terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Preocupações de pais



Era meio da tarde e as crianças brincavam no recreio.
Alguns pais mais disponíveis começavam a chegar e procuravam saber junto de cada responsável como tinha sido o dia da sua criança.
A preocupação principal de grande parte deles era se o filhote tinha comido ou não.
Sempre foi assim. A esses, não os preocupava a qualidade alimentar, nem outros aspectos importantes envolventes. Apenas se comiam ou não.
Foi um aspecto que sempre me intrigou.
Os meninos guardadinhos e de barriga cheia!...
Numa dessas situações de preocupação alimentar, a mãe queixava-se de que o menino, de manhã, não tinha querido nem sequer, o iogurte!
Um pouco afastado e «com um olho no burro, outro no cigano», estava o condutor de uma das carrinhas.
Homem de poucas falas. Educado, bom profissional, alentejano de Arronches.
Criado apenas pelo pai e uma madrasta pouco sensível.
Os castigos da vida eram mais que muitos.
Ouviu, ouviu, e, de repente, penso que depois de dar uma olhadela pela sua própria vida passada, disse baixinho:  «É como ó mê pai, tamém mi dezia todas as manhãs: comi o iogurti Álvaro!... Comi!».
Eu estava próximo, ouvi o comentário acintoso mas dito com muita piada!
Foi uma gargalhada espontânea, que tive de disfarçar com algum esforço.
A vida massacrante e cheia de dificuldades não retirou àquele alentejano esclarecido o humor e a capacidade de observação.
Muito boa gente, o senhor Álvaro!

Abraço.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Coliseu dos Recreios




Não sei quantas vezes eu já passei por aquela porta!
Às vezes em trabalho, outras para ver espectáculos que me interessam.
 Uma das actividades que me levaram lá com alguma frequência foram os espectáculos de circo pelo Natal.
As crianças com quem então trabalhava assim o exigiam.
Depois de tudo programado atempadamente, em fila indiana e grande excitação, tinha a difícil tarefa de levar e trazer de volta sãs e salvas, as crianças daquele grupo que me era confiado.
Era com prazer que desempenhava aquela tarefa.
Só para ver os rostos daquelas crianças inundado de alegria e os seus gestos de entusiasmo e espanto, valia a pena não falhar o espectáculo.
 Eram momentos esfuziantes e compensadores.
A hora dos palhaços era a mais esperada.   
Este fim-de-semana «fui várias vezes ao Coliseu» sem querer.
Nas horas em que liguei a TV, normalmente para ver as notícias, lá estava o Coliseu.
Abarrotava de gente que berrava, gesticulava, e até faziam gracinhas!
Mas… olha! Estes não têm o chapéu de palhaços, nem nariz abatatado!...
Só fazem piruetas umas atrás das outras, como que para ver quem faz a melhor!
Estavam todos, desde o palhaço pobre, até ao palhaço rico.
Alguns deles, até fazem comentário político. Mas… ali, não contestaram nem criticaram.
Apenas se limitaram a ser todos muito amigos!... Tão queridos.
Barões, baronesas, todos em cavaqueira amiga!
Que saudades dos palhaços a sério e de programas que eduquem, que instruam e abram horizontes a quem não os tem!...
Raio desta palhaçada.

Abraço.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Eu chamo-me…





O nome.
O nosso nome.
O nosso nome faz parte de nós, da nossa identidade.
Está colado a nós, quer gostemos dele ou não, e acompanha-nos até ao fim e para lá do fim.
Por ser assim, tomamos posse dele e detestamos que alguém, por engano ou desconhecimento, nos chame qualquer outro que não o nosso.
Quando isso acontece, não gostamos muito, sentimo-nos desconfortáveis e olhamos até meio atravessado.
Embora não o confessemos, é com se nos roubassem um bocadinho de nós.
Aconteceu-me outro dia, ao responder a uma mensagem que me foi enviada.
Essa mensagem que eu escrevi de boa fé e com o intuito de agradar, foi apagada por quem a recebeu e que apagou também o que o próprio escreveu.
Esse gesto fez-me parar para pensar.
Nada naquele texto poderia ser motivo para apagar o que escrevi.
Então! …Ah! O nome. Tratei a pessoa que até está fragilizada, por um nome que não lhe pertence.
Penso que poderá ter sido isso que fez a pessoa sentir-se mal.
Talvez pensasse que não tem para mim qualquer importância, pois nem o nome dela sei!
Nada disso. Sou distraída, é o que é, li de relance e escrevi o mais óbvio.

Abraço.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Os tempos e os afectos






Felizmente, de há um tempo para cá, ouve-se e lê-se alguma preocupação com a falta de sensibilidade, afectos e solidariedade entre as pessoas.
O estilo de vida criado é talvez o responsável por isso.
Talvez por causa dele se tenham aberto as portas ao isolamento, às relações descartáveis desapegadas e frias, que reinam por aí.
Talvez essa vida cheia e em corrida seja a responsável pela falta de tempo para a amizade, para a partilha e para o contacto, que quanto a mim é tão necessário?
Esta vida vivida em «stress», que passa quase sem darmos conta, é que faz a diferença.
A falta de tempo para o contacto com os outros separa-nos e convence-nos de que nos bastamos a nós próprios.   
Para minorar essa lacuna, temos agora os meios virtuais que, se bem utilizados, ainda vão mantendo alguma ligação.
Mas e o toque?
E os olhos?
 E as vivências em directo, as sensações que ficam diluídas na distância?
Não é por acaso que, em algumas redes sociais, se recordam com saudade os tempos em que o convívio são e desinteressado acontecia entre os pares!
E estou certa de que não é saudosismo.
É, sim, a falta que faz uma vida vivida com mais amizade, mais ternura e solidariedade.  


Abraço.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Objectos com vida






















Conheço-os desde criança: a braseira e a caldeirinha de cobre, os pratos antigos, as panelas de ferro... e muitos mais.
Convivi com eles diariamente.
Alguns eram mais mimados que outros, eram considerados nobres.
Esses viviam a maior parte do tempo em «exposição».
Só em dias «ass’lanados» (assolenados ou seja: meio solenes) é que desciam a desempenhar as funções para que tinham sido concebidos.
Os outros, os mais vulgares, estavam de serviço todos os dias.
Cada um me recorda momentos, sítios, gestos, sabores, cheiros e convívios saudáveis
Falam comigo e levam me ao devaneio quando os olho.
Mantêm-me ligada às pessoas e às origens e ao berço onde nasci.
É qualquer coisa de muito forte que me liga a eles.
Sinto-os com se fizessem parte de mim.
Sinto que, se me desligasse deles, abafaria parte do meu passado.
Com eles recordo os convívios que «à volta deles» aconteciam.
Recordo os olhos que sorriam com carinho, os gestos de ternura e as palavras amigas.
Recordo, ainda, a força da amizade e da solidariedade que eram verdadeiras e indispensáveis.
Alguns desses objectos estão comigo.
Funcionam como um laço que me amarra ao passado e aos meus.     
Objectos sem grande valor económico, mas com um valor estimativo sem tamanho!...
São os meus ontens que, felizmente, não morreram em mim.

Abraço.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Com Mozart em fundo

 



Quase no fim de uma aula de Pilates e já em tempo de alongamentos, eis que uma tempestade de vento e chuva, tirou do silêncio o grupo que se entregava ao prazer do relax.
O corpo saiu da quase «letargia» em que se encontrava e o cérebro, alarmado, questionou-se.
Ninguém merecia aquele «acordar» violento.
Ainda menos, quando se relaxa ao som de uma peça de Mozart e num silêncio que quase se ouve.
A Natureza tem as suas regras. Ninguém a detém.
O Homem, aquele ser que tantas vezes se deslumbra perante o que considera os seus grandes feitos, é nada, perante tão grande potência.
 Não existe ninguém, que se sobreponha à força inimaginável dos fenómenos que, de quando em vez, nos fazem descer do nosso palanque e olhar respeitosamente.
Somos seres minúsculos e insignificantes, melhor seria remetermo-nos à nossa pequenez.
Meio atordoado, o grupo manteve-se quieto.
Respeitosamente.
Mozart continuava em fundo.  
 Terça-feira haverá mais Pilates.
Um intervalo bom, na vida de futuro incerto.

Abraço.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Surpresas





Nem sempre as surpresas são agradáveis.
Infelizmente, nestes últimos tempos, surgem umas atrás das outras em catadupa, cada uma
pior que a outra.
Vamo-nos dando conta de que nem «uminha» só, para nos alentar o espírito!
As gentes destes lados do planeta andam inseguras, sisudas e meio desnorteadas.
Vivem na expectativa.
O presente é carga demasiado pesada e o futuro, para muitos, é incerto.
Caminham com alguma dificuldade. O arcaboiço verga com a carga.
O cérebro desdobra-se a inventar formas de…
 Precisa-se de algo que nos devolva o ânimo.
De qualquer coisa que nos traga a esperança e o sorriso de volta.
Qualquer coisa que nos devolva o conforto e o alento.
Que nos faça pensar que, num dia não muito remoto, iremos novamente ver a vida com alguma leveza.
Entretanto, não há outra forma.
Orgulhemo-nos de que, apesar dos desafios e das dificuldades, não perdemos nunca, a dignidade.
É bom acreditar que, a qualquer momento, pode aparecer uma surpresa boa.
Daquelas que nos preenchem a alma e nos aquietam o espírito!
 Segurança e confiança - é o que precisamos.    

Abraço.

.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

E o tempo passa…




Foi aqui mesmo ao meu lado, que aconteceu o trágico acidente.
Aqui, no mar do Meco.
Naquele mar que me é tão familiar.
Que conheço tão bem, que me ouve quando passeio pela praia e debito os meus monólogos.
 Momentos bons e menos bons, eu já partilhei com ele!
Com todo o respeito, claro, porque aquele mar não está sempre para amar.
Nos dias não, é melhor dar-lhe espaço. Vê-lo apenas de longe para não o incomodar.
Respeitar a sua fúria. Gosta de privacidade este mar.    
 Naquela noite para mim mal dormida, ouvi-o demais.
Era um desatino fora do comum.
Marés vivas, pensei eu.
Será que os restaurantes de praia resistem?
Era de meter medo.
Foi exactamente aquele mar que sete jovens inconscientes e entregues a si próprios, decidiram desafiar.
Soube logo pela manhã da tragédia.
Não é possível!
Não se desafia um gigante enfurecido.
Já se especulou muito.
Para mim, aqueles jovens, não tiveram maturidade para avaliar a situação.
Não se tratou de crianças. Todos eram adultos com obrigações.
Como será o futuro do país, com cabecinhas destas em lugares-chave?
Perder tempo com a educação e os pincípios não é perder: é ganhar.


Abraço.   

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Amigos




Quando paro para pensar na palavra amigo, surgem-me algumas questões.
Um amigo é o quê? Como acontece? Para que serve?
À partida, acho que um amigo será aquela pessoa que tem qualquer coisa a ver comigo, com quem gosto de conviver, de comunicar e a quem me vou ligando, conforme me vou apercebendo de que temos afinidades e motivações em comum.
A partir daí, pode criar-se uma empatia, um certo prazer de comunicar e de estar, que poderá levar à amizade sincera e leal.
Para que serve afinal um amigo?
Quanto a mim, um amigo é uma mais-valia.
É aquele que não falha nos momentos críticos.
 Nos momentos de alegria e de comemoração de alguma coisa.
É aquele que nos dá o ombro, que nos apoia quando precisamos.
Que não foge de nós como rato, quando estamos abatidos e com necessidade das suas palavras de força.
Penso que se banalizou a palavra amigo, sem se pensar no seu verdadeiro conteúdo.
Ser amigo é ser nobre nas atitudes e nos gestos e não apenas debitar retórica de ocasião.

Abraço.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Olá!




Quando decidi criar este blogue e me pus para aqui a debitar pensamentos, reflexões ou coisas de somenos importância, nunca supus angariar um número tão significativo de visitantes.
Para um bologuezinho caseiro e sem pretensões, digamos que me surpreendeu.
Devo dizer que há dias em que a quantidade de visitas atinge números que, de certa forma, me surpreendem.
 Para ser franca, fiquei contente e isso deu-me coragem para continuar.
Conseguiram com essa assiduidade atiçar o meu gosto pela escrita.
Então, assumi comigo mesma o compromisso de manter este blogue vivo.
Ao ponto de me sentir em falta quando não me apetecia tanto escrever.
Há uma semana a esta parte, tenho verificado que as visitas diminuíram drasticamente.
Fiquei intrigada e decidi pensar que, olha…, tudo tem um princípio e um fim, se calhar é hora de parar.
Se calhar, cansei o pessoal!
Ora eu, que quando comecei até pensei que isto era apenas para consumo próprio, não poderia exigir mais.
Achei também que seria um sítio que me serviria quase só para fazer as minhas catarses, que são tantas!
E, quem sabe, imaginar que, do outro lado, alguém hipoteticamente me escutaria – um amigo imaginário, quem sabe!...
Hoje, a meio da tarde, surpreendi-me mais uma vez.
Em grande parte, as minhas visitas estavam de volta.
Afinal o que se passou?
Terá tido a ver com o aviso de que o blogue tinha «cookies»?
É que alguém me alertou para isso.
Ainda não é desta que vou parar.
Mas, claro que terá que ser um dia.


Abraço.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Sem rebuços





São as crianças.
Não se coíbem de dizer o que pensam.
Desinibidas, sem intenção de agradar ou não, falam.
E como às vezes são cruéis!
Hoje lembrei-me de uma situação que me contaram e a que, na altura, achei imensa piada.
Não só pela surpresa, como pela frontal simplicidade de uma criança.
Um amigo, professor numa Escola Básica no interior do País, cheio de boa vontade, resolveu trazer as crianças a Lisboa, para uma visita ao Parlamento.
Era preciso que começassem a tomar conhecimento.
A perceberem onde, como e quem ditava as leis do seu País.
Depois de muito bem recebidos e já instalados, começam, espantados, a seguir os trabalhos da sessão desse da.
Discurso para cá, discurso para lá, foi a vez de uma deputada que, muito inflamada, defendia a sua questão.
Aos gritos e gesticulando largo, dirigia-se encarnada aos presentes.
Uma das crianças, intrigada, virou-se para o seu professor e perguntou:
- Ó professor, aquela mulher está bêbeda?
O professor teve que se controlar e lá esclareceu a criança como pôde.
A verdade é que, certamente, esta criança nunca mais se irá esquecer da expressão dura e provavelmente excessiva, que viu no rosto de alguns dos responsáveis pelas leis que nos regem.
Criança não disfarça nem se inibe de dizer o que pensa.
Doa a quem doer.


 Abraço.     

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Macacos





Adoro macacos.  Macacos verdadeiros, brincalhões, bem-dispostos e inteligentes.
Às vezes, quando os observo, quase me comovo com o discernimento daqueles seres.
Enquanto trabalhadora no activo, tive oportunidade de acompanhar as minhas crianças ao Jardim Zoológico mais que uma vez, e de me maravilhar com o que por lá vi.
Numa dessas idas, deparei-me com um pequenino que, na sua jaula, tentava construir um puzzle com os paralelepípedos que tinham saltado da calçada.
Com muita paciência e perspicácia, procurava refazer o espaço.
Fiquei siderada com as tentativas : põe, tira, volta a pôr, olha, vira, volta a olhar!...
Aquilo, se eu não estivesse a ver, diria que era uma cena montada!
Não era, eu vi.
Vi e nunca me esquecerei. Foi uma verdadeira maravilha vinda de um ser tão pequeno e ali sem apoios nem incentivos humanos, no Jardim Zoológico de Lisboa.
Por isso é que não gosto de ouvir chamar aos nossos políticos «macacos»!...
 Como assim?
Os macacos, eu testemunhei, têm inteligência.
E a deles por onde anda?

Abraço.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Desta vez…




Pois é verdade. Desta vez o mar falhou-me.
Proibiu-me de estar com ele.
Estrebuchava enlouquecido e entrou em histeria.
Destruiu e arrasou tudo o que encontrou pela frente.
Urrando e sem controlo, exibiu-se como um louco.
Fez tremer os mais ousados e habituados às suas fúrias
Arrancou do seu ventre toda a força e penetrou em terra.
Dela, arrecadou o que pôde.
Os pescadores, seus companheiros de viagem, olhavam atónitos aqueles preparos despropositados.
Demorou a passar aquela fúria.
Parecia um surto!...
Assim não, mar.
Assim, como posso eu continuar a contar contigo?
Onde e quando, volto a encontrar o ombro terno e amigo de que preciso às vezes?
Preciso de ti normal.
Só tu me ouves sem me interromperes.
Só tu não me fazes perguntas.
Só tu me aceitas tal como sou.
Volta, mar.    


Abraço.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Caixas fechadas












Tantas caixas!
Todas elas, quase hermeticamente fechadas.
Umas, mais ou menos transparentes.
Outras, opacas e densas.
Quando se olha, nada transparece.
Só se sabe que são caixas das mais variadas formas e tamanhos.
O que terão lá dentro?
Estão trancadas e impenetráveis.
Como se de cofres se tratasse.
Depois de voltas e voltas…
São vidas que estão lá dentro!
São as vidas de cada um.
Resguardadas.
Alguém consegue imaginá-las?
Cada um só mostra o que quer, quando quer.   
Caixas.
É isso, são vidas metidas em caixas.


Abraço.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Mandava a tradição…





Eram passadas as festividades natalícias.
Mal havia tempo de retomar a vida normal e já outra tradição apontava.
As Janeiras.
Na época, eram vividas de uma forma alegre e originavam o convívio, que preenchia o silêncio que se fazia «ouvir» nas ruas desertas.
As noites eram longas e muito frias.
Havia que recolher cedo e usufruir do «conforto» interior, se é que se podia chamar assim.
Há algumas décadas atrás, os acabamentos das casas não eram propriamente de primeira!
As casas eram quase todas de taipa e as frestas riam-se, franqueando a entrada aos agentes exteriores que, lá fora, se enfureciam uns contra os outros.
O céu era azul gélido.
 A lua, senhora roliça e bela, olhava as estrelas que lhe piscavam constantemente o olho brilhante de luz.
Ainda a ceia se ajeitava no estômago e a conversa era amena, já ao longe se ouviam as cantorias alusivas à época:
«Levante-se lá, senhora,
Desse banco de cortiça.
Venha-nos dar as janeiras:
Ou morcela ou chouriça!»
Era o hábito. Ninguém estranhava.
Na dispensa, estavam já à espera os manjares do costume.
A falta de meios de comunicação e outros meios, dava origem a que as pessoas fossem mais alegres e mais criativas.
Havia, então, uma maior necessidade de inventar formas de convívio e de comunicação.
Era assim que se brincava há umas décadas atrás.  


Abraço.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O tempo




O tempo, hoje, está meio enjoado aqui por estas bandas.
Está mole, húmido, meio parado e sem graça.
Nada a ver com um dia de chuva bem chovida ou de um qualquer dia solarego.
 Não gosto de meias tintas, gosto de situações claras.
 Este tempo assim é para mim meio depressivo.
Como resolver isto?
Ignorando o que vai lá fora e ajeitando-me aqui no meu canto, com um bom livro à frente.
Desta vez, virei-me para o Mia Couto.
Um autor que sempre me agradou, que me prende e me preenche.
Assim, ao mesmo tempo que me abstraio do que me incomoda, vou-me deliciando, e porque não, também cultivando, com a sabedoria deste exímio escritor, que escreve de uma forma que acho deliciosa.
Também com um conhecimento profundo dos temas que se propõe tratar.
O tempo é demasiado precioso para ser desperdiçado.
A televisão não merece muito a minha atenção.
Em muitos momentos, isto digo eu, desceu abaixo do que seria desejável.
Depois, uma boa leitura é sempre uma boa companhia.


Abraço.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Na minha aldeia

















Nestes dias mais ou menos festivos, é inevitável o meu pensamento não voar.
Desta vez foi até à minha aldeia de então.
Era uma aldeia quieta e silenciosa.
Em dias de chuva como o de hoje, era também deserta.
Quase fazia lembrar uma aldeia onde, a qualquer momento, um filme fantasmagórico iria acontecer.
Nas ruas, para lá da chuva que zurzia tudo o que encontrava pela frente, havia no ar um cheiro intenso a fumo.
Até isso era meio misterioso e agradável.
Era um cheiro genuíno e forte e selvagem.
Dentro de cada casa, a lareira era a protagonista.
Sem ela, diria eu, seria insuportável viver ali.
Por isso era tão adorada, tão querida e tratada com tanto desvelo.
À sua volta, teciam-se estórias e romanceavam-se acontecimentos.
Quase sempre os antepassados já desaparecidos eram os protagonistas.
Desde quadrilhas que assaltavam pela calada da noite, a proezas acontecidas, tudo servia para ocupar e animar o grupo.
 A lareira era o centro do convívio saudável daquela época.
 Havia sempre alguém que fazia o papel de animador.
Às vezes até penso que aqueles serões se transformavam  em verdadeira comédia à portuguesa.
Na altura não havia gente depressiva.
O convívio era alegre e muito verdadeiro.
Transformou-se a minha aldeia.
Para melhor em termos de progresso.
O resto, esse, ficou-se pelo caminho.
Na minha aldeia, num dia igual ao de hoje, alguém diria:
- Está um dia de capar cães!...
E outras expressões que, manda a decência, ficam apenas no pensamento.
A minha aldeia mudou, mas continua a ser a minha aldeia, aquela que me viu nascer e crescer.
Um ano bom para todos os que me lerem.


Abraço.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Que não falte a saúde



















Este ano que termina amanhã não deixará saudades à maioria dos portugueses.
Pelo menos aos que ficaram sem acesso ao trabalho que lhes trazia o sustento.
Aos que, ainda que trabalhando, viram os seus rendimentos reduzidos drasticamente, sem apelo nem agravo.
Aos idosos, com reformas de miséria e que, ainda assim, foram «assaltados», humilhados, esquecidos e a sentirem-se empecilhos sem préstimo.
Aos jovens, que sem oportunidades no seu país, se viram obrigados a emigrar e a deixar para trás todos e tudo aquilo que amavam.
Às crianças, que por via de tudo isto, andam mal alimentadas – ao ponto de desmaiarem de fome nas escolas.
Às vidas desfeitas.
Às famílias separadas!
Ao desafecto em que tudo isto poderá resultar!
Para quê?
Para encher os bolsos de alguns e o ego de outros?
Alguém, para lá desses senhores, vê alguma luz no horizonte?
O que é que nos aguarda no futuro?
Haverá algum motivo para ter esperança?
Despedirmo-nos deste, sim, mandá-lo para bem longe.
Mas… festejar o que vem?
Não vejo por quê.
No meio deste lodaçal, o que mais poderemos desejar é que não nos falte a saúde.

Abraço.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Quando os afectos são curtos

























Estamos sempre rodeados de muitas pessoas, cada uma de sua espécie.
Quando se é uma pessoa de afectos, sofre-se com isso mais do que se devia.
Sobretudo quando nos damos conta de que há entre quem nos rodeia pessoas frias e indiferentes.
Distantes e que não nos envolvem.
Não nos mostram nem réstia de ternura.
Quando nunca acontece aquele abraço fraterno e caloroso.
Quando os olhos que vemos não contêm nem mostram afecto.
Quando nos damos conta de que, afinal, as relações são apenas de cortesia.
Para cumprir protocolo.
Quando não há um gesto, um sinal de amizade.
A essas relações eu chamarei relações frias e hipócritas.
Relações sem conteúdo nem alma.

Por onde andarão os afectos de que tanto necessitamos?

Abraço.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Festa na aldeia





Hoje, há festa na aldeia.
Por aqui, e nesta matéria, a aldeia está quase em estado «puro».
Sempre, no dia a seguir ao natal, fazem esta festa que é de arromba e que põe a aldeia a bulir.
Não falta o foguetório, a fanfarra, a longa procissão e, claro, a banda com o artista preferido para animar os residentes e forasteiros, com um forte bailarico.
 Tudo funciona à volta deste acontecimento que, para os locais com negócios, é um arrecadar de «divisas».
As beldades aproveitam o dia para se passearem com os modelitos novos e porem em ebolição a cabeça dos olhudos do físico.
É a tradição quase sem adulteração.
Penso que tudo isto será para se limparem um pouco da época do verão, em que o turismo abafa e lhes retira a privacidade e o protagonismo.
À parte os foguetes, que eles teimam em manter, os festejos são feitos no largo principal, deixando tranquilos os apreciadores do recato.
 Em fundo, temos o som do mar que ruge, mas, nestas condições, chega abafado e não leva a melhor.
Tem o ano todo para se exibir.

Abraço.