sexta-feira, 27 de março de 2015

Um exemplo a seguir



O papa Francisco é uma figura que não passa despercebida, nem ao mais distraído.
De uma dignidade humana sem precedentes, a sua bondade, simplicidade e amor pelos outros fizeram-me parar para pensar.
O seu despojamento em relação ao poder e à opulência foram uma pedrada no charco.
A forma clara e séria de interpretar Deus tem abanado tudo o que até então foi dito e escrito.
Todos os dias nos presenteia com gestos de proximidade e afecto, tão necessários neste mundo vazio de amor.
O que ele nos tem transmitido com as suas palavras e gestos são pérolas que deveriam ser acolhidas e motivo de reflexão.
Pergunto-me por que demorou tanto tempo, este HOMEM a chegar?
Porque é que, no seio da Igreja, esta semente não tem vingado?
Onde buscou ele estas verdades, a que aparentemente (ou não ), os outros não tiveram acesso?
Por que é que, durante tantos anos, se espalhou o medo e se difundiu um discurso tão duro, tão redutor, obscuro e diferente do que ele nos apresenta hoje?
Para mim, este HOMEM está, sim, ao serviço de Deus, seja Ele quem for, e das pessoas.
Ao serviço dos valores e da verdade sem sofismas.
Assim, sem medo e com grande coragem, ele dirige-se ao Mundo e tenta juntar os cacos que foram deixados ao longo dos séculos.
Tenta mostrar-nos qual o caminho a seguir, para conseguirmos que esse mundo seja melhor.
Só não o ouve quem não quer ou quem se sente bem num mundo esfarrapado e a digladiar-se com guerras e desigualdades.
Num mundo onde o egoísmo e os interesses se sobrepõem à solidariedade, ao humanismo e ao amor verdadeiro.  
Desejo que este HOMEM continue a sua missão, que até há bem pouco tempo eu acharia impossível


Abraço.

sábado, 21 de março de 2015

O SACO




O saco era grande e chegava quase vazio.
Às nove e meia de todas as manhãs, era agarrado pelas «orelhas» e levado a arrastar estrada abaixo, numa correria alegre.
O SACO!
O saco chegava na camioneta da carreira!
Qualquer criança, das muitas que nessa altura havia, disputava a guarda e entrega do saco.
Era quase um crescer da sua vaidadezinha de meninos! Ser portador daquele saco, era uma responsabilidade, pois não se tratava de um saco qualquer!
Aqueles corpitos frágeis e aquelas mãos pequeninas tinham uma missão que não podiam falhar: entregá-lo em mãos seguras no posto do correio.
Era aguardado  com alguma ansiedade. Mulheres, namoradas e claro, os comerciantes da aldeia,desejavam que lá dentro viesse a perspectiva da continuação de uma vida sem percalços.
O que traria hoje o saco?
Só depois de aberto por alguém possuidor da chave, se saberia!
Era uma chavinha pequena mas especial! Era guardada em sítio seguro e só de lá saía no momento certo, manuseada pela pessoa certa!
Penetrava a fechadura, rodava e só depois os segredo ou não, poderiam finalmente ser entregues e lidos.
As boas ou as más notícias, as juras de amor ou as despedidas até mais ver!
Os nomes dos destinatários eram lidos em voz alta:
«Senhora fulana de tal! Menina Tal e Tal»! ...
«E do meu filho, não veio nada»?
«O meu homem já me devia ter mandado o vale»!...
Estávamos no início da primeira debandada de emigrantes que, mensalmente, enviavam o pecúlio que com grandes sacrifícios, conseguiam angariar.
Felizes uns,  outros nem tanto, lá aceitavam a realidade, porque a esperança não podia morrer!
«Devem chegar notícias amanhã», dizia a mulher de lenço preto na cabeça, afastando-se cabisbaixa.
Era assim nos anos sessenta.
Tudo dependia da camioneta da carreira e do que aquele saco trouxesse.
Os interessados esperavam ansiosos e em grupo,a camioneta com o saco do correio.
Era um momento do dia com alguma importância.
Hoje, poucos se lembrarão daquele saco!
O objecto em tempos tão desejado, jaz esquecido e coberto de pó não se sabe onde!
Coisas dos tempos!


Abraço.  

terça-feira, 17 de março de 2015

Para recordar


















Quando me debruço sobre o computador ou quando pego no telemóvel, muitas vezes me lembro de como hoje é tão fácil comunicar!
Para os mais jovens, aqueles que nasceram depois de 1975, devo dizer que nem sempre foi assim!
Os dessa geração nem imaginam como há quarenta, cinquenta e mais anos, era dificil contactar com alguém!
Apenas havia nas aldeias (talvez nem em todas) um telefone público que deveria funcionar das oito às vinte e quatro horas e um posto de correio onde as notícias chegavam uma vez ao dia!
Só para terem  uma ideia, muitas vezes uma carta, ou uma encomenda, demorava(m) dias a chegar de um lado ao outro!
Isto, dentro do país.
Porque, se se tratasse do estrangeiro ou das antigas colónias, poderiam demorar oito ou mais dias.
Quando alguém adoecia ou por qualquer outro motivo precisasse de um médico, passavam horas até se conseguir o contacto com quem viesse em socorro.
A palavra urgência, nessa altura, não tinha qualquer peso.
Tempo! Era preciso dar tempo!
Muitas mortes aconteceram por falta de socorro atempado!
Na minha aldeia, havia um homem bom (por acaso meu tio por afinidade), que, apesar de não ser médico nem enfermeiro, tinha uma grande queda para a medicina.
Era o meu saudoso tio Narciso Nobre!
Era uma espécie de João Semana. Sempre acompanhado pelo prontuário médico, era ele quem chegava primeiro.
Fosse dia ou fosse noite ia, prestava os primeiros socorros e medicava.
Era contactado por toda a aldeia e pelas aldeias vizinhas, por exemplo, a Moita.
Hoje, os meios de comunicação são uma mais-valia – só é pena  é que muitas vezes não sejam utilizados
da melhor forma e para os fins mais correctos.
Hoje, para o bem e para o mal, não há distâncias.
Usem e usufruam bem de todos os meios de comunicação ao vosso alcance!


Abraço. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Bairro, bairro negro

 


Era um dos bairros mais degradados da periferia de Lisboa.
Atravessei-o  durante alguns anos a pé (encurtava caminho), para ir para o infantário onde trabalhei .
Os invernos chuvosos seriam, porventura, os mais duros para ali viver.
 Povoado de crianças negras, era um espaço de lama preta  sem mais opções.
Descalças e quase nuas, descarregavam naquela lama, quem sabe, a falta de comida e afectos que por força das circunstâncias lhes eram negados.
Aquela lama, penso eu, preenchia-lhes a vida vazia de tudo! Era a descarga de todas as faltas!
Era arrepiante aquele mundo que nem todos conheciam em directo.
A impotência assaltava-me de cada vez que ali passava!
Um dia, como que de propósito, entra-me pela sala dentro, uma daquelas crianças que tantas vezes me impressionara!
Fora admitido, num daqueles programas sociais.
Chegou em bruto, sem regras, sem disciplina e com modelos errados.
Para esquecer.
Entrou quase nu, tal como andava no bairro.
Arregacei as mangas.
Era preciso investir naquele ser em todas as vertentes e também no conforto físico.
Procurei lã bem quentinha e nas horas vagas fiz um camisolão bem aconchegante.
Já pronto lá vou eu feliz, por ir contribuir para o bem-estar daquele menino do bairro!...    
Caquinha!... (seu nome de guerra)! Lá vem ele chorando, com as suas birras permanentes (a adaptação foi muito difícil). Mostrei-lhe o que tinha feito para ele e, um pouco a custo, enfiei-lhe a camisola.
A gritaria triplicou e foi acompanhada de um protesto que alertou todo o infantário!
«MIJOLA, NÂO, DUCHI! 
MIJOLA, NÂO, DUCHI!...»
Ao mesmo tempo que a arrancava do corpo e a atirava ao chão.
Concluí que aquele corpito grande e magro (tinha só três anos), estava domado pelas agruras invernais!
Não consentia abafos!...
Fiquei-me pela boa vontade.
Cresceu, emigrou e, segundo sei, casou!
Como será hoje aquele Caquinha que eu tão bem conheci e em quem investi tanto afecto?
BAIRRO! BAIRRO NEGRO!
BAIRRO NEGRO!
Onde não há pão nem há sossego!


Abraço.

E oiça aqui a espantosa canção de Zeca Afonso

domingo, 8 de março de 2015

No Dia Internacional da Mulher para todas as Mulheres


Calçada de Carriche

Luísa sobe, 
sobe a calçada, 
sobe e não pode 
que vai cansada. 
Sobe, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe 
sobe a calçada. 

Saiu de casa 
de madrugada; 
regressa a casa 
é já noite fechada. 
Na mão grosseira, 
de pele queimada, 
leva a lancheira 
desengonçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Luísa é nova, 
desenxovalhada, 
tem perna gorda, 
bem torneada. 
Ferve-lhe o sangue 
de afogueada; 
saltam-lhe os peitos 
na caminhada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Passam magalas, 
rapaziada, 
palpam-lhe as coxas, 
não dá por nada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Chegou a casa 
não disse nada. 
Pegou na filha, 
deu-lhe a mamada; 
bebeu da sopa 
numa golada; 
lavou a loiça, 
varreu a escada; 
deu jeito à casa 
desarranjada; 
coseu a roupa 
já remendada; 
despiu-se à pressa, 
desinteressada; 
caiu na cama 
de uma assentada; 
chegou o homem, 
viu-a deitada; 
serviu-se dela, 
não deu por nada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Na manhã débil, 
sem alvorada, 
salta da cama, 
desembestada; 
puxa da filha, 
dá-lhe a mamada; 
veste-se à pressa, 
desengonçada; 
anda, ciranda, 
desaustinada; 
range o soalho 
a cada passada; 
salta para a rua, 
corre açodada, 
galga o passeio, 
desce a calçada, 
desce a calçada, 
chega à oficina 
à hora marcada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga; 
toca a sineta 
na hora aprazada, 
corre à cantina, 
volta à toada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga. 
Regressa a casa 
é já noite fechada. 
Luísa arqueja 
pela calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

António Gedeão, in 'Teatro do Mundo' 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Violência doméstica. Porquê?





Sempre, ao longo dos tempos, ouvimos falar de homens que agrediam as suas mulheres.
Nunca como agora se ouviram tantas estórias tão violentas!
Haverá um porquê para que alguém se atreva a desferir cobardemente golpes de faca, tiros, pontapés e outros «mimos» semelhantes em alguém frágil e indefeso?
Haverá algo que justifique procedimentos tão primatas e falhos de civismo?
Que argumentos, então, para esta vaga de violência que se vem praticando contra as mulheres?
Quem ou o quê poderá dar orígem a estes atos tão condenáveis?
A sociedade desumanizada, insensível e desprovida de condições de uma vida dígna?
A falta de emprego, a insegurança, a dignidade ferida, o orgulho amordaçado, a humilhação de não ter como responder aos encargos assumidos?
Põe-se então uma questão.
É só o homem o atingido por esta situação? Por onde anda a mulher enquanto tudo isto acontece?
Será que está de férias?
Será que não se dá conta de que os filhos sofrem com falta do básico para sobreviver?
Será que não tem orgulho nem dignidade?
Nada justifica nem desculpa as atitudes de brutaldade do homem!
A mulher é tão atingida quanto ele e esse facto não pode ser omitido.
Nada desculpa esta brutalidade, esta falta de humanismo.

Toda a brutaldade é condenável!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O vento























Lá fora, o vento sussurra!
As árvores, com seus ramos bambos, largam folhas, que se elevam e correm velozes atrás de sítio mais resguardado.
Atrás dum muro velho que, estremecendo, espera também que o vento se aquiete.
O sol, a medo, mostra-se, mas, arrepiado, foge.
As nuvens, pesadas, adensam-se e unem-se mais.
O dia, já cansado, vai-se esgotando.
Fica quieto o tempo.

A noite pede licença para entrar.
As ruas vão ficando mais vazias e desocupadas.
O vento, senhor do tempo, hoje, é o dono.
 Eu, aqui aconchegada, sonho com uma noite em que o sono me traga paz!


Abraço.

  

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O gesto

 



Sim, hoje apeteceu-me falar do gesto, aquele que dizem que é tudo!
O que nos faz sorrir, que nos deixa felizes e que nos transmite afecto!
Ou aquele que nos magoa, que nos desilude e que nos marca pela negativa.
O que deixa marcas profundas, invisíveis e que se fazem sentir em nós de formas menos desejáveis!
Contudo, um gesto é uma atitude rápida! E como pode mudar tudo assim, sem nada o fazer prever!
Para melhor ou para pior!
Num mundo menos materialista, mais solidário e sensível até poderia não haver esse gesto que magoa!
As amizades seriam  cultivadas, a inveja, os rancores e o despeito desapareceriam e dariam lugar a afectos e a atitudes mais dignas, o que tornaria as pessoas mais tolerantes e menos preconceituosas.
Onde os braços se estendessem mais em direcção ao outro para o abraçar nas horas menos boas da vida, em vez de o apontar!...
 Onde a palavra não ferisse, apenas envolvesse!
Onde não houvesse acanhamento em dizer ao outro: «Eu também gosto de ti!»
Onde o pensamento se ocupasse mais em ajudar do que a julgar!
Sei que o que aqui fica é uma utopia!
Também sei que isso não me impede de eu o desejar!...
Tudo isto veio a propósito, porque hoje fui surpreendida com algo agradável que não esperava: uma simples brincadeira com a minha foto na capa de um livro - um gesto que achei muito bonito!
Esse gesto é que despoletou toda esta reflexão!

Abraço.

      

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Onde anda a magia da vida?



Vida Sexual escancarada

Depois de ter percorrido a vida e de ter vivido muitos momentos, olho à minha volta e pergunto: «Por onde anda a magia e o belo com que  me cruzei tantas vezes? Por onde anda o mistério e o intimismo? Por onde anda o recato e o bom senso? Que mundo é este onde tudo é feito sem pudor e sem magia?» Vem isto a propósito de um recente programa da SIC.
Quanto a mim, a vida assim com tudo a descoberto deixa de ter graça!
Quebrou o encanto!
Cansa e depressa  enjoa.
Também penso que os tabus de antigamente, o controlo apertado a que todos fomos sujeitos, não têm mais lugar nesta sociedade moderna!
Contudo,o extremo oposto disto é para mim um excesso.
Uma exposição, digo eu,  pouco digna da intimidade que deveria ser só nossa.
Os excessos nunca foram saudáveis!
Quem os promove também devia ter em conta que os exemplos vêm de cima e que os olhares estão postos neles.
Um papel pouco educativo e pedagógico de quem tinha mais obrigações!     


Abraço.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Triste é pouco


Hoje tem sido um dia triste cá em casa.
Esta gatinha que vêem no cabeçalho deixou-nos hoje!
Estava connosco há doze anos e foi uma amiga e companheira inesquecível!
Uma doença do foro oncológico, levou-a depois de dois dias de algum sofrimento.
Um animal de estimação faz parte da família.
Torna-se um ser presente em todos os momentos e toma parte em tudo o que acontece.
Fica alegre ou triste, conforme o estado dos donos.
Daí, esta saudade que se transforma em falta que dói!
Apesar da idade, era ainda jovem no relacionamento.
Brincalhona, bem disposta e, sim, altiva! Muito altiva!
Tinha pose de rainha e foi por nós tratada como tal!
Faz falta aqui no espaço!
Fazem muita falta os seus olhos verdes vivos e atentos.
Vai durar um tempo a arrumar o assunto, Matilde!
Era assim o seu nome.
Ficamos com a saudade e a certeza de que connosco, a Matilde foi muito feliz.
 Até amanhã, fofinha!...


Abraço.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Porquê?





Às vezes questiono-me: porquê esta quase necessidade, este prazer de passar a escrito, o que me vai no cérebro!
Ao fazê-lo, sinto-me como se tivesse arrumado objectos valiosos, que andavam mais ou menos amontoados sem um lugar definido.
O meu cérebro é esse lugar, que agradece a organização.
É isso que eu sinto quando escrevo. As ideias ficam mais definidas e etiquetadas.
Faço uma espécie de seriação, acomodando cada uma em seu compartimento.
Quando se escreve, adquire-se um estilo próprio. O meu é intimista. Daí que, quando comecei a escrever, eu achasse que não interessaria a quem lesse, pois são assuntos por vezes muito meus e da minha zona de privacidade!
Se é privado porque partilhá-lo?
Para mim faz sentido, é uma forma de conviver, de me manter viva e de obrigar o cérebro a estar activado.
Então e não é que gosto deste convívio calmo e saudável?
Escreverei sempre que precisar e sobretudo enquanto me der prazer!
Obrigada a todos os que me lêem e me fazem  companhia!


Abraço.

sábado, 31 de janeiro de 2015

A importância de uma mãe



























Delfina era o seu nome.
Era, digo bem. Deixou-me cedo e sem nada o fazer prever!
Ficou o som meigo da sua voz e a saudade que não esgota!
Talvez por hoje estar um dia chuvoso me lembrasse dela de uma forma que acho bonita.
Nasci no mês de Abril e ouvi-a contar-me algumas vezes que, durante esse mês, a chuva não parou de cair e que o tempo foi de Inverno puro e duro.
Estava aqui a pensar como eram saborosos aqueles momentos de diálogo com ela.
Sabia contar estórias. Sabia criar ambiente. Levava-me facilmente dento delas, de uma forma muito agradável e calma!
Eram diálogos recheados de ternura e sentido mímico!Transmitiam-me paz e algum conhecimento que me tem ajudado a conhecer-me melhor.
Bom, fiquei a saber que a chuva, o vento e o frio nos acompanharam, a mim e a ela, durante o seu último mês de gravidez.
Este facto levou-me já muitas a vezes a pensar que talvez por isso eu seja uma amante incondicional  desses agentes do tempo, assim como de uma boa lareira a crepitar!
Todos juntos, trazem me toda a tranqulidade que procuro!
Durante aquele último mês de Abril, devo ter estado quietinha a boiar naquela piscina quente, a a ouvir a respiração tranquila de minha mãe, combinada com a chama na lareira!
Percebi já há algum tempo que esta minha paixão por estes ambientes invernosos, quentes e calmos, é uterina mesmo!
É bom perceber o porquê das coisas.
Obrigada, minha mãe.


Abraço.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Fazes falta



Leia este texto 
ouvindo este som 
(clique aqui).







Não te vi em pessoa,mas conheci-te.
Não te ouvi mas imaginei o timbre da tua voz.
Senti-te através do que expressavas.
O teu entusiasmo atraíu-me.
 Fiquei suspensa quando, de repente, soube que o teu tempo se esgotava.
Admirei a tua coragem e resignação no sofrimento.
Emocionei-me quando te despediste de todos nós, desejando Boas Festas!
Talvez te tivesses ultrapassado para o fazer!
Sabias que era para sempre!
Segui pelo Face os últimos oito dias da tua luta lenta e sofredora!  
A tua morte, quase em directo, doeu.
Não te conheci, mas senti-te!
Também tu ficarás no meu coração!
Fazes falta, Natália Bispo!

Até sempre.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Pedagogos de todo o Mundo, uni-vos!





















Toda a gente deveria saber que as crianças de hoje são os Homens de amanhã!
Toda a gente deveria saber que os pais são o espelho dos filhos!
São frases feitas, mas são uma realidade incontornável!
Também devíamos saber que para educar uma criança é preciso conhecimento.
É preciso estar muito atento e ser oportuno nessa educação.Nos momentos certos não deixar de introduzir os princípios e os valores que farão dela um adulto mais completo e justo.
Ensinar-lhe a dar valor ao trabalho dos pais e fazê-la compreender que o que tem é resultado do seu esforço.
Ensinar-lhes o valor do dinheiro e de como é preciso não o desperdiçar em coisa supérfluas!
Dar-lhes instrumentos com que se possam valorizar e adquirir conhecimento que farão deles homens e mulheres competentes que possam contribuir para construir um Mundo melhor!
Tudo isto para dizer da minha indignação perante a histeria que vai para aí à volta de uma série Argentina que tem como protagonista uma tal de Violeta!
Num país onde os ordenados são de miséria e a vida é cheia de dificuldades, venderam-se nada mais nada menos do que setenta e dois mil bilhetes que vão de setenta a quinhentos euros!
Houve famílias que vieram de longe e são vários os elementos a assistir ao espectáculo!
Pergunto: Que loucura é esta? Que futilidade? O que vai na cabeça destes pais? Que adultos serão estas crianças no futuro?

Senhores Pedagogos, senhores Sociólogos, Senhores estudiosos sérios desta sociedade, esclareçam-me por favor!

Abraço.    

   

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Aqui o silêncio fala






O que durante o Verão fervilha de vida, neste momento é apenas céu, mar e silêncio.
Esta imensidão de mar e este silêncio são a plataforma para o isolamento e a reflexão.
Gosto de me sentir assim rodeada de Natureza!
O vento sacode os pinheiros, acaricia a areia e refresca-me a face.
O som das ondas que hoje são calmas, arrola-me e faz-me sonhar com um Mundo melhor.
Um Mundo generoso, solidário e acolhedor, onde não têm lugar os invejosos, os traiçoeiros e os egoistas.
Sinto-me quase a rodopiar. Leve e livre como um passarito, que bate as asas e se afasta do ruído daquele outro mundo, que desrespeita, que rotula, que abandona e mata sem dó!
Pena! Aquele sonho bom durou apenas alguns minutos.
Depressa fui chamada à realidade.
O ar gelado riu-se de mim e penetrou-me de cima a baixo.
O carro estava logo ali, mas havia um pormenor.
O ambiente alterou-se e o cheiro não era o mesmo.
O vento sumiu e as ondas calaram-se.
O meu pensamento estava de volta à vida real!
Em casa, esperava-me a lareira!
E os meus gatos não são deste mundo!...


Abraço.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Sem cor






Está cinzento o dia!
Será só o dia?
Quantos corações,
Quanto olhares,
Quantas almas o estarão também?
Dos pais que procuram e não encontram o sustento para os seus filhos!
Dos filhos que não têm pais!
Dos jovens que se perdem sem amparo!
Dos que lutam por valores, que não chegam!
Das crianças manipuladas, assustadas e desprotegidas!
Dos andrajosos sem abrigo!
Dos que imploram afecto a ouvidos surdos de tanta indiferença!
Está cinzento o dia!
Estão cinzentas as vontades.
Está cinzenta a vida!  


Abraço.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Vale a pena





















É com satisfação que me dou conta que há muita gente que lê o que vou escrevendo no meu Blogue «Rota da Memória».
Ainda bem.
Gosto de escrever e saber que há quem gosta de me ler.
Este Blogue começou por ser uma forma de ocupar o melhor possível os meus tempos livres e alimentar o cérebro.
Reflectir e aclarar ideias.
Nunca pensei que alguém se interessasse pelo que ia escrevendo.
Considerava que era apenas um registo muito meu.
O espanto foi quando me apercebi de que, afinal, o «meu blogue» não era apenas meu!
Fiquei contente, mas também senti mais o peso da responsabilidade. Afinal escrever para os outros lerem exige ainda mais rigor!
Por muito simples que seja o que se escreve, vai ser lido por alguém.
O meu blogue «Rota da Memória», saiu do meio restrito em que viveu durante algum tempo e galgou o Mundo sem nada o fazer prever.
Conseguiu interessar alguns!
Hoje, passados quatro anos, conta já com quinze mil e setecentas vizualizações.
Se calhar vale a pena escrever com empenho e seriedade, ainda que os assuntos sejam da maior simplicidade!
Obrigada por estarem comigo neste meu obi que me dá prazer!

Abraço.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Recordando






























Enquanto jovem, foram muitas as vezes que pessoas da aldeia (lá dizemos: o povo, para dizer aldeia) me pediram para escrever cartas a familiares ausentes e não só. O analfabetismo era quase geral, daí esta necessidade das pessoas.
Achava sempre piada, porque muitas vezes nem sabiam o que dizer e punham-me a mim a ter que inventar assunto!
Outras ditavam a preceito o que lhes ia na alma! Vou tentar pôr em pé, mais ou menos, o que, durante anos, ouvi a algumas delas. Por exemplo:

«Meu querido filho!
Espero que ao fazer desta te encontres bem. Nós, graças a Deus, cá vamos indo como Nosso Senhor  quer.
Por cá a vida é de muito trabalho, teu pai anda à jeira para a tia Adelaide do Germano e chega à noite que nem se pode mexer dos ossos, todos moidinhos de trabalho.
A nossa Maria, coitada, também se farta de trabalhar. Ainda ontem apanhou sòzinha as batatas do chão do lameiro e ficou com umas dores nas cruzes, que nem se endireita.
Eu, cá ando também com os meus achaques! Deu-me uma trambusena um dia destes que se me destimperaram os intestinos que ia deitando os bofes pela boca!
Tenho andado a caldo de arroz com cebola e uns panelos de chá de S. Roberto!
O tempo por cá anda reles.O  vento  seca tudo e deixa-nos depenados!
Então e tu? Já arranjaste aí alguma matrafona? Vê lá filho, não te percas com alguma limbelha qualquer de beiços pintados e roupa à pipi!
Olha que elas enganam com as suas palavras caras de sete e quinhentos, não valem nada e mal se entende o que dizem.
 Nós temos cá muito boas raparigas e de boas famílias, pelo menos essas são sérias e entendem-se connosco e com as nossas vidas cá do campo.
A rapariga do ti Zé da Henriqueta, está uma rapariga toda jeitosa, se te chegares a ela, acho que estará a repulir, olha que é mesmo um respigo!...
Vou terminar esta, porque já vai grande e tu deves ter mais que fazer.
Fico à espra de receber a resposta a esta carta, na volta do correio e que me contes como vai a tua vida.
Passo o tempo a pensar que ainda te perdes por essa cidade do dianho, onde ninguém dá ao menos a salvação a ningém!
Olha, só mais esta. A filha do ti Manel da Amélia teve uma menina.
E a mãe do Jaquim da Mata morreu um dia destes, coitada , também já estava muito velha e coxa.
Recebe um abraço do teu pai mãe e  irmã, que estão mortos para te voltar a ver.
Até à volta do correio, desta que s’ assina

Tua mãe».

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O Sol


amanhecer gelado natureza sol oceano nuvens sobre o mar de gelo


















O sol acordou cedo!
Espreitou atrás das nuvens!
Lento, abraçou a Terra!
Estava fria, esbranquiçada e tolhida de gelo, a Terra!
Alongou-se e chegou ao Mar, que o recebeu dengoso!
 Confundem-se num abraço de Afectos!
Amigos velhos e inseparáveis!
Que fria que está a Terra!
Onde está o calor dos Homens?

Abraço.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Arquivo



























Um arquivo é, normalmente, um local frio e bafiento onde o cheiro a pó e a papel provoca espirros e comichões na garganta.
Contudo, há um, o meu privativo, que, ao invés de me provocar esse mal-estar, me dá a possibilidade de remexer e encontrar recordações preciosas que muitas vezes me fazem sorrir.
A propósito das estórias que nos têm chegado, encontrei  uma que me apeteceu partilhar.
É já muito recuada no tempo, mas com alguma piada!
O casalinho tinha acabado de casar.
No fim da tarde depois de cumpridas todas as cerimónias, meteu-se no combóio para Lisboa para passar a lua-de-mel!
Como era um dia especial, o bilhete era de primeira classe, sempre teriam mais privacidade!
Até Castelo Branco, tudo normal!
O amor andou no ar sem ser interrompido!
Como naquela estação o combóio demorava um pouco e o almoço tinha sido mais ou menos em stress, o noivo desceu para comprar alguma coisa para acalmar a fome que já se fazia sentir!
À espera ficou a noiva, à janela, sem querer perder a ligação ao seu mais que tudo!
Qual não é o seu espanto quando o combóio começou a andar e o noivo não se vislumbrava!
Mais ou menos em pânico, a novinha,à porta da carruagem, ficou lívida!
Valeu-lhe um sacerdote que entrou ali mesmo e que escolhera também  mesma carruagem.
Desconfiado com o ar de pânico que encontrou ,perguntou o que se passava.
Depois de informado da situação, acalmou a noiva e não a largou mais enquanto o noivo que tinha entrado noutra carruagem, não apareceu, o que só aconteceu no próximo apeadeiro!...
Foram momentos de tensão que ainda hoje, á distância, provocam assim uns tremeliques.
O sacerdote, esse, percebeu tudo, até porque a indumentária era esclarecedora!...
Educado e com um sorriso, já não ficou naquela carruagem.
Afastou-se e, discrecto, procurou outra!
O resto da viagem foi ainda mais saborosa!
Enfim! Momentos inesquecíveis.

Abraço a todos.