Era uma terra aconchegada.
Aconchegada numa concha rodeada de verde.
Transpirava vida, aquele pequeno naco de Mundo.
As serras que a envolviam eram como sentinelas.
Observavam em silêncio o trabalho árduo que as suas gentes
executavam.
Começava cedo a jorna.
Terminava já tarde e com o corpo moído de tanto mourejar.
Quando a noite se fechava, o escuro de breu instalava-se.
Em casa, a luz das candeias de azeite ou dos candeeiros de
petróleo nas famílias com mais posses davam uma luz sumida e difusa.
Na rua era o silêncio.
Apenas o som de algum retardatário que chegava.
Depois da ceia e dos escassos haveres arrumados, era a vez
de descansar.
Desse descanso fazia muitas vezes parte uma visita à família
ou aos amigos.
Percorriam-se as ruas escuras sem dificuldade nem perigo.
As pedras grosseiras e irregulares eram por demais
conhecidas.
Eram pedras gastas de tanto pisar.
Sem medo, sem dificuldade.
Eram pedras cúmplices.
Partilhavam com quem as pisava alegrias e tristezas.
Eram companheiras de uma vida
Nessa terra de ninguém e de tantos, viviam esquecidos cidadãos
iguais a tantos outros.
O Mundo era-lhes vedado.
Hoje, daquela Terra resta pouco.
Até as pedras agora iluminadas, mudaram.
São novas, quase todas.
O tempo e a evolução encarregaram-se de as substituir.
Nas noites de breu, a luz eléctrica deu-lhes brilho.
Nós, os esquecidos da altura, temos saudades do silêncio e
do escuro.
Ou, se calhar, não...
Temos apenas saudades do nosso Berço.
Aquele Berço que nos embalou no nosso sono de meninos.
.
Abraço.
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