segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sustos dois












Alguns meses antes de acabar a minha missão de apoio no Buco Zau, o nosso vizinho do lado, também alferes miliciano, teve que fazer as malas e ir para o Leste de Angola. A casa foi imediatamente alugada a dois rapazes negros, que logo se soube serem militantes do MPLA.
Quais as intenções daqueles dois, e do seu movimento?
Ui! Que susto.
E agora?
Calma que eles gostam de nós, disseram-me logo.
Difícil de acreditar.
Tive medo, mesmo.
As casas eram geminadas, de madeira, era só um empurrão com os seus braços fortes e o pio acabava-se ali mesmo.
Meu Deus, como vou ficar aqui sozinha?
Foi uma expectativa demasiado incerta e insegura.
Vi-os pela primeira vez a entrar e cumprimentaram-me com um sorriso muito amistoso de quem quer mostrar que está por bem e em paz.
Não fiquei muito convencida.
A primeira vez que tive que ficar sozinha em casa, passei a noite em sobressalto a imaginar que, a qualquer hora, podia ser apanhada à mão.
Nunca aconteceu, porque na verdade estavam muito bem informados de quem eram aqueles milicianos e suas famílias.
Viemos a saber mais tarde que todas as nossas posições contra aquela guerra, os apoios dados à sua gente humilhada e sofrida – tudo foi tido em conta.
Daí os grupos de combate nunca terem sido bombardeados.
Devo dizer que o meu marido e o seu grupo usavam sempre na ponta da G-3 uma fita branca em sinal de paz.
Eram conhecidos por isso.
Começámos a viver lado a lado pacificamente, embora sem conversas.
Eram respeitadores e diplomatas, educadíssimos, sempre em silêncio, e com um olhar e um sorriso tranquilizadores, penso que se preocupavam em mostrar que não eram um perigo.
Acalmei um pouco.
Nos momentos calmos, era hora de nos juntarmos uns com os outros e de tentarmos descontrair um pouco.
Todos jovens, eram momentos de brincadeira, de gargalhada mas também as tais
longas conversas de qualidade elevada, de esclarecimento de várias matérias que me enriqueceram muito. Eram a compensação por aquele inferno.
Um dia, num domingo de manhã calmo, com os almoços no fogão, «caiu-nos tudo» ao ouvir um estrondo enorme vindo do quartel.
Alvoroço total.
Foi um ataque ao quartel (Bata Sano: ver foto).
E agora?
A primeira reacção:
– Embora daqui famílias. Vamos pedir um helicóptero para vos evacuar.
Contactos com o quartel.
Ninguém estava ferido, foram só estragos materiais.
– Acalmem-se, vamos analisar a situação.
Eles, os maridos tiveram que subir ao quartel e arriscar e sujeitarem-se a mais algumas «bazucadas» (linguagem militar).  
Nós, à espera na expectativa.
Eu só apanhei o porta-moedas e desliguei o fogão.
Fui ter com as minhas companheiras: sentia-me mais protegida.
No fim de longas conversações, a ordem foi:  
– Ninguém sai, foi só para assustar. Por algum motivo atacaram ao domingo, quando o quartel tinha menos gente.
Atingiram a vedação e uma parte do quartel onde só havia material.
Sorte, não terem atingido ninguém.
A versão para nós mulheres, era:
– Quiseram só dizer que estavam lá, mas a intenção não era fazer muitos estragos.
Apesar disso, foram dezoito granadas de morteiro que caíram lá dentro.
Como seria o futuro, na sequência daquele ataque?
Meu Deus, como é que um coração pode aguentar tanto!
Amanhã conto mais, estou cansada.
Um abraço.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sustos












Foram vários.
Não estou a falar de osgas e baratas. Isso, no meio de tudo o resto, foi uma «gracinha».
Deixava o coração aos saltos, arrepiava, mas não punha a vida em risco.
Refiro-me às saídas do meu marido com o seu grupo para o mato.
Ao ataque ao quartel.
Às trovoadas.
Ao ter ficado sozinha e sem vizinhos, quando o colega do meu marido foi, castigado, para o leste.
Quando me dei conta de que para essa casa vazia entraram dois rapagões pretos, que iriam ser os meus próximos vizinhos (eram soldados do MPLA), soube logo.
Coração sofre!...
As saídas para o mato, eram sempre uma incógnita.
Fazíamo-nos fortes, mas a ansiedade instalava-se.
Tentava tudo para não pensar no pior.
Em casa eu via-os passar.
Lá ia a coluna com uma Berliet e três Unimogues carregados de jovens muito jovens, que não sabiam se voltavam.
Logo ali a três ou quatro quilómetros, espreitava o primeiro perigo.
A curva da morte (assim se chamava - ver foto) era famosa nas emboscadas.
Havia um morro, que era um sítio «estratégico e eficaz para matar».
Um dia antes de este batalhão chegar, tinham lá sido mortos dois militares.
Um bom presságio para quem chega!
Da minha casa eu, expectante a fazer de conta que era forte (ou inconsciente?), ouvia o fogo que o grupo do meu marido abria para, hipoteticamente, assustar se fosse possível.
A ansiedade era muita.
Até eles voltarem era um verdadeiro suplício.
Isto repetia-se mensalmente.
Era o reabastecimento.
O Congo era logo ali.
Nunca aconteceu nada, mas só soubemos isso no fim!...
Era uma tensão inevitável.
À chegada da missão, era a descompressão.
Com os vizinhos militares de carreira, a olhar e admirados, porque nunca tal tinham visto.
Ouviam dizer das suas mãezinhas tudo o que provavelmente nunca tinham ouvido.
Isto porque eram os únicos a quem interessava que aquela guerra continuasse e defendiam-na.
Eu limitava-me a tentar acalmar e a dar apoio.
Ele tinha razão.
Cada oito ou nove dias, eu ficava sozinha em casa.
Ao meu marido calhava a vez de dormir no quartel. Era durante vinte e quatro horas o oficial de dia.
Não foi assim tão mau, enquanto não chegou o tempo das chuvas com as trovoadas acopladas.
Depois, era de cortar a respiração.
Durante a noite, já a dormir, era brutalmente acordada com estrondos «nunca dantes» ouvidos.
Pelas frestas da madeira, entrava uma luz tão intensa, que o meu quarto ficava iluminado como se de luz eléctrica se tratasse.
Os raios caíam nas árvores (sorte a minha) que eram mesmo coladas à minha casa.
Ao outro dia, ao levantar-me, ia ver o que tinha acontecido.
As árvores, de grande porte como já aqui referi, estavam abertas pelas faíscas e com troncos queimados.
Houve noites em que julguei que ficava ali.
De manhã, agradecia a Deus por estar viva.
Amanhã há mais.
Abraço.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A minha varanda












O meu tempo era passado na minha varanda de tipo colonial (mas em casa de madeira, não esquecer), com alpendre, telhado de zinco, e com umas grades de madeira.
Parecida com a da imagem, mas era grande e agradável.
Com uma torneira com mangueira instalada, fazia as minhas delícias.
Durante o dia, eram várias as vezes que passava por mim a água que saía quente, mas que aliviava um pouco o calor por curtos momentos.
De tantos banhos, fiz uma queda de cabelo, que me pôs em pânico. Só com tratamento o problema se resolveu.
Essa varanda foi a minha sala de visitas, de estar, de jantar e de lazer. Muito agradável mesmo.
Foi lá que tomei conhecimento da fome e das crianças com barrigas dilatadas com umbigos do tamanho de peras.
Foi lá que me dei conta do racismo profundo dos militares do quadro ao espantarem com raiva essas crianças como se fosse cães sarnentos.
Foi de lá que li nos olhos dos mesmos, o espanto e quase crítica, por verem que acolhemos em nossa casa, protegemos e sentámos à nossa mesa uma criança preta, depois de lhe proporcionar um banho e lhe vestir roupa limpa.
Foi naquela varanda que me senti muito bem, ao ver a alegria nos seus olhos, por se sentir protegido, e gente.
Foi naquela varanda que recebemos com todo o gosto e amizade quem quisesse aparecer para conversar e sentir um pouco de calor humano.
Foi lá que num dia de natal, recebemos o grupo de soldados, o grupo do meu marido, e ceámos todos. Não faltaram as nossas tradicionais filhós que foram feitas debaixo da ventoinha.
À falta de bacalhau e couves, comeu-se cabrito assado.
Esta guerra aguentou-se, porque houve todas estas cumplicidades e solidariedade.
Os mais martirizados foram sem dúvida os soldados.
Sozinhos, abandonados, sem rumo nem amparo.
Compreendi o porquê dos excessos, compreendi o desespero de alguns, as atitudes tresloucadas quando se sentiam perseguidos e castigados por dá cá aquela palha.
Foram os heróis deste massacre, e alguns tão desamparados ainda hoje.
Para todos a minha admiração.
Abraço.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Buco-Zau















Como referi no último texto, embora levando uma vida parada (o que, tenho de confessar, me fez mal em termos de saúde), o cérebro estava activo, necessitado de ocupação.
Daí eu passar a maior parte do tempo a ler.
A ler e a observar.
A intensificação da revolta cresceu ainda mais em mim.
Mais ainda tive mais a certeza de que aquela guerra era uma grande injustiça.
Só servia os «senhores da guerra» e as famílias que com eles privavam.
Os militares «do quadro», que faziam comissões atrás de comissões e se entretinham nas festanças no quartel, a beber e a jogar bridge, enquanto o pé-de-meia ia crescendo, crescendo.
Colonos e fazendeiros acompanhavam-nos.
Ao mesmo tempo, exploravam os pretos, coitados, que, embora com uma grande revolta interior, obedeciam e calavam a raiva.
Isto para poderem comer os restos e dar aos filhos como se de porcos se tratasse.
Parece linguagem dura, mas é verdadeira, infelizmente.
Os seus senhores, insensíveis e cruéis, fingiam que não viam.
A vidinha corria-lhes de vento em popa…
Quando este batalhão chegou, alguns de nós, mais revoltados, foram para lá decididos a protestar contra aquela injustiça e ganharam muitos para a causa.
Foi um protesto surdo, sem ruído.
A melhor táctica foi não alinhar em farras de famílias com as entidades locais mais gradas e os fazendeiros, que tinham até então os militares na mão.
Para quem sempre viveu da guerra e dos convívios, foi um choque.
Custou-lhes a aceitar.
Sentiram-se rejeitados e, como a inteligência estava adormecida, acho que nem perceberam o gesto.
Ao mesmo tempo, nos contactos diários, a relação dos militares com os indígenas, era como é evidente, de igual para igual.
Uma atitude que os deixou perplexos e com um brilho muito especial nos olhos.
Os que estavam mais próximos dos militares e suas famílias sentiram a cumplicidade. Isso transpareceu. Deixaram o olhar triste e começaram a sorrir.
Passaram palavra, olhavam-nos com muita simpatia e cumprimentavam.
Deixaram de se ver cenas tão tristes como aquela em que dois militares graduados tiveram que intervir fortemente.
O administrador local para se desresponsabilizar, perante os militares milicianos e famílias, esbofetear o «cipaio» já com muita idade («cipaio» era uma espécie de soldado civil de apoio  ao próprio administrador), acusando-o de ser o responsável pela falta de água.
Para «engraxar».
Devo dizer, que a água era, lá mais do que noutro sítio qualquer, um bem mais que necessário. Logo, era preciso não haver falhas nesse aspecto sobretudo.
Eram estes os donos daqueles países.
Muito mais haveria para dizer.
Como foi possível aguentar tanto?
Abraço

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cabinda Quatro












Depois de finalmente instalada, chegou o momento de olhar para o lado.
A minha casa estava incrustada na floresta do Maiombe.
Nas traseiras, árvores de grande porte erguiam-se mostrando a sua pujança.
Algumas foram cortadas exactamente para poderem construir as quatro casas que faltavam para os militares acabados de chegar.
A pequena aldeia era habitada pela tropa, por dois comerciantes europeus, pelo
administrador de posto e outras autoridades locais e pelos indígenas.
Havia ainda uma fazenda (Fazenda Alzira), que era gerida por um fazendeiro-feitor, europeu também, que, por acaso, explorou duma forma desonesta todos aqueles que precisaram das casas que ele mesmo mandou construir e alugou, com rendas exorbitantes.
Devo dizer que as casas foram feitas com madeira verde, e que com o calor abriram tais frestas que se via a rua.
Isto levou a que eu fosse permanentemente presenteada com visitas variadas a qualquer hora do dia ou da noite.
Ele eram as baratas, ele eram as osgas, ele eram as formigas e até um ou outro morcego me entrava à noite pela casa dentro.
Habituei-me, depois de muitos sustos, a habitar naquele jardim zoológico mais ou menos rastejante.
Um colono oportunista, desonesto, que se aproveitou da situação.
Penso que o meu coração nunca mais se recompôs de tantos sustos.
O dia-a-dia era lento, escaldante e arrepiantemente silencioso.
O calor e a humidade pesavam tanto que quase me impediam de respirar.
Para uma pessoa habituada ao clima de Portugal, foi simplesmente insuportável.
Enquanto lá estive, limitei-me a fazer os mínimos. As refeições, sempre que necessário,
e no resto do tempo dormir, conversar e ler, ler, ler… Li tudo o que era possível.
Levámos muitos livros e trocávamos entre nós.
Havia sempre livros e pessoas em fila de espera.
Saía muito pouco de casa devido à canícula, mas como os bens alimentares era o meu marido que os trazia da cantina militar, limitava-me a comprar cá em baixo o pão e pouco mais.
Apesar de ter quem o fosse buscar, eu própria, de vez em quando, gostava de o fazer.
Foi aí, que me apercebi de como era diferenciado o atendimento aos brancos e aos pretos.
A casa estava sempre cheia com nativos que vinham das aldeias comprar o que necessitavam, mas, logo que um branco entrasse, tudo parava e passava à frente.
O coitado do preto já estava treinado, afastava-se sem que ninguém lhe dissesse nada.
Era uma subserviência constrangedora, humilhante mesmo.
No que a mim disse respeito, estabeleci logo ali uma regra: eu não queria tratamento preferencial, esperaria a minha vez, ainda que escorresse de suor.
Estupefacção geral, sobretudo do dono da loja.
Penso que foi inédito.
O preto era tratado como um ser sem préstimo, como um ser de terceira qualidade.
Tenho mais para contar.
Abraço.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ainda Cabinda












Só passados alguns meses depois da minha chegada começaram a aparecer as companheiras dos outros militares (éramos cinco casais «milicianos»).
Nesses meses, eu e outra mulher de miliciano estivemos a viver em casas geminadas.
Já eu tinha a minha «recruta» quase feita, quando as outras, meio atordoadas, todas com crianças muito pequenas, aterraram no sítio que seria o menos propício ao crescimento e desenvolvimento de uma criança com dois, três anos.
Só a forte ligação aos maridos e um pouco de loucura de juventude, ajudou àquele gesto de amor.
Depois de instaladas era preciso que travássemos conhecimento.
Afinal, seríamos o apoio umas das outras nos próximos longos tempos.
Eles já eram um grupo muito coeso, foram para a guerra todos obrigados e contrariados.
Tiveram que se defender, unindo-se e fazendo uma barreira de aço, que dificilmente seria derrubada.
Então era do interesse de todos que essa barreira se reforçasse.
Foi engraçado, porque houve empatia geral entre nós e foi a partir daí que começou uma relação saudável, que nos preenchia o vazio e as saudades da família.  
Nos tempos livres deles e nossos, juntávamo-nos e o convívio era de descontracção, quantas vezes para esconder a raiva, as saudades, e a paragem forçada que resultaria no atraso nas vidas de cada um.
Todos alferes milicianos.
Ah, e um da malta que era capitão miliciano: o malogrado Felner da Costa.
Havia momentos altos.
Eram chamados à conversa assuntos muito ricos de conteúdo que eram verdadeiras aulas.
De política, de pedagogia, de sociologia, e de tudo o que cada um dominava.
Devo dizer que para mim foi uma lição de vida, foi quase um curso sem diploma, mas
assimilado, agradavelmente gravado e registado.
Obrigada, Nuno Miguel, médico psiquiatra que com a sua companheira Teresa Madureira (irónica, crítica observadora, e muito selectiva) foram uns professores com muita sabedoria, que me ensinaram muito do que hoje sei.
Ficarão comigo para sempre, amigos. Ainda que pouco nos vejamos, estamos aí.
Obrigada, Ferreira (médico) e Milú. Que apoio inicial.
Obrigada, Manuel Maia, pela alegria contagiante e disponibilidade permanente. Foste-me útil sempre que necessário e revelaste-te um amigo para o que desse e viesse.
Obrigada a todos pelas gargalhadas espontâneas e pelas tentativas de não esmorecer.
Onde estiveres, Costa, obrigada também por teres alinhado nas loucuras nocturnas das escapadelas com café quentinho, a sítios onde o teu amigo, meu marido, se encontrava com o seu grupo de combate impedido sequer de se mostrar.
Direi a todos que estão no meu coração e serão para sempre recordados com saudade.  
Obrigada, Caldeira, pela tua loucura. Diria que era a forma de te alienares, de mostrares a grande revolta que habitava em ti.
Não esquecerei o teu sorriso triste e o teu olhar revoltado.
Cabinda foi isto.
Foi revolta, foi experiência e aprendizagem permanente.
Voltarei.
Abraço

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cabinda 3













Outubro de 1972. Lisboa/Luanda/Cabinda/Buco Zau – mata do Maiombe.
Devo dizer que fui das primeiras a chegar àquela terra «do nunca».
Fui recebida no quartel, onde me mimaram como nunca imaginei.
Desde o comandante de batalhão, aos oficiais, e todo o resto do pessoal, eram só atenções, simpatias e gentilezas.
Confesso que foi uma surpresa agradável e ajudou muito à minha integração.
O quartel ficava num morro, a mais ao menos três quilómetros da aldeia onde a nossa casa estava situada.
Para lá chegar, tinha que se subir uma picada íngreme, cheia de pedregulhos por todo o lado.
Os jipes bamboleavam-se para um lado e para o outro, como se fossem barcos nas vagas alterosas no mar alto. Era de cortar a respiração.
Enquanto estive sozinha, sem outras companheiras, sempre que podia, ia até lá. A messe era um lugar de convívio.
Jamais me esquecerei dos dois soldados que serviam lá. O Vale e o Moreira eram autênticos amigos. Sempre solícitos e prestáveis. Obrigada, amigos, para sempre. Vocês fazem parte da minha história de vida. Nunca vos esquecerei.
Há também dois motoristas que me marcaram e muito.
Pela simpatia, pela disponibilidade, e pela paciência que sempre mostraram.
Transportaram-me vezes sem conta. Com a sua malandrice natural, olhavam para a minha cara assustada, quando o jipe parecia que ia virar e aceleravam por ali acima
ainda mais. Eram seguros mesmo, eu é que não estava habituada, chegava lá em cima com o coração aos saltos, mas achava-lhes graça.
Onde estiverem, Russo e Boavida, para vocês o meu muito obrigada.
Depois, havia um grupo de oficiais, que foram para mim a família que lá não tinha.
Revelaram-se grandes amigos e protectores.
Um dia destes continuo. Recordar é bonito mas também cansa…
Abraço.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Tudo mal













Calma, que desta vez não é o país.
Desta vez fui eu que me portei menos bem.
Quase de forma irresponsável.
Diria mesmo que tenho mais obrigações.
Pronto.
Prevariquei.
Auto-mediquei-me.
O que aconteceu foi uma reacção fortíssima do meu organismo que me levou para a cama durante cinco dias, com náuseas e vómitos fortes e persistentes.
O medicamento que tomei foi-me recomendado na farmácia.
Acho agora, depois dos factos, que também de maneira pouco profissional.
Enfim!
«Erros meus, má fortuna…»
Falo disto para alertar, porque com as distracções da vida, nem sempre nos damos conta de que há medicamentos cujos componentes podem fazer faísca entre si.
Daí o facto de haver reacções negativas, que normalmente dão muito mau resultado.
Virei-me e revirei-me com frio, calor, suores e, para a cena ser completa, no fim de três dias, fui presenteada com uma obstipação intestinal como nunca tinha tido.
Foi dose!
Bom, mas já que mais não fosse, serviu para o futuro.
Stop.
Engolir medicamentos só quando houver certezas de que não há contra-indicações nem incompatibilidades ou sobrecargas com outros.
O serviço de saúde é complicado, é caro, mas há que ir atrás dele.
Evitam-se males maiores.
Passou.
Abraço.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Os donos das quintas e suas cabritinhas













Às vezes, vislumbramos que certas atitudes ou formas de estar na vida, podem dar uma imagem errada de pessoas e (ou) instituições.
Aí, na medida das nossas hipóteses e (ou) experiência de vida, procuramos com a frontalidade possível, dar um pequeno toque, ainda que saibamos que podemos aleijar um bocadinho.
«Outros valores mais altos se alevantam»!...
Contudo, na nossa ingenuidade, esquecemo-nos de que há pessoas, e sectores intocáveis, castradores e prepotentes.
Julgam-se munidos de poderes absolutos e autoritários.
Utilizam-nos para baralhar e dar de novo, são donos e senhores de quintas e cabritinhas que lhes pertencem e que manobram a seu bel-prazer.
Que os veneram e lambuzam, de graxa já em desuso.
Neste país minúsculo, é pena que ainda haja feudos envolvidos em odores de inquisição.
Tudo seria diferente se houvesse mais humildade, para reflectir no que nos põem à frente dos olhos.
É pena.
Não é por isso que a liberdade de expressão vai deixar de ser linda.
Abraço.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dois anos















Como já aqui escrevi, a minha chegada a Cabinda foi uma decepção.
Contudo, o que descrevi foi apenas uma ponta do enorme fio, que foi aquela experiência.
À chegada, fomos precariamente instalados numa das casas de madeira que foram feitas de propósito para os militares daquele batalhão que optassem por ter a família com eles. 
Ainda mal refeita da mudança radical que se tinha operado na minha vida, deparei-me com uma situação no mínimo caricata.
A casa tinha dentro, apenas, uma cama de casal.
Os móveis, que também foram feitos por encomenda, também não estavam prontos.
O trabalho artesanal foi chegando com alguma lentidão.
Achei graça.
A matéria-prima de que foram feitos era exactamente extraída das grandiosas árvores da floresta do Maiombe, minha vizinha: o mogno.
Quase tudo era feito de uma só tábua.
Madeira virgem, sem qualquer espécie de tratamento.
Era bonita, assim ao natural. Limitei-me apenas a pedir que lhe dessem uma camada de cera clara.
Umas cadeiras de praia, uma estante com tábuas e tijolos, uma mesa mais ou menos grande, uns almofadões de tecido local (fiote, na linguagem indígena), e umas cobertas feitos do mesmo, com uma manta no chão… fizeram da minha casa um «chalé» que provocava a cobiça de todos, incluindo o comandante do batalhão, que nos visitou um dia de surpresa para verificar «in loco», pois já lhe tinha constado.
Acho que era da solidão. Ele não tinha lá ninguém de família. Também precisaria de sentir um ambiente caseuiro e com o conforto possível.
Na nossa casa, o resto que era necessário foi-se adquirindo aos poucos à medida do possível.
Entretanto, valia-nos o apoio que vinha do quartel. A messe era a salvação.
Com a passagem do tempo, fui-me convencendo de que aquele sítio no meio do mato, seria a minha morada nos dois anos seguintes.
Buco Zau era o nome daquele sítio onde só havia indígenas e tropa. Berliets, jipes e unimogs.
Nós achávamos que era uma terra de muito calor e muita humidade: na época mais quente do ano, 50º de calor e 70 a 80% de humidade no ar.
O movimento na rua, para lá das passagens da tropa, era de pessoas locais, sempre embrulhadas em mantas (tinham sempre frio, julgo que por causa daquela humidade extrema), carregando os filhos às costas, ou com molhos de lenha para se aquecerem e fazerem a comida.
E havia os fazendeiros... que até esta altura eram os donos não só da terra e das gentes como também da tropa. 
O sol nascia por volta das quatro da manhã e as noites começavam às dezasseis.
Logo no início – foi uma coisa que me marcou, para lá do calor pegajoso, também estas diferenças me perturbaram –, comecei a ter perturbações a nível de sono, só com ajuda de um comprimido fui suportando toda aquela mudança.
Um objectivo único, me mantinha: apoiar quem estava todos os dias a correr riscos.
Um dia destes conto mais.
Abraço.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ternuras














Em meados de Maio que passou, tive a surpresa inesperadíssima de encontrar à porta da minha casa dois gatinhos abandonados que com um miado dilacerante, chamaram a minha atenção.
Fechados dentro de um saco de supermercado, suplicavam por socorro.
Fazerem isto… e logo a mim.
Logo a mim é que tinha que acontecer uma situação destas, doida por cães e gatos desde sempre.
Fiquei com o coração em alvoroço sem saber o que fazer.
Não tinham mais de quinze dias.
Mal se punham em pé.
O que fazer com esta crueldade?
Eu que já tinha duas gatas donas absolutas do seu espaço e que já eram uma preocupação cada vez que tinha que me ausentar.
«Se fossem mais pequenos matava-os, mas já abrem os olhos» - disse alguém que se aproximou.
Arrepiei-me e disse: «Vamos tentar uma solução».
Primeira medida: agasalhá-los.
Segunda: correr ao hipermercado mais próximo comprar leite próprio, biberão, e um saco para por água quente.
Tudo isto numa correria, pois a situação era para mim aflitiva.
Cheguei, aqueci o leite, alimentei-os e, com muitos miminhos, tentei transmitir-lhes segurança.
Coloquei-os numa cama muito confortável.
Acalmaram.
O saco da água quente, penso que lhes fez lembrar o calor da mãe.
Era fome, o frio, o desnorte – pobrezinhos!..
E agora?                                    
Ficam na rua na varanda.
Mas está tanto frio.
Que problema para mim aquelas duas criaturas indefesas e ternurentas.
Depois de algumas horas e muita hesitação, diz o meu marido que acabava de entrar: «Não pode ser, já temos duas, é impraticável. Eu já trato disso…».
A morte dos pobrezinhos outra vez em perspectiva.
Quando eu olho para aqueles dois seres indefesos já confortavelmente instalados, e por mais que eu própria também achasse irracional, não consegui aguentar a ideia.
Saí para não assistir à cena, e chorei sozinha.
Quando voltei, a sensibilidade tinha falado mais alto.
Os meus protegidos continuavam no seu novo aconchego, calmos e a recuperar da aventura por que irresponsavelmente os fizeram passar.
Ficaram connosco, e fazem as delícias de todos, com as suas traquinices.
Tratei deles como se fosse a própria mãe, dei-lhes biberão e fiz-lhes a higiene que a mãe lhes faria. Ganharam a amizade e a simpatia de quem, à partida, ofereceu resistência.
Nunca ouvi aqueles dois bebés miar, ou expressar qualquer gesto de desconforto ou mal-estar.
Tiveram um crescimento óptimo e são dois irmãos muito felizes.
Até as gatas os toleram e às vezes entram na brincadeira.
A ternura e a amizade que manifestam um ao outro e a nós são inesgotáveis.
Os humanos deviam seguir-lhes o exemplo.
Abraço.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Caprichos perigosos















Estou neste momento ainda meio boquiaberta com o brutal desfecho da vida do cronista da má-língua Carlos Castro.
Diria eu ao pensar mais calmamente, que ele mesmo cavou a sua própria sepultura.
Ao aliciar jovens musculados e bem parecidos para o mundo da moda, a troco de favores mais que duvidosos e com promessas nem sempre concretizáveis, era mais que evidente que se estava mesmo a pôr a jeito.
As ilusões neste período da vida, não só não têm limites, como não perdoam os falhanços.
Com a sua provecta idade, ao senhor, cego de amor e gula, só lhe faltou um pouco de inteligência.
A idade das fantasias já devia ter passado por ele há muito.
Se queria ser útil, oferecia-se para fazer o papel de avô conselheiro, sei lá.
Bom, mas há outra questão em que tenho pensado.
Que um jovem imaturo, sem experiência de vida, caprichoso, tenha as suas ambições e queira, sem grande trabalho ou esforço, ser uma estrela, subir ao topo, eu que também já tive vinte anos, até posso compreender. Há muitos assim.
Agora que a família os incentive e os inscreva em concursos descartáveis, que apenas servem para angariar audiências e exibir o físico, eu não posso compreender.
Diria eu que o incentivo ao exibicionismo e à cultura exacerbada do físico não será a melhor forma de encaminhar um jovem.
Há valores que ficam diluídos no meio de tanta vaidade.
Penso que aos pais ou a outros responsáveis pela educação dos jovens compete abrir caminhos e mostrar os perigos e não empurrá-los irresponsavelmente para o que pode ser um não-retorno.
Este crime hediondo pode ser assacado a mais que uma pessoa…
Também à vida, talvez!...
Abraço.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sonhos












Sonhei.
Sonhei que o mundo estava em paz.
Que tudo era belo.
Que ninguém estava triste.
Que cada um de nós «era» todos.
Que o mundo irradiava luz, de todas as cores.
Que o rosto das pessoas transparecia felicidade.
Que a alegria era a palavra de ordem.
Que caminhávamos lado a lado, de mãos dadas.
Que sorríamos sem sombras.
Que falávamos com ternura.
Que amávamos sem trocas.
Sonhei que sonhava.
Ao acordar, ofuscada pela luz interior, fui á janela.
Tudo me pareceu igual.
Mas qualquer coisa se impunha.
Ah!
O sol.
Depois de uma longa ausência, apresentava-se radioso no céu azul.
O mundo continuava.
Gente que grita.
Carros que aceleram.
Mas o sol, esse, estava acolhedor, radioso e anteviam-se dias melhores.
É bom sonhar assim, positivo.
Como dizia o poeta:
«O sonho comanda a vida».
Abraço.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Plásticas, plásticas, plásticas.















Estamos na era das plásticas.
É o que está a dar.
São plásticas a tudo e mais alguma coisa.
Os cirurgiões da moda, esses, não devem sentir a crise.
Agrada-me muito que a ciência e a técnica avancem e estejam ao alcance de todos, no que respeita à saúde. Que sirvam para reparar danos que, há anos atrás, seriam irreparáveis.
Que corrijam sempre que necessário, pequenos ou grandes defeitos físicos que impedem as pessoas de serem felizes e úteis, quando o defeito é mesmo sério.
Quem dera isso estivesse ao alcance de todos.
Mas daí a ir para uma plástica porque o nariz é maior ou menor, porque o rabo não está no sítio desejado, porque as maminhas são pequenas, ou porque os lábios não são delineados a gosto etc.
Meu Deus, quanta insatisfação, quanta vaidade, quanta frivolidade...
Como se o resultado do nosso trabalho, onde investimos tantas energias, não tivesse mais para onde ir.
Como se o nosso país não estivesse em crise.
Com se não houvesse gente com fome e sem emprego.
Como se estes gastos não fossem um insulto à pobreza que por aí prolifera.
É ignorando estes problemas que a nossa televisão generalista, se permite dar voz a pessoas que até são operadas em directo, porque querem ficar eternamente perfeitas.
Até se esquecem de que a idade não perdoa e as cirurgias também têm prazo.
E o mais grave é que aliciam outras.
Só que se «esquecem» de dizer que os serviços delas são troca por troca.
Promovem os serviços, mas não pagam nada por eles, só o nome e a imagem.
Os incautos, que transpiram para ganhar o seu sustento e o dos filhos, vão caindo mas sem benesses, são incógnitos.  
E muitas vezes, por falta de cultura e apenas olhando para a forma física, para ser olhado(a) na rua, para ser alvo das atenções, para ser como os famosos.
Lá vem mais uma dose de prestações que, provavelmente, irão ensarilhar uns largos meses da vida que normalmente já não é fácil.
É caso para dizer: vaidade a quanto obrigas...
Santa paciência.
Abraço.     

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Imagem












A nossa imagem, assim, à priori, vista pelos outros, pode sugerir juízos de valor errados.
Normalmente, o que nos fica do primeiro contacto, nem sempre corresponde à verdade.
Uma pessoa pode apresentar-se vestida de uma forma despreocupada, brincando com tudo e nada, parecendo fútil e com pouco conteúdo, e ser um ser humano com capacidade de trabalho, honesto e empreendedor.
Ou, o outro lado da moeda, apresentar-se vestida formalmente, sisuda, sem hipótese de confianças, e revelar-se afinal um autêntico canastrão na vida e no trato, com ausência de criatividade, e uma nulidade profissional e familiar.
Donde se conclui, que a imagem mostra o que se parece mas nem sempre mostra o que se é.
A precipitação não é boa conselheira.
Os nossos olhos são muitas vezes gulosos, e não deixam o cérebro funcionar.
Agradam-se do que está fora e nem se dão ao trabalho de equacionar o que se passará lá dentro.
São estas apreciações levianas que nos fazem, muitas vezes, tirar conclusões erradas e,
logo nos primeiros contactos, marcar negativamente uma pessoa.
Daí aquela velha máxima: vêem-se caras e não se vêem corações.
Abraço.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Eleições















Chegou finalmente o dia D.
Disciplinadamente, lá fomos mais uma vez cumprir o dever de cidadãos conscientes e livres.
Nesta manhã gélida de Janeiro, os trinta quilómetros que nos separam da nossa mesa de voto significaram a troca do aconchego pela confusão da proximidade da urna onde iríamos depositar o nosso testemunho.
Surpresa! Em tantos anos, era a primeira vez que se aglomerava tanta gente para votar.
Ficou a interrogação: o que quer isto dizer?
Será mais do mesmo?
Será que se avizinha alguma mudança?
Será o reforço do poder instalado?
Será que o nosso povo é masoquista?
Será que as chicotadas que tem levado sabem-lhe a pouco?
Será, será, será……
Se calhar… o nosso povo tomou consciência e pensou que a abstenção não é solução.
Que abstendo-se fica sem legitimidade para contestar.
Que abstendo-se é o mesmo que dizer que não dá por nada.
Que podem malhar à vontade.
Que se está marimbando para o que fazem com os impostos que arrecadam à conta dele.
Que ele é quem paga a maior factura.
Fiquemo-nos por aqui, mas muito mais haveria para dizer.
Aguardemos.
Abraço.

P.S. - Já estão aí as primeiras projecções.
É mais do mesmo.
É pena.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O meu espaço













A Rota da Memória foi um espaço criado por mim para nele registar aquilo que vou observando, que vou sentindo, e que me pareça oportuno.
É um espaço intimista onde também me permito partilhar com quem me lê situações que, por vezes, ao longo da vida, estiveram trancadas a sete chaves, nos arquivos da minha memória e que, provavelmente, por lá ficariam não fosse esta oportunidade.
Digamos que, em parte, é uma espécie de catarse, que ajuda a limpar alguns resíduos
que, parecendo que não, nos deixam mais leves e livres de fantasmas.
Fantasmas que, quer queiramos quer não, nos perseguem e nos deixam melancólicos, tristonhos e a sentir que algo nos falta.
Hoje, aqui ao redor da lareira, neste dia sisudo e frio, e numa fracção de segundos, pensei nas minhas raízes que já há muito não existem, e pensei que era preciso telefonar para saber como estavam.
O meu subconsciente delirou! De vez em quando prega-me estas partidas.
Quando as raízes são profundas, e parecem quietas, inactivas, de repente há um momento em que se agitam e nos abanam como que a quererem dizer-nos que acordemos, que já tivemos um passado e que parece que foi ontem e tudo não passou de um sonho mau.
Claro que é coisa de segundos, a vida já nos calejou quanto baste, para aguentarmos estes momentos que não são assim tão raros.
É para isto que este espaço serve.
Parecendo que não, a partilha alivia.
Votem bem amanhã, eu ainda estou a reflectir.
Abraço.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

As eleições das nossas dúvidas








Mais uma vez se aproximam a alta velocidade as eleições de todas as dúvidas.
Depois de duas semanas a aguentar, mais uma vez, aqueles senhores que só falam, só falam, chega o dia de irmos todos «com a cabeça entre as orelhas», cumprir o dever.
É a primeira vez que dou comigo sem uma perspectiva clara do que vou fazer.
Foi isto que os políticos de uma maneira geral, fizeram de nós. Desconfiados e descrentes.
No meio de grandes ou pequenos aglomerados, anda o povo que até está a precisar de se divertir e tem ali um pretexto.
Gritam de bocas abertas até não dar mais, de olhos a saltar das órbitas, desfiando frases que acham apropriadas para o momento.
Que pobres figuras, muitos deles! Na sua ignorância e simplicidade, deixam imagens bem marcantes do que é este pobre Portugal á beira-mar plantado.
Os políticos, esses, vão distribuindo sorrisos e aceitam com algum pudor os beijos e os abraços que, com entusiasmo e alguma esperança, o povo lhes dá.
E vão-se aproveitando, é a hora da sedução, a hora da pescaria…
Alguns (o próximo PR e seus apaniguados) procuram aqui a garantia de mais uns anos ao leme deste barco cheio de rombos e buracos, feitos por eles próprios.
Apesar da tragicomédia, cá no fundo, no fundo, é bom termos conseguido o direito de votar, é preciso fazê-lo, sim, e fazê-lo em consciência.
Até domingo, toca a decidir.
Abraço.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Os adultos e as crianças



Estamos numa época em que toda a gente, queira ou não, possa ou não, tem o seu tempo ocupado com a profissão e os afazeres diários inadiáveis.
Porque assim é, o dia é grande e sem espaço para grandes paragens. Veja-se a hora de almoço: o estilo come em pé (uma sopa), virado para a parede, é em grande maioria o que se pratica.
O que resulta disto?
Gente apressada, mal-humorada e sem paciência para ninguém nem para si próprio.
Quem é que paga esta factura quase sempre?
As crianças, claro.
Não pediram para nascer e são vítimas desta vida alucinante.
Logo pela manhã, entregues a amas, avós e outros familiares, ou depositadas nos infantários e escolas – e na sua grande maioria, só recolhidas onze ou doze horas após.
Digamos que um regime destes é duro para qualquer das partes.
Isto pode ainda ser mais grave se a criança, por motivos de sobre-ocupação dos pais,
tiver de passar a semana toda nos avós.
O que isto representa é um défice de atenção, afecto e diálogo que é necessário nestas idades, entre pais e filhos.
Resultado: pais ausentes, frustrados e insatisfeitos por sentirem que o seu papel de pais está a falhar.
Para colmatar esta situação, quando têm as crianças com eles, tentam compensá-las da forma menos correcta: aguentam-lhes todas as birras, não são firmes quando é preciso sê-lo, compram-nos com guloseimas e brinquedos desnecessários, que eles num ataque de má educação, partem e atiram ao chão desinteressados.
São estas crianças que mais tarde se revoltam contra os pais e avós e os ignoram na velhice nos hospitais e lares.
Faltam os laços afectivos, a presença e a atenção que só os pais podem dar.
Para isso faltam as condições.
Abraço.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Angola, ainda a propósito de liberdade















Fui uma daquelas que pagaram com juros parte da factura da guerra em Angola.
Casada há pouco tempo, vi o marido ser arrancado (arrancado é mesmo o termo) ao curso de direito na Faculdade em Lisboa.
Depois de cumprir três meses de recruta em Mafra, mais uma caterva deles em Lamego nos Rangers, recebi a notícia mais temida.
Destacado para Angola.
Partida a oito de Agosto de mil novecentos e setenta e dois.
Apesar de ser mais que provável, a notícia caiu que nem bomba.
E agora?
A pergunta ficou no ar, alucinando o pensamento dos dois.
A resposta foi imediata.
Vamos os dois, se a ele era imposto aquele sacrifício de loucos, dois teríamos mais força para o enfrentar.
Ainda que para isso tivesse que deixar em lágrimas a mãe viúva há pouco tempo, o que me doeu muito fundo.
Passados três meses após a dolorosa, quase desumana partida dele, lá vou eu cheia de coragem e saudades imensas!
Não fazia ideia do que ia encontrar. Só sabia que havia muito calor. Fui preparada para isso.
Logo ao desembarcar em Luanda, depois de nove horas de viagem no Jumbo setecentos e sete da TAP, tive o primeiro impacto: fui recebida por uma lufada de ar quente carregado de humidade, que me deixou ensopada de suor, que nunca mais me largaria.
Depois de matar as saudades… «e agora o que se segue»?
Mais hora e meia em avião «regional» até Cabinda.
Nesta cidade havia de ter de ficar um mês – a cento e vinte quilómetros do quartel do marido, porque a casa que foi feita de propósito para ficar com ele dois anos ainda não estava pronta.
Que desilusão logo para começar!
Foi um longo e entediante mês, aquele.
Estava rodeada de mordomias mas não tinha o que mais desejava, havia dias desesperantes.
Finalmente o dia mais desejado. A expectativa era grande.
A casa onde iria morar por dois anos, tinha os mínimos, foi com entusiasmo que a preparei para, durante dois anos, vivermos o mais confortavelmente possível.
Cada dia que passava era motivo de espanto. O que via enternecia-me, entristecia-me e revoltava-me.
Aquele povo estava mesmo dominado e humilhado, com fome e submisso.
As barrigas das crianças, que andavam com os olhos grandes no infinito, cheios de fome, marcaram-me para sempre.
Só quem vivia em festas permanentes no quartel é que se sentiria feliz e sem obrigações para com aquelas pessoas. Sentimos a necessidade de tomar conhecimento, de fazer alguma coisa, e penso que fizemos, demos um pequeno contributo.
Aquele batalhão, que conheci de muito perto, deixou a sua marca, fez a diferença.
Só por isso valeu o pesado sacrifício.
Até os bombardeamentos ao quartel, os ataques às colunas militares, embora com esforço, se vão esquecendo. Mas muito penosa e lentamente.
Angola: mais de dez anos de guerra sem honra nem glória.
Depois do 25 de Abril, voltámos em liberdade.
Abraço.    

sábado, 15 de janeiro de 2011

Liberdade















Ser livre.
Quem nasceu cinco ou seis anos antes ou depois do vinte e cinco de Abril, não imagina (ainda que lhe façam o relato) como era não ter liberdade.
Não podermos dispor de nós como seres pensantes e autónomos.
Sermos impedidos de expressar as nossas opiniões sobre qualquer assunto que fosse contrário ao regime vigente.
Sermos obrigados a aceitar uma guerra colonial com a qual não concordávamos.
Sermos obrigados a largar uma vida que então estava a começar e entregarmo-nos aos senhores da guerra.
Ficarmos assim durante três ou quatro anos longe de tudo e de todos (não havia os meios de comunicação que há hoje).
Sempre na dúvida infernal sobre se voltaríamos ou não.
Quantos voltavam numa caixa de pinho!...
Sentirmos que não éramos donos de nós, que não tínhamos identidade.
Sermos completamente manietados. 
Sentirmo-nos humilhados ao termos que cumprir «missões» de guerra sem sentido!..
E muito mais haveria para dizer, mas penso que já dá para entender a situação vivida ao longo de dez ou doze longos anos.
Ser livre é isto, agora.
Dizermos ou escrevermos, com respeito pelos outros, o que nos vai na alma.
Podermos ocupar o nosso espaço no mundo insignificante em que vivemos, sem as tais peias e amarras.
A liberdade custou muito, muito caro.
Não havia necessidade!!!... 
Abraço.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Que desperdício!!!...












Desperdício.
É o sentimento que me assalta quando olho para a televisão, e vejo distribuídos pelos vários canais profissionais com valor, alguns deles com provas dadas, a servir de entertainers, nos períodos mortos do dia, isto é: das nove à uma e das duas às dezassete, dezoito... Não é que considere estes períodos menores, mas penso também que para os preencher haverá outros menos credenciados, que seriam igualmente capazes de desempenhar essas tarefas e que ficariam felizes se lhes dessem oportunidade de mostrar trabalho, com tanto desemprego!
Estes seniores que estão ao serviço deveriam estar a ser úteis noutras vertentes, para as quais estão certamente preparados.
E há tantos assuntos que precisavam de ser abordados e escalpelizados!
Assuntos que contribuiriam, de certeza, para esclarecer e educar o nosso povo que, por vezes, se mostra tão inseguro nos seus conhecimentos.
Em vez de levarem ao estúdio profissionais especializados só quando algo acontece que merece ser comentado e esclarecido, deviam entregar-lhes pequenos programas temáticos e assim cultivar o espectador e dar-lhe cultura e saber.
Dou comigo a pensar.
Será que estes profissionais se sentem realizados com os programazinhos que lhes estão confiados? Será que ficam deslumbrados com o mediatismo, o dinheiro, os luxos com que são «bajulados»?
Será que não sentem falta de nada?
Será que não se sentem diminuídos nos seus conhecimentos?
E a afirmação e a realização da sua qualidade como profissionais e pessoas, onde fica?
Não acredito que não sintam um amargo de boca, quando param para pensar!
Será que param?
O deus Dinheiro e as luzes da ribalta são efémeros.
Num ápice, adeus vida de ostentação e fama.
As estrelas também se apagam.    
Abraço. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Educação














Educar é uma tarefa da maior importância. É a forma de transmitir noções e conhecimentos éticos, morais e valores humanos, que ajudem o educando a direccionar-se na vida, que o ajudem a reflectir na sua própria identidade.
Educar é também partilhar. Partilhar saberes e experiências.
Mas não nos fiquemos por aqui. Seria demasiado fácil e redutor.
Educação é entrega, é quase abdicarmos de nós em favor dos outros, é saber dizer e saber ouvir.
É uma tarefa nobre e complexa, exigente mesmo.
Exige preparação.
Mas exige também abertura, disponibilidade e informação actualizada - que é isso que falta hoje a boa parte das pessoas que têm o dever de educar.
Se não, vejamos: os pais que são os primeiros a quem é pedida responsabilidade, têm horários preenchidíssimos e à maior parte deles não foi dada qualquer espécie de apoio ou preparação que lhes desperte a necessidade de saber como educar correctamente.
A alguns professores (educadores), quanto a mim, de há um tempo a esta parte, também lhes falta «alma» para esta função.
Na preparação, dá a ideia de que por vezes lhes foi facilitada de tal maneira a vidinha que, com meia dúzia de pesquisas na internet e umas idas às aulas, aí temos mais um docente, mesmo que sem preparação firme, apenas pronto para «tomar conta» de mais umas vítimas para a posteridade.
A qualidade não abunda.
Sobressai a incapacidade de manter sequer a disciplina nas salas de aula e de se impor como educador.
Pergunto-me: onde ficaram as tão necessárias noções reais de psicologia, de sociologia, de civismo?
Onde ficou a auto-confiança para, sem agressividade e com prazer e entusiasmo, conduzir um grupo a bom porto?
O que vai ser dos meninos de hoje e homens de amanhã?
Não é com displicência, facilitismo e deixa-andar, que se colhem bons frutos!...
Educar é uma tarefa difícil mesmo!!!...
Abraço. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Marcas












Isso mesmo: marcas.
Não de automóveis, de electrodomésticos ou de toda a panóplia de objectos para o mundo virtual e outros, que se adquirem e por vezes ficam por aí, a ocupar espaço e pó.
Marcas mesmo, físicas ou psicológicas, que nos gravam o corpo ou a alma.
Que nos deixam eufóricos, ou que nos tombam e deixam mergulhados no mais profundo desespero.
Todos as temos com maior ou menor profundidade.
Às vezes basta um olhar, um gesto, uma atitude ou um sorriso, um acontecimento, para que em nós seja gravada a tal marca.
Essa mesma, a que faz a diferença, a que transportamos connosco e recordamos para sempre.
Muitas vezes, as psicológicas doem, sangram, embora se consigam camuflar.
As físicas, essas, vêem-se, ficam expostas, exigem menos requisitos. 
Aconteceram.
«Ah! o que é que lhe aconteceu»?
Está ali, não há dúvidas.
É assim a vida, uma marca permanente.
Não estão lançadas no mercado estas marcas, mas também não é preciso: têm muita saída.
São marcas brancas.
Abraço.

domingo, 9 de janeiro de 2011

A mentira














Aqui há muitos anos atrás, dava comigo a pensar como o nosso país era tão pequeno e tão atrasado!
Havia muita ignorância, falta de recursos, falta de apoios a nível escolar, de saúde, e tudo o que fazia falta para ter uma vida mais ou menos digna.
Por tudo isto, houve uma onda de emigração que todos conhecemos e que deixou as nossas aldeias do interior desertas de homens jovens, que largaram a família e foram à procura de melhores condições.
Chegavam-nos notícias vindas de países distantes, os chamados países «socialistas»,
que a mim e a outros inocentes como eu, deixavam encantados e com pena de não podermos usufruir daquele desenvolvimento que englobava saúde, ensino, educação,
e desenvolvimento a todos os níveis.
Era preciso trabalhar para conseguir um país assim! E foi para isso que se iniciaram movimentos que, julgávamos nós, nos abririam as portas para um futuro melhor.
Bom, andámos iludidos, muitos de nós, durante tempo de mais!...
O encanto quebrou-se.
E para culminar, aparecem-nos os emigrantes vindos de leste.
Onde está o bem-estar e as condições desses países? A educação, a cultura tão apregoadas?
Soube há dias de fonte segura que, tal como no tempo da escravatura, ainda há quem castigue os filhos amarrados a um tronco, e com (imaginem) pauladas com um ferro, chibatadas e outras coisas assim dignificantes para um ser humano educado e culto.
Para não falar da civilização arcaica e ignorante onde a mulher tem a última palavra, se é que a tem. Onde elas são sovadas por maridos bêbados e trogloditas. Situações destas só no Portugal atrasado do século dezanove!...
Não é possível, estou verdadeiramente enraivecida com a fraude.
Esconder o que precisava de ter sido denunciado, não foi correcto.
Ou será que lá só mostravam o que estava preparado para a propaganda?
Grande mentira!...          
Abraço.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O inverno











Este inverno parece ter vindo para ficar.
Anda furioso, vociferando e lançando raiva a torto e a direito.
Soltou o vento que uiva, a chuva que fustiga a torto e a direito os telhados e as janelas das nossas casas, que põe os rios a transbordar, os muros a desabar, e as nuvens que se rebelam e soltam trovoadas…
As árvores inclinam-se respeitosas, e as aves desaparecem acoitando-se receosas à espera de melhores dias.
Porque será que anda tão zangado o inverno?
Será que é a crise? Mas ele não paga impostos, não está no desemprego, não tem contas para pagar, não vai ao super mercado…
Se calhar é de indignação! Talvez porque não gosta da situação política do país, talvez porque anda raivoso com o que se passa debaixo das suas barbas de ancião: políticos em guerra, fraudes, negociatas, roubos descarados, corruptos «lavados», «reciclados» e postos em lugares de destaque.
Indignado talvez com tanta falta de civismo e de respeito.
Tem razão o inverno.
É preciso mudar, talvez fosse tudo bem diferente!...
Abraço.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O pensamento












Pensar. 
É o que fazemos todos os dias.
O pensamento é um companheiro permanente. É amigo, ou inimigo: depende da situação e da atitude.
Tem asas, umas asas enormes, que voam velozes para destinos desconhecidos, imaginários, inacessíveis e longínquos.
Leva-nos até às raízes mais profundas.
Desenterra lembranças. Fura como minhoca, caminhos já há muito desertos e abandonados, que há muito não nos habitavam.  
Deixa-nos felizes, optimistas, tristes ou angustiados.
É a pensar que nós mostramos se somos grandes ou pequenos. Às vezes o homem tem pensamentos obscuros que fazem dele um ser diminuto e insignificante.
Pensando, somos críticos, delirantes, racionais, incoerentes, criativos, etc….
É a pensar que planeamos acções que nos deixam orgulhosos, ou infelizes, envergonhados até.
É a pensar que nos organizamos, que planeamos, que projectamos e nos distinguimos dos seres irracionais.
A faculdade de pensar é única. É ela que nos guia e nos ajuda a traçar a vida que segue
à nossa frente.
«Não há machado que corte a raiz ao pensamento!...».
Abraço.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A crise existe?













A palavra crise já nos fere os ouvidos. Crise, preços que sobem, ordenados que descem,
Impostos que queimam, bens essenciais para muitos inacessíveis, compromissos inadiáveis sem poderem ser cumpridos, enfim, um sem-fim de situações problemáticas que deixam sem sono muito boa gente e gente muito boa.
A questão é esta: se existe mesmo crise e está à vista que sim, porque é que os centros comerciais se enchem com pessoas que saem com sacos a abarrotar, porque é que continua a haver filas intermináveis de trânsito não só nos fins-de-semana e pontes, mas todos os dias, porque é que os hotéis esgotam, porque é que os carros desaparecem dos stands?
Dá que pensar.
Com todos estes hábitos arreigados e com a tão apregoada crise, o que virá a seguir?
Quem sairá a perder?
Às vezes é o estômago que vai encolhendo!...
Porquê esta ânsia de ter, de ser, de fazer mais do que se pode?     
Será a necessidade de ombrear? Será o prazer de caminhar no fio da navalha?
Para muita gente nada há de mais importante do que manter a «pose», essa que, segundo as suas cabeças bem pensantes, os eleva à categoria social que ambicionam, ainda que para isso, tenham que sacrificar o essencial.
Santa ignorância!...
Abraço. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Saúde












A saúde é um bem prioritário na nossa vida. Durante a passagem de ano deve ter sido, sem margem para dúvida, a palavra que mais se ouviu. Diz-se muita coisa. Frases feitas, de circunstância, mas esta é a chave, é a mais repetida e toda a gente aprova acenando em concordância.
Pois é: saúde.
Sem ela a vida fica sem sentido, sem objectivos, o olhar fica parado e triste e tudo é pardo e sem brilho.
Não há dinheiro, posição social ou poder, que preencha aquela lacuna de tamanha importância.
O mundo que até então nos parecia um jardim florido, transforma-se num local onde abundam folhas murchas e pétalas sem vida.
Então se a saúde é tão importante assim para sermos felizes, porque não a tratamos melhor?
Sim, porque há doenças que somos nós que inconscientemente provocamos, às vezes quase como que num desafio atrevido, provocador.
E como?
Ao exagerarmos nas quantidades de alimentos que ingerimos, na pouca variedade dos mesmos, no que bebemos, nos açúcares, nas gorduras, nas noites perdidas quando podiam ser aproveitadas, no fumo que inalamos, etc.…
Isto para não falar de males maiores que proliferam em abundância por aí.
E se ponderássemos um pouco e preveníssemos males maiores?
Era bom que a nossa consciência funcionasse nesta direcção.
Já agora, SAÚDE!
Abraço