quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dia inicial



«Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitemos a substância do tempo»


Sofia de Mello Breyner


E a noite e o silêncio transformaram-se no dia mais feliz 
das gentes deste pequeno País adormecido!
Não deixemos morrer esse espírto.

Abraço. 


terça-feira, 22 de abril de 2014

Primavera é vida






































Ontem, depois de uma ida ao ginásio, depois de uma merecida pausa e depois de um pequeno lanche, apeteceu-me encarar a Natureza.
Aqui muito próximo de mim, Natureza em estado puro é o que não falta.
 Por entre descidas e subidas mais ou menos inclinadas, e veredas estreitas ladeadas de arbustos, a caminhada decorreu serena, dando ainda a oportunidade ao cérebro de se  reabastecer.
A meio do passeio, já lá em cima, na parte mais alta, brotava, de um verde ofuscante de luz, um tapete colorido, que não deixaria indiferente qualquer mortal.
Não resisti e, deliciada, apanhei uma a uma aquelas espécies, que a Mãe-Natureza me oferecia. 
Observei com atenção a minúcia de cada exemplar e agradeci ao Cosmos tanta perfeição! E que bem que cheiram!
Com muito cuidado, devido à sua delicadeza, trouxe-as para casa como se de uma prenda se tratasse.
 É isso.
Uma prenda que partilho com as pessoas que gostam de mim!
Aí vão, com todo o carinho.


Abraço.

domingo, 13 de abril de 2014

Pregões




Tenho agora o privilégio de poder tomar o pequeno-almoço sentada à mesa com toda a calma, aliás, coisa a que todos deveriam ter direito. Quando trabalhava, não tinha essa hipótese…
Hoje, ao pequeno-almoço, fui surpreendida pelo som estridente da gaita de um amolador.
Engraçado! Por isto é que eu gosto de viver num meio rural!
 Assim não perco as tradições que são mais ou menos comuns a esses meios.
Numa fracção de segundos, voltei ao meu antes. O amolador!
Hoje, lembrei-me logo do seu homónimo que, de tempos a tempos, visitava a minha aldeia e que era sempre muito esperado por alguns, com problemas que só por si não conseguiriam resolver.
Os seus serviços eram específicos e dirigidos.
Pois bem, hoje com esta gaita, lembrei-me do amola-tesouras - que não se ficava por aí: fazia outras tarefas que mencionava no pregão engraçado que gritava!
Logo ao entrar na aldeia fazia-se ouvir com a gaita especial que usava e rezava/cantava assim:
-«Afiiiiiiiiiiam-se facas, amolam-se tesouras, compõem-se as varetas aos guarda- chuvas e não se enleia o arami»!...
Achei sempre muita piada a este pregão e guardei-o comigo.
Assim como outros.
Este, por exemplo:
«Há trapos, ferro velho, sebo ou lentecão pr’a vinderi»!....
Também era disto que viviam as aldeias tradicionais, enquanto corria o tempo vagaroso, saboreado e sem «stress».


Abraço.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A Moita está bonita





A memória mais antiga que tenho desta pequena aldeia situa-se por volta dos meus cinco, seis anos.
Meu pai, um filho da Moita, levou-me com ele já ao cair da noite, a fazer uma visita à família.
Fomos no primeiro carro que ele teve. Uma carrinha Austin cinzenta.
Ao chegarmos, fui surpreendida pela negativa.
A minha imaginação de criança criou uma expectativa muito para lá da realidade encontrada!
Ao estacionar o carro, voaram-lhe para cima um bando de crianças, que o rodearam e o miravam por dentro e por fora.
Falavam todos ao mesmo tempo e comentavam entusiasmados.
Foi tudo muito estranho para mim.
A aldeia era demasiado pequena, se comparada com a minha.
O escuro era de breu – como, aliás, em todas elas na altura.
As crianças eram mais que muitas e a gritaria também.
Fruto dos amores e talvez da falta de outros envolvimentos, floresciam em escadinha.
Para sairmos, teve que o meu pai abrir caminho, enquanto o grupo rodeava o veículo e o mirava por todos os lados.
Não me lembro de mais nada.
Apenas esta imagem.
 Só mais tarde meu pai me explicou a razão da curiosidade daquelas crianças.
É que na Moita, e porque não era uma aldeia de passagem obrigatória, só muito de vez em quando aparecia um carro. Logo, era natural a curiosidade das crianças.
Fiquei com aquela imagem durante muitos e muitos anos!
Quando, não há muito tempo, por lá passei, a surpresa foi ao contrário.
Como tudo era diferente naquela terra! Está bonita e organizada.
Limpa e cuidada.
Impressionou-me «a luz» das casas pintadas muito claras: a sua luminosidade surpreende.
Desta vez, poucas crianças por lá vi!
A fraca procriação, a desertificação, a crise, a televisão e outros meios de comunicação, terão a sua cota parte de responsabilidade!
Interessa é que houve uma grande mudança para melhor, nesta aldeia beirã onde tenho ainda um bocadinho de mim.
Gostei de ver.


Abraço.

domingo, 6 de abril de 2014

Um passeio higiénico


























«…Quantas noivas ficaram por casar, para que fosses nosso, ó mar!...»

Estava hoje muito activo o «gigante».

Estavas revoltoso, e batias com força nas rochas milenares, que aguentavam firmem as tuas investidas.
Não percebi se aquela actividade era uma manifestação de alegria pela presença da Primavera ou se era apenas uma forma de exteriorizares a energia acumulada ao longo inverno.
O sol resplandecente estendia os braços longos, acariciando as tuas águas de um azul que se confundia com a cor do céu.
Apesar do bulício, respirava-se calma naquela praia afastada da confusão e rodeada de uma beleza natural que atrai os amantes da calma que a natureza em estado puro proporciona.
Foram momentos de evasão e transporte para um mundo especial onde o som é apenas o marulhar das ondas.
Uma lavagem aos neurónios poluídos do lixo que tentam nos entupa a inteligência.

O mar! Aquele que dá e tira. Que nos envolve e nos machuca a alma quando menos se espera!...  


Abraço.

sábado, 5 de abril de 2014

O relógio e a vida

























Mesmo sem horários rígidos, ainda hoje me sinto mais ou menos escrava do relógio.
Que horas são? Já são horas!... É às tantas horas!...
 É assim que a vida é feita. Tudo na base do relógio e das horas.
Obedecendo de forma mais ou menos rigorosa, lá andamos nós comandados pelo relógio.
Objecto dominante este!
Com ou sem tic…, tac…, está presente em todos os momentos da vida de cada um!
Como seria a vida sem ele?
Como seria andar à deriva e sem orientação?
 A ideia mais remota que tenho deste utensílio é da casa de minha mãe.
Um velho relógio de parede, que batia as horas de quarto em quarto de hora.
Tinha um som melodioso, calmo e quase dolente.
Lembro-me que ainda era daqueles a que tinha que se dar corda.
Quando a minha mãe se esquecia, o som das badaladas deixava de se ouvir.
Era de uma forma quase urgente, que ela corria e lhe repunha as forças de que ele precisava.
Dizia ela que a casa sem aquele som ficava triste.
Um pouco mais tarde, apareceu o relógio da Torre da Igreja.
Esse, então, comandava de uma vez as vidas da aldeia.
A memória mais forte que tenho dele é das tardes de verão de verdadeira canícula.
Tardes silenciosas, eram «acordadas» do seu recolhimento, com um dlão!...dlão… dlão!... forte, que se alongava pelas ruas desertas e recolhidas na sua pacatez.
Objecto chato por vezes, mas de grande utilidade na programação da vida.  


 Abraço.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Nostalgia





















Nem sempre a nostalgia é uma atitude de tristeza.
Pode ser um percorrer de lembranças que nos preenchem o espírito, que nos ajudam a um encontro connosco e com outros, de quem gostamos e com quem partilhámos momentos felizes.
Podem ser momentos que nos envolvem com o passado distante e que deixou lembranças boas.
Que, no nosso recato, nos levam a recriar e quase a dramatizar situações vividas.
Nesses momentos de devaneio bom somos, às vezes, surpreendidos com um sorriso inesperado e doce.
Aqui, no meu canto quente, é muito fácil ser levada em viagem!
 Num dia como o de hoje, frio e chuvoso, nada melhor do que um pedaço de casa quente e aconchegante.
A um canto, uma lareira-salamandra tosca crepita.
Acolhe-nos e envolve-nos com a chama e as ondas de calor que dela emanam.
 O som do seu crepitar ajuda ao arranque para paragens e caminhos bem delineados, claros e rectilíneos.
A paz interior que nos invade é suficiente para esquecer por largos instantes as agruras de hoje.
Esquecer os maquiavélicos e os insignificantes que, com o seu chicote invisível, nos zurzem e tentam reduzir a nada.
Só por isso, já valeu a «viagem»!

 Abraço.

domingo, 30 de março de 2014

Pirolitos

  














A garrafa dos pirolitos e os berlindes...





Pois é. Eu também me lembro da Cristalina do Soito!
Mas, meus amigos, vou contar-vos uma pequena estória  que, para alguns, é mesmo uma novidade!
Sabiam que a primeira fábrica de refrigerantes da nossa zona (pelo menos do meu conhecimento) pertenceu á minha família?
É verdade! Sim, à família dos Abades da Moita.
Era a chamada fábrica das laranjadas e dos pirolitos.
 Estava situada no Terreiro das Bruxas, no rés- do- chão da casa da minha tia Patrocínia Martins.
Pertencia a ela, a meu pai e penso que também ao meu tio Armando Martins. Se estiver enganada, alguém com conhecimento que me esclareça, se faz favor – algum primo que se lembre.
Pois é verdade: faziam-se lá uns pirolitos e umas laranjadas que eram um mimo!
Tudo em modo artesanal e feito pelos próprios.
Eu tenho, claro, ainda na minha memória, a imagem de estar com eles muito curiosa a ver como é que aquela maquineta rústica conseguia encher de líquido aquelas garrafas estreitas… e como tudo saía de lá tão correctamente acomodado e tão saboroso!
Mas o entusiasmo maior, era quando alguma garrafa se partia!... O ar chateado dos responsáveis era compensado com o meu entusiasmo.
Saíam de lá de dentro umas bolas de vidro, que eram a minha delícia. Eram aquilo a que na altura se chamava berlindes.
(Os pirolitos eram tapados à pressão com essas bolas de vidro e, para se abrirem, tínhamos que pressionar com o dedo polegar).
Eram berlindes de «luxo», comparados com as bogalhas dos carvalhos, com que os miúdos jogavam!....
Gostei de vos dar conhecimento desta pequena fábrica, de que poucos já se lembrarão.
Para mim foi mais uma aventura de criança que alegrou os meus dias.


Abraço.

sábado, 29 de março de 2014

Uma homenagem





















Penso que hoje já ninguém de bom senso dirá a uma criança que foi a cegonha que a trouxe para a vida.
Há muitos anos atrás, essa era a resposta com que os pais fugiam à pergunta quase certa que, um dia, inevitavelmente surgiria.
Pergunta embaraçosa, nesse tempo!
Na altura, ainda o sexo era um tabu sem saída à vista.
Hoje, passados tantos anos, já tudo se alterou e infelizmente o contrário aconteceu.
Penso que, em certos casos, o tema é tratado de modo um pouco displicente.
Quando olho para a foto que abre este meu texto, não posso deixar de pensar no acto de amor que representa.
Com esse acto de amor, aconteceu uma família unida e feliz.
Essa família foi abruptamente amputada.
A sua trave mestra falhou. A forma que aparentava não o faria prever.
A família tremeu e quase ruiu.
Maldade sem nome. Mãe e filha sem rumo nem amparo à vista.
Ficou um vazio não mais preenchido.
Alguns anos mais tarde, e sem esperar, mais uma surpresa.
O segundo elemento seguiu o caminho do primeiro
O projecto de família interrompido terminou demasiado cedo.
Ficaram marcas, sim, e muitas fragilidades.
Foi preciso reaprender a viver sem eles.
Ficou também a recordação dos afectos.
Os muitos gestos de amor permanecem e nunca se apagarão.
Ficou para ela, família, um lugar cativo no meu coração.   

 Abraço.


terça-feira, 25 de março de 2014

O dom da palavra













Em jovem, a partir do momento em que a curiosidade pelo saber me bateu à porta, lembro-me de que ficava fascinada quando ouvia alguém falar, daquela forma que eu achava bonita.
Atenta, ouvia a pessoa e desejava um dia saber falar assim bonito.
Que maravilha, pensava! Como fala bem!
Acho até que não entendia muito bem o discurso nem o sentido da coisa. Mas que era lindo de ver e ouvir, lá isso era.
As pessoas à volta diziam: «Que bem que fala, tem o dom da palavra».
Se fosse uma pessoa bem apresentada, então os elogios duplicavam.
Nessa altura remota, eu, com a minha simplicidade e pouco conhecimento, ainda não tinha percebido que, a maior parte das vezes, o que prendia as pessoas era apenas o cenário e o tom de voz mais ou menos inflamado.
Que, muitas vezes, se limitavam a debitar um discurso oco e sem conteúdo.
O que a ingenuidade e a ignorância faz das pessoas.
Hoje, ao pensar neste assunto, pergunto-me: onde é que eu, neste tempo presente, já vi algo semelhante?
Só que hoje percebo quando a palavra está a ser usada e manipulada, para fins menos honestos, por pessoas menos honestas!
A partir daí, tiro as minhas ilações.
A partir daí, tenho também uma radiografia mais ou menos fiável de quem a utiliza de forma indevida e desrespeitosa.
Hoje, sei que a palavra é uma arma que pode não só aleijar, como aniquilar qualquer um.
Sei também, como o respeito por ela é tão importante.


Abraço.

domingo, 23 de março de 2014

Em jeito de…




Depois de uma vida vivida a trabalhar com crianças e seus familiares, é impossível não guardar no disco rígido da nossa memória algumas recordações de estórias diárias.
Umas com piada, outras nem tanto.
Hoje, lembrei-me do Fernando.
Chegou ao infantário com quatro anos.
Vinha de uma família desestruturada e vivia com dois avós já idosos.
Era uma criança doce, mas instável e irrequieta.
Quem o levava todos os dias era o avô.
A relação dos dois era amistosa e de grande cumplicidade.
Contudo, havia um pormenor que fazia toda a diferença.
Aquele avô, gostava do copito. À tarde quando o ia buscar, a rua já era estreita e com alguns ziguezagues a mais!
O Fernando, espertalhão, apercebia-se de que o avô estava em momento de facilitar.
Então, fazia-se difícil, não queria ir embora, fingia que ia mas voltava para trás, enfim, digamos que as conversações entre os dois se tornavam um bocadito complicadas.
«Fernando! Anda, dá um beijo à senhora»!
O Fernando, fingia-se surdo. Mexia mais aqui, mais ali, enquanto o avô, meio toldado, se enchia de paciência e dizia mais uma vez:
«Fernando, anda, dá um beijo à senhora!»
Nada. O Fernando continuava a tirar partido da situação.
Até que o avô, que era idoso mas tinha a marca de malandreco bem à vista, dizia com entusiasmo:  
«Fernando! Dá um beijo à senhora já! Olha que se não dás tu, dou eu!...».
Coisa atrevida, para a época.

Esta situação só podia ter ficado para a colecção das situações consideradas anedotas que por ali iam acontecendo.
Foi assim, em jeito de anedota, que me deu gozo contar-lha a si.
Um bom início de semana.

Abraço.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Caridade

 


Há cenas e momentos da nossa infância que ficaram para sempre gravadas.
Aquela que hoje relato é uma delas.

Quando eu era pequena, havia sempre um dia no ano em que apareciam na aldeia umas figuras vestidas de escuro, com cestos e sacos na mão, que me intrigavam muito.
Diria até que, da primeira vez em que as vi, fiquei meio amedrontada.
Apareciam sempre em grupos de três ou quatro.
Lembro-me que corri para casa, e as perguntas surgiram em catadupa.
Quem eram, porque se vestiam assim, o que queriam, para quê os cestos?
«São as Irmãzinhas da caridade e andam a pedir esmola para os colégios onde pertencem,
porque são muito pobres».
Esta era a explicação de minha mãe, sempre pronta a esclarecer-me.
O assunto não ficava para mim muito claro. Antes pelo contrário.
Preocupada, questionava-me:
- Então e se derem pouco?
Preocupação de inocente!…
Na cabecita de uma criança não ficava clara aquela situação.
Lembro-me de que era um dia especial, em que as crianças da aldeia apareciam todas com ar interrogativo.
Aquelas figuras eram vistas como pessoas diferentes.
A indumentária austera que usavam, penso que seria o motivo do espanto inicial.
Apesar disso, eram pessoas afáveis e de sorriso fácil.
 Bem mais tarde, já espigadota e a iniciar-me na condição de mulher, a curiosidade pelo saber mais e mais levou-me a descortinar os meandros de muitas coisas que até então estavam nebulosas no meu subconsciente.
A velha e ainda actual canção de José Barata Moura («Vamos brincar à caridadezinha» - que pode ouvir aqui - basta clicar), foi mais um clique que deixou tudo bem mais claro.


Abraço.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Presunção e água benta…



É isso. 
Diz o povo, que «presunção e água benta, cada um toma a que quer».
Pois é - e como é frequente depararmos com seres presunçosos!
A qualquer despropósito, aproveitam para se evidenciarem e propagandearem aos sete ventos a prosápia que os engasga.
Não perdem uma oportunidade.
Debitam, por dá cá aquela palha, a grandeza e a pose de que são portadores.
Precisam de se exibir, como precisam de comer, digo eu.
Fazem do exibicionismo a sua forma de estar na vida.
Com as suas atitudes descabidas, passam para o exterior, seja a que custo for, todos os indicadores da importância que pensam ter.
Peito cheio de vaidade, mas oco de sensatez.
Preenchem assim os seus pobres egos.
Sim, porque são normalmente pessoas vazias de conteúdos.
Passa-lhes ao lado seja o que for que não lhes diga respeito.
Cheios de si, acham que o mundo lhes pertence.
Solitários e desprovidos!
 É assim que eu vejo os vaidosos empertigados.


Abraço. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

A aldeia que eu carrego

 


Por motivos óbvios, em determinada altura da minha vida, tive que deixar a aldeia onde nasci e onde vivi durante vinte e três anos.
Como já aqui tenho referido, tenho bocadinhos de mim espalhados por aquela aldeia e transporto, ainda hoje, os bocadinho que arranquei dela.
As sensações, os cheiros, os sabores, paisagens e vivências.
E pessoas!!!...
O que mais me marcou foi a saudade daqueles e daquelas com quem me sentia tão bem.
Tudo o que já descrevi foi motivo de grande desconforto nos primeiros dois / três anos de adaptação ao novo ambiente.
Senti uma nostalgia tão grande, que às vezes me impedia de ser completamente feliz.
Dividida, fui pagando, inflacionada, aquela separação inevitável, daquele «ninho» quente e aconchegante, onde os afectos fervilhavam.
A saudade doeu demais. O ambiente frio e impessoal da cidade, a indiferença das pessoas, a ausência de afectos e a solidão, apesar do ruído, eram um imenso deserto onde reinava a confusão.
 Nada nem ninguém me dizia nada, fora das quatro paredes em que habitava.
A «minha» nova terra, não tinha nada de minha. Era apenas um compacto de gente e ruído que no meu cérebro, provocava um vazio imenso.
Hoje, à distância, recordo como foi sentir-me desenraizada, e perdida no meio de tanta gente!
A vida tem estas vertentes, às vezes necessárias, para que cresçamos e nos tornemos seres independentes.
O preço, esse, é por vezes, um tanto alto.


Abraço.

terça-feira, 11 de março de 2014

O Facebook





Foi ainda há pouco tempo que resolvi aderir a este espaço de comunicação.
Talvez porque estava muito atenta a situações negativas de que ouvia falar, nunca simpatizei.
Até que um dia, alguém me falou do Descendentes do Concelho do Sabugal.
Espreitei e achei que era um espaço engraçado, onde todos os descendentes interessados se comunicavam, se aproximavam, davam a conhecer tradições das suas terras etc… e, em alguns casos, se reencontravam, com respeito e alguma piada!
Não havia faltas de qualidade na relação, nem em qualquer outro aspecto.
Aderi e tenho participado o mínimo, pois também tenho interesse noutras actividades.
Até que ontem, ao abrir a página, fiquei suspensa de um comentário que não se enquadrava no estilo a que até então me habituara.
A ofensa, a desconsideração, a agressividade, o insulto e até a ameaça, eram a forma como a pessoa se dirigia não só a com uma pessoa em particular, mas também a todos os Descendentes do Concelho!
Tudo isto, a propósito de uma suposta «falha», que um elemento de uma empresa terá tido, aquando de uma visita ao Sabugal!
Não gostei do que li.
A suposta queixosa usou este meio público para ajustar contas e se vingar de uma pessoa, podendo tê-lo feito em privado e de uma forma civilizada!
Tentou sujar-lhe o nome!
Tentou arrastá-la pela lama!
Deixou-a, segundo sei, muito magoada – e com razão.
Francamente, um meio de comunicação como este, só deveria ser usado por gente com educação e alguma cultura.
Aquela pessoa nem sequer deveria ter acesso!...

Abraço.

sábado, 8 de março de 2014

Dias de…




Pois é.
De vez em quando, lá vem mais um dia de… qualquer coisa!...
Hoje, é Dia da Mulher.
Para ser sincera, gostaria mais que não houvesse tantos dias de…
Que houvesse sim, todos os dias de todos nós!
Se fosse assim, certamente estaríamos todos bem mais felizes.
Bem mais unidos e com muito mais respeito e solidariedade por cada um, e por tudo o que nos rodeia.
Quanto a mim, estes dias de… servem, em alguns casos, apenas para incentivar ao consumismo.
Na maioria das vezes e depois do folclore, esquecem-se os gestos e o seu significado, e parte-se para a vida, esquecendo que amanhã, e amanhã, e amanhã…, também deveria ser dia de… dia de…etc. etc.
 Enfim! Convenções que, em alguns casos, até são importadas e nem sequer têm nada a ver com a nossa maneira de ser e com as nossas tradições – essas, sim, tão genuínas e dignas de serem preservadas.
Não quero com isto desmobilizar ninguém de ser feliz por um dia!
Esta é apenas a minha forma de ver a vida nestes aspectos pontuais.
Uma coisa é certa.
No caso do Dia da Mulher, será bom pensar, pelo menos hoje, um bocadinho naquelas que nunca têm nenhum dia de coisa nenhuma e que, ainda por cima, são agredidas, violadas e violentadas, espancadas e até mortas – isso, sim, acontece infelizmente todos os dias.
Para essas, fica o meu abraço de respeito.

Em vez de um dia, dever ser antes: um ano todo todos os anos.


Abraço.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Os seus olhos…




Cabinda, setenta e dois / setenta e quatro.

Ainda guardo, nos meus olhos, os olhos grandes deles.
Eram escuros de breu.
Sobressaíam reluzentes, dos rostos magros.
Surgiam de duas covas e mostravam-se tristes, enigmáticos.
 Amarelecidos pela fome, penso.
Ao olhar aquelas figuras de crianças magras, barrigas enormes, umbigos salientes em forma de pêra, não podia deixar de pensar: «Isto é o resultado das carências alimentares e de saúde a que foram, e são ainda, sujeitos».
Quando procuravam proximidade com os residentes daquele bairro (militares de carreira e milicianos com família), faziam-no a medo. Usavam de uma subserviência que me fazia sentir mal e parar para pensar.
Tinham bananas para vender. Trocavam-nas por uma insignificância. O que eles queriam, sem pedir, era mesmo alimentos.
Não raras vezes, eram recebidos com agressividade por alguns e até corridos com cães de donos sem vergonha.
 Esses, governavam-se à custa da guerra no país que não era o seu, mas sim deles: daqueles miúdos.
Quase sempre eram crianças em idade escolar.
A escola preparatória local recebia-os e tentava abrir-lhes horizontes.
Andrajosos, quase nus, angariavam o que podiam.
Os pais de muitos deles encontravam-se no mato, em zonas de combate.
Crianças filhas da guerra e de homens que nunca foram meninos!...

Como é possível apagar estas imagens violentas, da memória?
Fica aqui, para que conste.


Abraço.

sábado, 1 de março de 2014

Não fora tão trágico…

















Para mim e, quase poderia afirmar que para muito mais gente, a notícia não foi surpresa.
Um dos jovens do acidente do Meco tinha vestígios de produtos tóxicos, aquando da autópsia.

Não seria preciso pensar muito para chegar a essa conclusão!
Quem, no seu verdadeiro juízo, se atreveria a dirigir-se sequer, para o mar do Meco, nessa noite de fúria no mar, com alerta vermelho?
Ficar na zona de perigo, muito menos.
Nem os habitantes da aldeia em questão, que conhecem o mar como ninguém, se atreveriam!
Esses ficaram dois ou três meses em terra, com todo o respeito!

Só cabecinhas toldadas, confusas e revoltosas não veriam o que era tão óbvio!
Foi um acidente grave demais para ser esquecido.
Como sempre, foi preciso que acontecesse.
Talvez, depois dele, se faça luz em algumas cabeças pensantes deste país em desnorte.
Talvez tenha feito abanar as mentes dos responsáveis de instituições e também de familiares.
Estes últimos, que no labutar das suas vidas, nem sequer se dão conta de que o mais importante não será só dar um curso aos filhos.
Que o diálogo aberto e em família é necessário.
Que a compreensão, a calma, o estar atento aos sinais, o incutir de regras e o mostrar interesse pela vida dos seus filhos, os poderá ajudar a prevenir situações destas.
Os ensinará a ter respeito pelos outros, e pelos bons princípios que, antes de mais, deverão fazer parte do grande curso que é a vida!
Fica apenas a minha opinião, que vale o que vale.

Diria que sou apenas uma pequena pensante no meio dos que se preocupam com os males desta sociedade.
Uma sociedade fria, calculista, que investe tudo no que é material e ignora a base do sucesso, que poderá ser a educação e a cultura.

Se não pensarem numa fórmula mais eficaz de educar qual será o futuro?
Quem poderá dar o que não recebeu?

Abraço.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Preocupações de pais



Era meio da tarde e as crianças brincavam no recreio.
Alguns pais mais disponíveis começavam a chegar e procuravam saber junto de cada responsável como tinha sido o dia da sua criança.
A preocupação principal de grande parte deles era se o filhote tinha comido ou não.
Sempre foi assim. A esses, não os preocupava a qualidade alimentar, nem outros aspectos importantes envolventes. Apenas se comiam ou não.
Foi um aspecto que sempre me intrigou.
Os meninos guardadinhos e de barriga cheia!...
Numa dessas situações de preocupação alimentar, a mãe queixava-se de que o menino, de manhã, não tinha querido nem sequer, o iogurte!
Um pouco afastado e «com um olho no burro, outro no cigano», estava o condutor de uma das carrinhas.
Homem de poucas falas. Educado, bom profissional, alentejano de Arronches.
Criado apenas pelo pai e uma madrasta pouco sensível.
Os castigos da vida eram mais que muitos.
Ouviu, ouviu, e, de repente, penso que depois de dar uma olhadela pela sua própria vida passada, disse baixinho:  «É como ó mê pai, tamém mi dezia todas as manhãs: comi o iogurti Álvaro!... Comi!».
Eu estava próximo, ouvi o comentário acintoso mas dito com muita piada!
Foi uma gargalhada espontânea, que tive de disfarçar com algum esforço.
A vida massacrante e cheia de dificuldades não retirou àquele alentejano esclarecido o humor e a capacidade de observação.
Muito boa gente, o senhor Álvaro!

Abraço.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Coliseu dos Recreios




Não sei quantas vezes eu já passei por aquela porta!
Às vezes em trabalho, outras para ver espectáculos que me interessam.
 Uma das actividades que me levaram lá com alguma frequência foram os espectáculos de circo pelo Natal.
As crianças com quem então trabalhava assim o exigiam.
Depois de tudo programado atempadamente, em fila indiana e grande excitação, tinha a difícil tarefa de levar e trazer de volta sãs e salvas, as crianças daquele grupo que me era confiado.
Era com prazer que desempenhava aquela tarefa.
Só para ver os rostos daquelas crianças inundado de alegria e os seus gestos de entusiasmo e espanto, valia a pena não falhar o espectáculo.
 Eram momentos esfuziantes e compensadores.
A hora dos palhaços era a mais esperada.   
Este fim-de-semana «fui várias vezes ao Coliseu» sem querer.
Nas horas em que liguei a TV, normalmente para ver as notícias, lá estava o Coliseu.
Abarrotava de gente que berrava, gesticulava, e até faziam gracinhas!
Mas… olha! Estes não têm o chapéu de palhaços, nem nariz abatatado!...
Só fazem piruetas umas atrás das outras, como que para ver quem faz a melhor!
Estavam todos, desde o palhaço pobre, até ao palhaço rico.
Alguns deles, até fazem comentário político. Mas… ali, não contestaram nem criticaram.
Apenas se limitaram a ser todos muito amigos!... Tão queridos.
Barões, baronesas, todos em cavaqueira amiga!
Que saudades dos palhaços a sério e de programas que eduquem, que instruam e abram horizontes a quem não os tem!...
Raio desta palhaçada.

Abraço.