sábado, 31 de janeiro de 2015

A importância de uma mãe



























Delfina era o seu nome.
Era, digo bem. Deixou-me cedo e sem nada o fazer prever!
Ficou o som meigo da sua voz e a saudade que não esgota!
Talvez por hoje estar um dia chuvoso me lembrasse dela de uma forma que acho bonita.
Nasci no mês de Abril e ouvi-a contar-me algumas vezes que, durante esse mês, a chuva não parou de cair e que o tempo foi de Inverno puro e duro.
Estava aqui a pensar como eram saborosos aqueles momentos de diálogo com ela.
Sabia contar estórias. Sabia criar ambiente. Levava-me facilmente dento delas, de uma forma muito agradável e calma!
Eram diálogos recheados de ternura e sentido mímico!Transmitiam-me paz e algum conhecimento que me tem ajudado a conhecer-me melhor.
Bom, fiquei a saber que a chuva, o vento e o frio nos acompanharam, a mim e a ela, durante o seu último mês de gravidez.
Este facto levou-me já muitas a vezes a pensar que talvez por isso eu seja uma amante incondicional  desses agentes do tempo, assim como de uma boa lareira a crepitar!
Todos juntos, trazem me toda a tranqulidade que procuro!
Durante aquele último mês de Abril, devo ter estado quietinha a boiar naquela piscina quente, a a ouvir a respiração tranquila de minha mãe, combinada com a chama na lareira!
Percebi já há algum tempo que esta minha paixão por estes ambientes invernosos, quentes e calmos, é uterina mesmo!
É bom perceber o porquê das coisas.
Obrigada, minha mãe.


Abraço.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Fazes falta



Leia este texto 
ouvindo este som 
(clique aqui).







Não te vi em pessoa,mas conheci-te.
Não te ouvi mas imaginei o timbre da tua voz.
Senti-te através do que expressavas.
O teu entusiasmo atraíu-me.
 Fiquei suspensa quando, de repente, soube que o teu tempo se esgotava.
Admirei a tua coragem e resignação no sofrimento.
Emocionei-me quando te despediste de todos nós, desejando Boas Festas!
Talvez te tivesses ultrapassado para o fazer!
Sabias que era para sempre!
Segui pelo Face os últimos oito dias da tua luta lenta e sofredora!  
A tua morte, quase em directo, doeu.
Não te conheci, mas senti-te!
Também tu ficarás no meu coração!
Fazes falta, Natália Bispo!

Até sempre.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Pedagogos de todo o Mundo, uni-vos!





















Toda a gente deveria saber que as crianças de hoje são os Homens de amanhã!
Toda a gente deveria saber que os pais são o espelho dos filhos!
São frases feitas, mas são uma realidade incontornável!
Também devíamos saber que para educar uma criança é preciso conhecimento.
É preciso estar muito atento e ser oportuno nessa educação.Nos momentos certos não deixar de introduzir os princípios e os valores que farão dela um adulto mais completo e justo.
Ensinar-lhe a dar valor ao trabalho dos pais e fazê-la compreender que o que tem é resultado do seu esforço.
Ensinar-lhes o valor do dinheiro e de como é preciso não o desperdiçar em coisa supérfluas!
Dar-lhes instrumentos com que se possam valorizar e adquirir conhecimento que farão deles homens e mulheres competentes que possam contribuir para construir um Mundo melhor!
Tudo isto para dizer da minha indignação perante a histeria que vai para aí à volta de uma série Argentina que tem como protagonista uma tal de Violeta!
Num país onde os ordenados são de miséria e a vida é cheia de dificuldades, venderam-se nada mais nada menos do que setenta e dois mil bilhetes que vão de setenta a quinhentos euros!
Houve famílias que vieram de longe e são vários os elementos a assistir ao espectáculo!
Pergunto: Que loucura é esta? Que futilidade? O que vai na cabeça destes pais? Que adultos serão estas crianças no futuro?

Senhores Pedagogos, senhores Sociólogos, Senhores estudiosos sérios desta sociedade, esclareçam-me por favor!

Abraço.    

   

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Aqui o silêncio fala






O que durante o Verão fervilha de vida, neste momento é apenas céu, mar e silêncio.
Esta imensidão de mar e este silêncio são a plataforma para o isolamento e a reflexão.
Gosto de me sentir assim rodeada de Natureza!
O vento sacode os pinheiros, acaricia a areia e refresca-me a face.
O som das ondas que hoje são calmas, arrola-me e faz-me sonhar com um Mundo melhor.
Um Mundo generoso, solidário e acolhedor, onde não têm lugar os invejosos, os traiçoeiros e os egoistas.
Sinto-me quase a rodopiar. Leve e livre como um passarito, que bate as asas e se afasta do ruído daquele outro mundo, que desrespeita, que rotula, que abandona e mata sem dó!
Pena! Aquele sonho bom durou apenas alguns minutos.
Depressa fui chamada à realidade.
O ar gelado riu-se de mim e penetrou-me de cima a baixo.
O carro estava logo ali, mas havia um pormenor.
O ambiente alterou-se e o cheiro não era o mesmo.
O vento sumiu e as ondas calaram-se.
O meu pensamento estava de volta à vida real!
Em casa, esperava-me a lareira!
E os meus gatos não são deste mundo!...


Abraço.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Sem cor






Está cinzento o dia!
Será só o dia?
Quantos corações,
Quanto olhares,
Quantas almas o estarão também?
Dos pais que procuram e não encontram o sustento para os seus filhos!
Dos filhos que não têm pais!
Dos jovens que se perdem sem amparo!
Dos que lutam por valores, que não chegam!
Das crianças manipuladas, assustadas e desprotegidas!
Dos andrajosos sem abrigo!
Dos que imploram afecto a ouvidos surdos de tanta indiferença!
Está cinzento o dia!
Estão cinzentas as vontades.
Está cinzenta a vida!  


Abraço.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Vale a pena





















É com satisfação que me dou conta que há muita gente que lê o que vou escrevendo no meu Blogue «Rota da Memória».
Ainda bem.
Gosto de escrever e saber que há quem gosta de me ler.
Este Blogue começou por ser uma forma de ocupar o melhor possível os meus tempos livres e alimentar o cérebro.
Reflectir e aclarar ideias.
Nunca pensei que alguém se interessasse pelo que ia escrevendo.
Considerava que era apenas um registo muito meu.
O espanto foi quando me apercebi de que, afinal, o «meu blogue» não era apenas meu!
Fiquei contente, mas também senti mais o peso da responsabilidade. Afinal escrever para os outros lerem exige ainda mais rigor!
Por muito simples que seja o que se escreve, vai ser lido por alguém.
O meu blogue «Rota da Memória», saiu do meio restrito em que viveu durante algum tempo e galgou o Mundo sem nada o fazer prever.
Conseguiu interessar alguns!
Hoje, passados quatro anos, conta já com quinze mil e setecentas vizualizações.
Se calhar vale a pena escrever com empenho e seriedade, ainda que os assuntos sejam da maior simplicidade!
Obrigada por estarem comigo neste meu obi que me dá prazer!

Abraço.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Recordando






























Enquanto jovem, foram muitas as vezes que pessoas da aldeia (lá dizemos: o povo, para dizer aldeia) me pediram para escrever cartas a familiares ausentes e não só. O analfabetismo era quase geral, daí esta necessidade das pessoas.
Achava sempre piada, porque muitas vezes nem sabiam o que dizer e punham-me a mim a ter que inventar assunto!
Outras ditavam a preceito o que lhes ia na alma! Vou tentar pôr em pé, mais ou menos, o que, durante anos, ouvi a algumas delas. Por exemplo:

«Meu querido filho!
Espero que ao fazer desta te encontres bem. Nós, graças a Deus, cá vamos indo como Nosso Senhor  quer.
Por cá a vida é de muito trabalho, teu pai anda à jeira para a tia Adelaide do Germano e chega à noite que nem se pode mexer dos ossos, todos moidinhos de trabalho.
A nossa Maria, coitada, também se farta de trabalhar. Ainda ontem apanhou sòzinha as batatas do chão do lameiro e ficou com umas dores nas cruzes, que nem se endireita.
Eu, cá ando também com os meus achaques! Deu-me uma trambusena um dia destes que se me destimperaram os intestinos que ia deitando os bofes pela boca!
Tenho andado a caldo de arroz com cebola e uns panelos de chá de S. Roberto!
O tempo por cá anda reles.O  vento  seca tudo e deixa-nos depenados!
Então e tu? Já arranjaste aí alguma matrafona? Vê lá filho, não te percas com alguma limbelha qualquer de beiços pintados e roupa à pipi!
Olha que elas enganam com as suas palavras caras de sete e quinhentos, não valem nada e mal se entende o que dizem.
 Nós temos cá muito boas raparigas e de boas famílias, pelo menos essas são sérias e entendem-se connosco e com as nossas vidas cá do campo.
A rapariga do ti Zé da Henriqueta, está uma rapariga toda jeitosa, se te chegares a ela, acho que estará a repulir, olha que é mesmo um respigo!...
Vou terminar esta, porque já vai grande e tu deves ter mais que fazer.
Fico à espra de receber a resposta a esta carta, na volta do correio e que me contes como vai a tua vida.
Passo o tempo a pensar que ainda te perdes por essa cidade do dianho, onde ninguém dá ao menos a salvação a ningém!
Olha, só mais esta. A filha do ti Manel da Amélia teve uma menina.
E a mãe do Jaquim da Mata morreu um dia destes, coitada , também já estava muito velha e coxa.
Recebe um abraço do teu pai mãe e  irmã, que estão mortos para te voltar a ver.
Até à volta do correio, desta que s’ assina

Tua mãe».

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O Sol


amanhecer gelado natureza sol oceano nuvens sobre o mar de gelo


















O sol acordou cedo!
Espreitou atrás das nuvens!
Lento, abraçou a Terra!
Estava fria, esbranquiçada e tolhida de gelo, a Terra!
Alongou-se e chegou ao Mar, que o recebeu dengoso!
 Confundem-se num abraço de Afectos!
Amigos velhos e inseparáveis!
Que fria que está a Terra!
Onde está o calor dos Homens?

Abraço.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Arquivo



























Um arquivo é, normalmente, um local frio e bafiento onde o cheiro a pó e a papel provoca espirros e comichões na garganta.
Contudo, há um, o meu privativo, que, ao invés de me provocar esse mal-estar, me dá a possibilidade de remexer e encontrar recordações preciosas que muitas vezes me fazem sorrir.
A propósito das estórias que nos têm chegado, encontrei  uma que me apeteceu partilhar.
É já muito recuada no tempo, mas com alguma piada!
O casalinho tinha acabado de casar.
No fim da tarde depois de cumpridas todas as cerimónias, meteu-se no combóio para Lisboa para passar a lua-de-mel!
Como era um dia especial, o bilhete era de primeira classe, sempre teriam mais privacidade!
Até Castelo Branco, tudo normal!
O amor andou no ar sem ser interrompido!
Como naquela estação o combóio demorava um pouco e o almoço tinha sido mais ou menos em stress, o noivo desceu para comprar alguma coisa para acalmar a fome que já se fazia sentir!
À espera ficou a noiva, à janela, sem querer perder a ligação ao seu mais que tudo!
Qual não é o seu espanto quando o combóio começou a andar e o noivo não se vislumbrava!
Mais ou menos em pânico, a novinha,à porta da carruagem, ficou lívida!
Valeu-lhe um sacerdote que entrou ali mesmo e que escolhera também  mesma carruagem.
Desconfiado com o ar de pânico que encontrou ,perguntou o que se passava.
Depois de informado da situação, acalmou a noiva e não a largou mais enquanto o noivo que tinha entrado noutra carruagem, não apareceu, o que só aconteceu no próximo apeadeiro!...
Foram momentos de tensão que ainda hoje, á distância, provocam assim uns tremeliques.
O sacerdote, esse, percebeu tudo, até porque a indumentária era esclarecedora!...
Educado e com um sorriso, já não ficou naquela carruagem.
Afastou-se e, discrecto, procurou outra!
O resto da viagem foi ainda mais saborosa!
Enfim! Momentos inesquecíveis.

Abraço a todos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A morte saiu à rua





















É triste a morte!
É triste a partida de alguém que amamos!
É triste ver apagar um sorriso que irradia luz!
É trite ver saír de cena, quem ainda não tinha terminado o seu papel!
É triste ver o pano caír e interromper o acto que decorre!
Neste caso o acto de viver!
E como a vida era amada!
Está a ser doloroso assistir a este final!
Imagino o Sabugal hoje mais escuro.
Imagino o Côa a engrossar o seu caudal, com as lágrimas de quem a vê partir.
O Castelo, esse, vejo-o inclinado perante a grandeza da sua alma!
Partiste, mas ficarás no nosso coração para sempre, amiga!

sábado, 27 de dezembro de 2014

Estórias









Palavras leva-as o vento!...
Não, não era isso que eu queria dizer.
O vento leva é algumas penas, as que são leves!...
As palavras ditas, essas, caem muitas vezes é em saco roto!

Esta lenga-lenga toda para quê?...
Estava aqui a lembrar-me que, enquanto jovem, assisti muitas vezes à saída de pessoas da minha aldeia, à procura de melhores dias!
Ficavam por lá algum tempo na cidade grande e algumas, quando voltavam, vinham cheias de «mania»!
Dizia quem as ouvia que eram umas peneirentas e que... « vê lá! Até já vem a falar «cioso»!... Já nem conhece ninguém e nem sabe o nome dos garranchos, a que andou agarrada tanto tempo!»
E nem as pessoas as entendiam. Dizia-se que falavam caro, com palavras de sete e quinhentos...  
Uma vez, lembro-me que uma «ciosa» tipo tátá de lata, se dirigiu a um homem já casado, mas de estatura muito pequena que estava sentado no meio de um grupo e perguntou agarrando lhe o queixo.«Quem é este miúdo»!
Perante a estupefacção dos presentes que a elucidaram embaraçados,  disse muito afectada «Ai! E eu a chamar miúdo a um homem casado»!
Ficou tudo mais ou menos siderado e ficou também uma estória para contar e um rótulo na criatura!
Também havia aqueles/ aquelas, que esqueceram o passado e as dificuldades. Ficaram a meio caminho do plástico de baixa qualidade!

Abraço.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Neste entretanto...






Estamos então na altura de fazer o bem!
De enchermos os cofres do senhor Belmiro, de meter o ordenado (quem o tem) em equipamentos informáticos topo de gama, de dar desgaste  aos cartões passando-os nas máquinas até fazerem faísca!
Calcorrear sem destino, nem tino, as estradas do país e esturrar as notas nas bombas de gasolina.
Dar um ar de caridadezinha aqui e ali para que não se diga que ficamos com a consciência intranquila!
Passar ao lado dos que precisam depressa e sem olhar muito, não nos vão impressionar e caiamos na tentação de oferecer ajuda!...
E viva a vidinha, que é para se viver, pois ela é curta, coitada!
Esta época natalícia é uma riqueza!
Toda agente se cumprimenta, ainda que durante o ano se ignorem!
Tão amigos que nós somos!
Tão generosos e bem comportados!
É um regalo a distribuir amor!
Um regabofe de «amizade»!...
É engraçada esta forma de amar o próximo!


Bom Ano!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal genuíno






























O Natal também pode ser simplicidade com momentos de higiene mental!
Pode ser uma forma de estar com os que mais precisam, pelo menos em pensamento.
Pode ser genuíno e simples.

Está a ser isso o meu Natal.
Sem adereços e sem fugas.
 
Da lareira com filhoses, para a Natureza em estado puro.
Do aconchego para o ar gélido, mas saboroso do Cabo Espichel

É bom este estar natural e tranquilo!
 
Abraço para todos!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Poesia





Transcrevo:


HAJA NATAL..

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.
- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
- Está bem, eu sei!
- E as garrafas de vinho?
- Já vão a caminho!
- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
- Não sei, não sei...
Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!
Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!
Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
- Foi este o Natal de Jesus?!!!

João Coelho dos Santos
in Lágrima do Mar - 1996
Agradeço à Lidinha, minha prima, o envio 

Boas Festas!










Desejo a todos umas festas cheias de coisas boas e muitos afectos! 

Abraço.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Mais uma relíquia
























Há objectos e coisas que nos mantêm ligados ao passado e às pessoas para sempre.
Por exemplo, a casa da minha avó materna e a chave da sua porta!
Era uma casa grande e, segundo a inscrição esculpida na parede, é de mil setecentos e sessenta e sete.
Era uma casa de lavradores, que para a época se podiam classificar como abastados.
Uma casa ampla, onde foram criados os sete filhos da minha avó (apesar de ela dizer quando já demente, que não tinha filhos e que quando morresse ainda levava o «raminho da palma»! Coisa que provocava risos inofensivos em todos!).
Era uma casa de trabalho, mas também de convívios e muitos, muitos afectos.
Numa das varandas, a que dava para as traseiras e virada a Sul, era normal, nos degraus já meio esconsos e gastos pelo tempo e pelo uso, nós, os netos, fazermos deles o sofá mais confortável e deixarmos acontecer grandes e saudáveis convívios, e troca de saberes.
Era lá que se liam às escondidas (pelo menos eu por ser ainda muito jovem e em casa o regime ser apertado),livros que então eram proibidos, como o Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio. Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Dostoievski etc...
Era um dos sítios onde se partilhavam cumplicidades.
Tinha uma vista privilegiada, era rodeada de campo e serras e um sol que a envolvia até se esconder!
Tinha em frente e quase a tocar-lhe tal era a proximidade, a Torre da Igreja.
O sino, dolente mas forte, batia as horas anunciando a todos que era tempo para executar esta ou aquela tarefa, única forma de situar as pessoas no tempo.
A casa da minha avó tinha uma porta grande e forte, por isso mesmo precisava igualmente de uma chave grande, forte e pesada.   
Aquela porta, que se abriu e fechou durante três ou quatro gerações, acusou o desgaste e teve de ser substituída.
A chave, essa peça de museu, que me foi confiada muitas vezes e que eu admirava, iria certamente ser atirada para o esquecimento, qual objecto sem préstimo.
Custou-me imaginar uma relíquia ser abandonada e pedi para ficar com ela.
Tenho-a  comigo há muitos anos!
Esta chave, sem valor material,tem para mim um grande valor afectivo.
É um elo forte que me liga ao meu passado e me leva a fazer voos rasantes e apaziguadores, da saudade que às vezes se instala!  Não me abrirá mais a porta da minha avó, mas abre-me de certeza a porta das minhas memórias e dos meus afectos.

Abraço.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Brincar ao faz de conta





Durante trinta e três anos, brinquei a sério ao faz de conta no Infantário onde trabalhei!
Era o meu trabalho e deu-me muito, muito prazer desempenhá-lo o melhor que sabia!
Adorei entrar no mundo imaginário das crianças e tentar seguir com elas, as suas fantasias cheias de criatividade,imaginação,tanta entrega e magia!
Foi bom demais, descer ao nivel daqueles seres puros e verdadeiros e de uma exigência boa!
Descer ao seu nível, falar a sua linguagem, interpretá-la  e ajudar no seu desenvolvimento, foi enriquecedor e uma grande aprendizagem!
Tenho saudades desses tempos e do contacto aconchegante e verdadeiro das crianças.
Nesta época de Natal, lembro-me sempre da azáfama e do entusiasmo que era a preparação da festinha e principalmente do brilho nos olhos de cada um!
 Bons tempos vividos com intensidade e muito gosto pelo que se fazia.
Desejo a todos umas festas felizes e com muita verdade no coração!


Abraço.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Eco sem som



Um eco enorme surdo e mudo, tomou conta dos gnomos que, tranquilos, viviam a sua vida  naquela pequena clareira do grande bosque!
Um eco que, embora sem som, foi profundo e ensurdecedor.
Quebrou o ritmo e a rotina daquele sítio mágico que era habitado por aqueles seres pequenos, calmos e indefesos.
Pareceu vir das profundezas, das catacumbas, desativadas há longos, longos anos!
Pareceu que o tempo recuou e mostrou a falta de educação do homem daquele tempo!
Grosseiro, intimidatório e autoritário!
A voz, aos urros ameaçava.
Apontava o dedo e dizia:
-Eu! Eu! Eu!...
Vocês? Sem préstimo, causadores de todas as desgraças!
Nós!...Nós!...!Nós!...
Nós é que somos bons, o mundo seria bem melhor só connosco!
Lá longe, bem ao longe, ouviam- se aplausos e berraria de apoio!
Os seres pequenos ficaram incrédulos e sem compreender aquela mensagem tão tonitroante!
Decidiram remeter-se ao silêncio!
Deixaram passar a cólera daquele ser primitivo e só depois de reflectirem continuaram a sua vida calma e à margem das atitudes pouco dignas daquela voz primitiva!

Foi uma espécie de conto!...
Abraço.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Dezembro e o Natal

 



Chegou o mês mais desejado do ano!
O mês da família, das filhós e dos excessos!...
O mês do êxodo das grandes cidades para as origens.
Programam-se as viagens, entopem-se os carros com pessoas e bagagens, e contam-se os dias!
Resmas de caixas e caixinhas levam dentro o que pretende ser, e em alguns casos será, um gesto de amizade e ou de ternura!
Noutros casos serão apenas gestos de faz de conta, que de amizade e afecto terão pouco!
Está assim, quanto a mim, adulterado o Natal!
Não aprecio muito esta época que se mascarou de consumista!!
Consumismo exagerado, ligações humanas e de solidariedade nulas.
Gostava mais quando o Natal tinha magia, e a tradição ainda se praticava nas aldeias e nas famílias!
Aquele que eu e os da minha geração vivemos tão intensamente!
O genuíno, o intimista, o do abra;o quente e das filhós feitas à lareira, com cânticos a acompanhar.
Aquele, sim, era o verdadeiro Natal. Sem pretensões, sem novo  riquismo, simples e quente por dentro.
O gelo ficava lá fora.
Nos corações acontecia Natal!
Esse Natal ainda hoje me acompanha e recordo com alguma nostalgia!
Não havia gestos frios, prendas para cumprir o protocolo, nem beijinhos de circunstância, sem tocar sequer a face.
Esta nova forma de Natal plastificado, deu lugar ao afastamento entre as pessoas e à frieza das relações.
A nossa cultura não passa por Ele!

Abraço.



domingo, 30 de novembro de 2014

Emoção!



PS: Maria do Céu Guerra sobe ao palco contra a violência doméstica



Já há muito que eu não tinha o prazer de ouvir um político fazer um discurso tão carregado de humanismo como hoje.
Ouvi um candidato a primeiro-ministro que trouxe para o primeiro plano do seu discurso as pessoas e os seus problemas e histórias de vida difíceis!
Que falou como qualquer pessoa normal dessas vidas que levam à loucura os homens que diariamente abatem cruelmente as suas companheiras de uma vida (34 nomes lidos com emoção por Maria do Céu Guerra)!
Que teve a sensibilidade de trazer os números arrepiantes desses crimes!
Crimes muitas vezes cometidos pelo desespero de se verem sem vida e com a dignidade roubada.
Que deixou para trás os números frios e calculistas e se emocionou como um ser normal!
Que não se dirigiu a quem o ouviu como se de números frios se tratasse.
Que mostrou calor e não a frieza a que já nos habituaram os tecnocratas e seus capangas!
Foi bom sentir calor humano.
Também eu me emocionei.
É bom saber que os nossos problemas tocam os que porventura um dia terão os nossos destinos nas mãos.
Não sou ingénua e sei que poderei, um dia, sentir-me, mais uma vez, enganada.
Até lá, foi muito aconchegante sentir-me tratada com dignidade!


Abraço.