocturna.
Das ervas a pingar orvalhada.
E da terra a abrir-se para a receber

É Setembro.

O Outono aproxima-se.
Tudo tem o seu tempo.


Abraço.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

E fez-se vida





No jardim já florido, nasceu mais uma flor.
Pequenina, sensível, mas com muita vontade de viver.
Foi recebida com amor.
A luz do sol é o bálsamo de que precisa para viver.
Rodeada de mimos, abre as pétalas mimosas e espreguiça-se.
Desvanecida, agradece e prepara-se para crescer.
Por ser tão pequenina e bela, destaca-se no meio das outras flores do jardim.

À noite, recolhe as pétalas.
Adormece nos braços do luar.
A orvalhada, ao de leve, refresca-a e alimenta-a.

Acorda com os raios solares a beijarem-lhe as folhas frescas.
Sorrindo, diz com ternura:
– Bom dia sol! Bom dia mundo!... Como é bom viver!...


Abraço.  

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Maria da Graça
















Era uma mulher já bastante idosa.
Tinha a seu cargo uma neta adolescente.
Era pesada a responsabilidade.
Teve que arranjar um meio de sobrevivência.
Na aldeia não havia carteiro.
Ofereceu-se.
Não sei quem pagava o quê.
Logo no início, sozinha, calcorreava as ruas da aldeia gritando a cada porta anunciando as notícias que chegavam.
Mais tarde, já quase cega e coxa, era acompanhada pela neta que lhe dava o braço e a guiava.
As cartas eram transportadas directamente nas mãos que tremiam demais.
Andrajosa, com pouca higiene, atraía as crianças da aldeia que a assediavam.
Chamavam-lhe a alcunha que ela mais odiava.  
Os adultos, alguns, aproveitavam a boleia.
Gostavam de a ouvir dizer das boas!...
Até os cães a cheiravam à distância e lhe ladravam deseperadamente.
Reagiam, penso eu, ao odor menos agradável que dela exalava.  

Chamava-se Maria da Graça.
A alcunha era «Greta».
Chamavam-lhe assim e escondiam-se, gargalhando
Caíam raios e coriscos dignos de bolinha vermelha.

Gostava da pinga.
Dava-lhe mais ânimo para as voltas, dizia.
Parecerá um espectáculo sádico, humilhante.
Mas sei que não existia esse sentimento.
Era apenas uma forma de diversão inocente.
Era o gozo de ver o álcool funcionar.
Era a televisão da época.
E tinha muita piada mesmo.

Morreu muito velha a ti’ Maria da Graça.
Apesar de tudo, era uma pessoa querida de todos.

Greta, greta, greta!...

Ainda hoje é motivo de gargalhada.
Vá-se lá perceber.


Abraço.