Alguns meses antes de acabar a minha missão de apoio no Buco Zau, o nosso vizinho do lado, também alferes miliciano, teve que fazer as malas e ir para o Leste de Angola. A casa foi imediatamente alugada a dois rapazes negros, que logo se soube serem militantes do MPLA.
Quais as intenções daqueles dois, e do seu movimento?
Ui! Que susto.
E agora?
Calma que eles gostam de nós, disseram-me logo.
Difícil de acreditar.
Tive medo, mesmo.
As casas eram geminadas, de madeira, era só um empurrão com os seus braços fortes e o pio acabava-se ali mesmo.
Meu Deus, como vou ficar aqui sozinha?
Foi uma expectativa demasiado incerta e insegura.
Vi-os pela primeira vez a entrar e cumprimentaram-me com um sorriso muito amistoso de quem quer mostrar que está por bem e em paz.
Não fiquei muito convencida.
A primeira vez que tive que ficar sozinha em casa, passei a noite em sobressalto a imaginar que, a qualquer hora, podia ser apanhada à mão.
Nunca aconteceu, porque na verdade estavam muito bem informados de quem eram aqueles milicianos e suas famílias.
Viemos a saber mais tarde que todas as nossas posições contra aquela guerra, os apoios dados à sua gente humilhada e sofrida – tudo foi tido em conta.
Daí os grupos de combate nunca terem sido bombardeados.
Devo dizer que o meu marido e o seu grupo usavam sempre na ponta da G-3 uma fita branca em sinal de paz.
Eram conhecidos por isso.
Começámos a viver lado a lado pacificamente, embora sem conversas.
Eram respeitadores e diplomatas, educadíssimos, sempre em silêncio, e com um olhar e um sorriso tranquilizadores, penso que se preocupavam em mostrar que não eram um perigo.
Acalmei um pouco.
Nos momentos calmos, era hora de nos juntarmos uns com os outros e de tentarmos descontrair um pouco.
Todos jovens, eram momentos de brincadeira, de gargalhada mas também as tais
longas conversas de qualidade elevada, de esclarecimento de várias matérias que me enriqueceram muito. Eram a compensação por aquele inferno.
Um dia, num domingo de manhã calmo, com os almoços no fogão, «caiu-nos tudo» ao ouvir um estrondo enorme vindo do quartel.
Alvoroço total.
Foi um ataque ao quartel (Bata Sano: ver foto).
E agora?
A primeira reacção:
– Embora daqui famílias. Vamos pedir um helicóptero para vos evacuar.
Contactos com o quartel.
Ninguém estava ferido, foram só estragos materiais.
– Acalmem-se, vamos analisar a situação.
Eles, os maridos tiveram que subir ao quartel e arriscar e sujeitarem-se a mais algumas «bazucadas» (linguagem militar).
Nós, à espera na expectativa.
Eu só apanhei o porta-moedas e desliguei o fogão.
Fui ter com as minhas companheiras: sentia-me mais protegida.
No fim de longas conversações, a ordem foi:
– Ninguém sai, foi só para assustar. Por algum motivo atacaram ao domingo, quando o quartel tinha menos gente.
Atingiram a vedação e uma parte do quartel onde só havia material.
Sorte, não terem atingido ninguém.
A versão para nós mulheres, era:
– Quiseram só dizer que estavam lá, mas a intenção não era fazer muitos estragos.
Apesar disso, foram dezoito granadas de morteiro que caíram lá dentro.
Como seria o futuro, na sequência daquele ataque?
Meu Deus, como é que um coração pode aguentar tanto!
Amanhã conto mais, estou cansada.
Um abraço.

























