
Li ontem no blogue ‘Capeia Arraiana’, a descrição sentida e
perfeita de uma trovoada no interior do nosso país (*).
Quem escreve assim sobre um fenómeno natural, só pode ser
uma pessoa sensível.
Aliás o autor já nos vem habituando há algum tempo a este
estilo tranquilo e criativo e que eu acho muito bonito.
Ao ler aquela crónica não pude travar o pensamento.
Vi-me de repente como que esvoaçando e só poisei em Cabinda.
Mais propriamente numa pequena aldeia no meio da floresta virgem
do Maiombe, chamada Buco Zau.
«Estávamos» na tropa, claro.
Cheguei lá num ápice.
Sentei-me na minha velha varanda e sob um calor húmido e
infernal, comecei a ver que o sol se escapava por detrás de umas nuvens
espessas e negras, que teimavam em sobrevoar o céu.
Assim, do nada, o dia fez-se noite.
Noite de breu mesmo.
A trovoada nem se fez anunciar.
De repente, no meio daquela imensidão e silêncio, comecei a ouvir um
forte ribombar de trovões sucessivos, acompanhados de uma festa florescente de
raios, que um espectáculo de fogo de artifício não faria melhor.
Aquela que parecia ser noite transformou-se num dia cheio de
luz.
As nuvens negras abriram-se e fizeram da pequena aldeia um
sem número de rios que procuravam um leito de grande porte que os acolhesse.
Enquanto durava aquele espectáculo, não era possível o
diálogo.
Tal era o estrondo sucessivo.
Aquele que eu considerava um espectáculo pictórico, era
digno de ser observado.
Ainda que, para isso, o medo tivesse que ser remetido à sua
insignificância.
A casa que habitei durante dois anos era de madeira com
telhado de zinco, igual às de todo o bairro de oficiais construídas de propósito
para nós todos...
Tinha a rodeá-la um sem fim de árvores centenárias de
grandes dimensões.
Quando a trovoada terminava, e já com sol novamente no seu máximo,
não era raro ver um daqueles gigantes da floresta, aberto por um raio.
Ali, a três metros de mim.
Não tinha chegado ainda a minha vez de sair deste mundo.
Mas lá que o espectáculo era lindo, lá isso era.
Nunca mais poderei esquecê-lo.
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(*) Pode ler aqui, abrindo o link.
Abraço.