segunda-feira, 26 de maio de 2014

E o lacaio…


 



O dia foi longo, o embate foi ainda maior.
O lacaio aflito correu para a patroa.
«Senhora Lagarde, a coisa não correu bem. E agora?»
Ela, solícita: «Calma, tudo se vai resolver. É só continuares a seguir o trilho. O caminho está aberto, continua bem comportado, não falhes as instruções, não te faltará nada!..»
«Mas…senhora…Lagarde, é que já não gostam de mim, das minhas brincadeiras de masoquista inveterado!...»
«Não penses nisso, dá-lhes que eles aguentam! Tira-lhes a pele, aperta-lhes mais o cinto, manda os velhos à fava, os doentes que se lixem, os jovens que emigrem, que há cá muitos!...»
«Pois é, senhora Lagarde!... Mas…»
«Tem calma, tu és um bom trabalhador, continua a tua tarefa, para nós estás a ser muito útil, vais ser compensado».
«Muito obrigado, senhora Lagarde, é uma patroa muito generosa!»
«Até à próxima, espero ordens!...»
E o lacaio-mor afastou-se a fazer salamaleques, submisso.


Abraço.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Os amigos…





Foi hoje ao percorrer os facebooks de alguns amigos, que esta frase me chamou a atenção.
«AMIGOS NÃO SÃO AQUELES QUE NOS LIMPAM AS LÁGRIMAS, MAS AQUELES QUE NÃO AS FAZEM CAIR».
Fiquei a pensar naquela expressão para mim tão acertada!
É verdade! Quantas vezes aqueles que se dizem nossos amigos são os que nos provocam a lágrima, que com surpresa nos rola pelo rosto.
Ser amigo/a verdadeiro, exige muita generosidade, muita verdade e muita capacidade de digerir.
Talvez alguns pensem que não, mas todos nós somos cheios de defeitos e fraquezas.
Não há os especiais, os que estão acima de qualquer erro. Ninguém é isento!
Se não viremo-nos um pouco para dentro e façamos uma pequena reflexão séria e honesta.
Acharemos de certeza falhas e lacunas.
Depois bastará apenas querermos aperfeiçoar.
Remodelar um pouco a nossa forma de ser e de estar e tentar corrigir o que achámos que está menos bem.
Os bons amigos proporcionam uns aos outros um convívio são e leve, sem aleijar.
Provocar lágrimas é que será mesmo uma atitude condenável!
Não me vou esquecer daquela frase.
«AMIGOS NÃO SÃO AQUELES QUE NOS LIMPAM AS LÁGRIMAS, MAS AQUELES QUE NÃO AS FAZEM CAIR»


Abraço.  

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A propósito de Família



Ontem foi o dia da Família.
Embora não tenha o culto dos dias disto e daquilo, hoje apeteceu-me muito falar da minha família.
Desde que me conheço, que sempre tive laços fortes de amizade com os meus.
Toda a minha vida foi assente nos alicerces onde ela foi estruturada.
A família representa para mim a alegria, o bem-estar, o apoio e o equilíbrio.
Sempre que possível com ela partilhei todos os momentos importantes da minha vida.
Foi sempre o meu refúgio e a minha força de todas as horas.
Infelizmente, esse suporte muito cedo estremeceu, abanou e ruiu.
No meio de muitas atribulações, perdi entretanto o contacto que tinha com o outro ramo familiar, que também me tinha sido muito caro.
Devo dizer que me fez muita falta e que me senti quase incompleta, sem essas referências para mim tão necessárias.
Felizmente e para meu sossego e alegria, encontrei no fim de muito tempo (tempo de mais), alguns daqueles a quem noutros tempos estive mais ligada!
Foi um presente inesperado!
A vida e os seus percalços!...
A família para mim é tão importante que quando não a tenho me sinto incompleta.
Hoje em especial, um forte abração para todos os que reencontrei e que estão a fazer com que a minha vida seja ainda mais bonita.  

Abraço.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

«Acabaram-se me os dzêris»






Em todas as aldeias existem personagens que são vítimas de chacota e de um certo deboche.
Sou por natureza mais ou menos boa observadora.
Era junto à minha casa que aos domingos e feriados à tarde se concentrava grande número de pessoas. Era no rés do chão da minha casa que estava instalada a televisão pública que na altura era a coqueluche!...
Grandes e pequenos, viam televisão, conviviam e arranjavam muitas vezes namoricos.
Todos os fins-de-semana vinha ao Casteleiro um rapaz nascido e criado numa quinta dos arredores.
Era um camponês castiço, campónio puro, que pelo menos enquanto criança, fez a sua vida sem conhecer nada do mundo – e nesse mundo, estava incluído o Casteleiro.
 Chegou a idade em que a natureza se encarrega de mudar tudo e o bom do Alberto, não aguentou a pressão dos impulsos.
Todas as semanas rumava ao Casteleiro com ar enamorado, à procura de par.
Andou por ali uns tempos. E não era parvo o mancebo! Deitou o olho a uma rapariga das mais bonitas do grupo, que, de férias da escola, também procurava divertir-se.
 Deu nas vistas aquele ar enlevado!...
Coitado do Alberto. Tomaram-lhe posse do corpo e era demais o que faziam dele.
A moça, essa, divertiu-se à sua custa e à custa da sua inocência. Era um deboche.
Às tantas, ele já não tinha como responder a tanta provocação.
De um modo carinhoso falso, dizia-lhe a moça:
«Então, Albertinho, não fala»?
«Acabaram-se-me os dzêres!...»
O seu ar apaixonado era quase constrangedor!....
Gente jovem.
Naquela altura era a forma de se divertirem.
Sem que daí viesse grande mal ao mundo.

Abraço.

domingo, 11 de maio de 2014

Manual de instruções?







É isso. A vida deveria ter manual de instruções?
Tudo ali delineado, organizado, muito bem explicadinho?
«Deixa cá espreitar o que há para fazer hoje e como»!
Na verdade, tudo seria bem mais fácil, mais seguro e bem menos stressante.
Diminuiriam as neuroses, o stress, as preocupações e as surpresas desagradáveis não teriam lugar.
Diminuiria a ansiedade e a vida não sofreria abanões que às vezes têm o efeito de um tsunami.
Mas… a ser assim, onde ficaria o encanto?
As facilidades, a falta de engenho, a papinha toda feita não seriam um tédio?
Uma coisa seria certa. Evitar-se-iam muitos erros, muitas decepções e muitas desilusões.
Evitavam-se muitos passos em falso, muitas atitudes menos correctas e muitos caminhos ínvios.
Apesar de tudo, a vida tem que ser vivida e desbravada por cada um. Tem que ser programada com o esforço de todos e com o entusiasmo que, esse sim, preenche e compensa!        
O bom senso e a imaginação têm um papel preponderante e tenaz.
Então, manual de instruções para quê?

Abraço.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Sinfonia no silêncio



Gosto muito de ouvir boa música.
Também gosto muito de ouvir o silêncio.
Neste momento optei pelo silêncio.
Sabe bem parar, repousar das tarefas normais do dia-a-dia e ouvir os sons que me chegam da Natureza.
Com a Primavera já instalada, os pássaros fazem pela vida e apoderaram-se da minha árvore de estimação aqui do quintal.
Todos em uníssono, soltam pius…pius…, que se transformam numa música ritmada, com notas ora estridentes e em coro, ora baixas, como se de uma melodia calma se tratasse.
As rolas, ronceiras e repetitivas, fazem trru…trru… , anunciando que estão prontas para a festa do acasalamento.
O cão da vizinha rosna, quando o incomodam na sua longa sesta, onde vai buscar as energias perdidas durante a noite enquanto os donos dormem.
As galinhas cacarejam e o galo diz com o seu vozeirão, que quem manda na capoeira é ele.
O ventinho mole sibila moderadamente por de cima das árvores, que agitam as folhas incomodadas, preguiçosas e dolentes.
Eu, à falta de outro tema, escuto, saboreando a variedade, e vou escrevendo e descrevendo, a realidade que me envolve.
Desta minha atitude, não virá mal ao Mundo!...
A ideia é ocupar-me.
Ocupar o cérebro e partilhar, com os que me lerem, este ambiente bucólico e despoluído, em que ainda vou tendo o privilégio de viver.
Gosto da sinfonia de sons que me envolve!
Gosto muito do silêncio que deixa que eu a oiça, à sinfonia.
Depois, este espaço virtual que venho utilizando também serve para mostrar o outro eu que há em mim.
Obrigada, mãe Natureza!...
Abraço.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O reencontro

 Pedra da Mua, Cabo Espichel


Não escrevo há já uma semana.
De vez em quando falta a vontade, a motivação - o que dizer: outros interesses!..
Neste caso foram quase e só mesmo outros interesses.
A Primavera instalou-se, os passeios são apelativos e a Natureza convida.
Os olhos ainda com o reflexo da chama da lareira, estavam precisados de paisagens abertas, de ar puro e morno, dos sons únicos desta época, dos cheiros das plantas em flor, da maresia misturada com eucalipto e pinho!...
Enfim, digamos que é o apelo da Mãe Natureza e de toda a sua beleza.
O físico agradece mais esta variedade de movimento. O cérebro fica mais oleado e os neurónios mais arejados.
Depois, aconteceu ainda outra variedade mais ou menos inesperada.
Ultimamente tenho vindo a ser surpreendida com factos e encontros que me têm dado muito prazer e inundado de luz o espírito.
O pensamento e a memória têm sido ocupados por contactos e recordações que, durante muito tempo, estiveram arquivados e quase selados, por os achar tão afastados e «incapazes» de os reencontrar!
Afinal, há certas etapas da nossa vida que nem qualquer imbecil sádico comanda.
Essas pertencem-nos e é com elas que aguentamos outras, bem precisadas de serem ignoradas!      
Penso que tudo isto tem contribuído para esta paragem nos meus habituais «devaneios», aqui, com quem os aprecia.
Voltarei, sempre que me aprouver!


Abraço.  

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dia inicial



«Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitemos a substância do tempo»


Sofia de Mello Breyner


E a noite e o silêncio transformaram-se no dia mais feliz 
das gentes deste pequeno País adormecido!
Não deixemos morrer esse espírto.

Abraço. 


terça-feira, 22 de abril de 2014

Primavera é vida






































Ontem, depois de uma ida ao ginásio, depois de uma merecida pausa e depois de um pequeno lanche, apeteceu-me encarar a Natureza.
Aqui muito próximo de mim, Natureza em estado puro é o que não falta.
 Por entre descidas e subidas mais ou menos inclinadas, e veredas estreitas ladeadas de arbustos, a caminhada decorreu serena, dando ainda a oportunidade ao cérebro de se  reabastecer.
A meio do passeio, já lá em cima, na parte mais alta, brotava, de um verde ofuscante de luz, um tapete colorido, que não deixaria indiferente qualquer mortal.
Não resisti e, deliciada, apanhei uma a uma aquelas espécies, que a Mãe-Natureza me oferecia. 
Observei com atenção a minúcia de cada exemplar e agradeci ao Cosmos tanta perfeição! E que bem que cheiram!
Com muito cuidado, devido à sua delicadeza, trouxe-as para casa como se de uma prenda se tratasse.
 É isso.
Uma prenda que partilho com as pessoas que gostam de mim!
Aí vão, com todo o carinho.


Abraço.

domingo, 13 de abril de 2014

Pregões




Tenho agora o privilégio de poder tomar o pequeno-almoço sentada à mesa com toda a calma, aliás, coisa a que todos deveriam ter direito. Quando trabalhava, não tinha essa hipótese…
Hoje, ao pequeno-almoço, fui surpreendida pelo som estridente da gaita de um amolador.
Engraçado! Por isto é que eu gosto de viver num meio rural!
 Assim não perco as tradições que são mais ou menos comuns a esses meios.
Numa fracção de segundos, voltei ao meu antes. O amolador!
Hoje, lembrei-me logo do seu homónimo que, de tempos a tempos, visitava a minha aldeia e que era sempre muito esperado por alguns, com problemas que só por si não conseguiriam resolver.
Os seus serviços eram específicos e dirigidos.
Pois bem, hoje com esta gaita, lembrei-me do amola-tesouras - que não se ficava por aí: fazia outras tarefas que mencionava no pregão engraçado que gritava!
Logo ao entrar na aldeia fazia-se ouvir com a gaita especial que usava e rezava/cantava assim:
-«Afiiiiiiiiiiam-se facas, amolam-se tesouras, compõem-se as varetas aos guarda- chuvas e não se enleia o arami»!...
Achei sempre muita piada a este pregão e guardei-o comigo.
Assim como outros.
Este, por exemplo:
«Há trapos, ferro velho, sebo ou lentecão pr’a vinderi»!....
Também era disto que viviam as aldeias tradicionais, enquanto corria o tempo vagaroso, saboreado e sem «stress».


Abraço.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A Moita está bonita





A memória mais antiga que tenho desta pequena aldeia situa-se por volta dos meus cinco, seis anos.
Meu pai, um filho da Moita, levou-me com ele já ao cair da noite, a fazer uma visita à família.
Fomos no primeiro carro que ele teve. Uma carrinha Austin cinzenta.
Ao chegarmos, fui surpreendida pela negativa.
A minha imaginação de criança criou uma expectativa muito para lá da realidade encontrada!
Ao estacionar o carro, voaram-lhe para cima um bando de crianças, que o rodearam e o miravam por dentro e por fora.
Falavam todos ao mesmo tempo e comentavam entusiasmados.
Foi tudo muito estranho para mim.
A aldeia era demasiado pequena, se comparada com a minha.
O escuro era de breu – como, aliás, em todas elas na altura.
As crianças eram mais que muitas e a gritaria também.
Fruto dos amores e talvez da falta de outros envolvimentos, floresciam em escadinha.
Para sairmos, teve que o meu pai abrir caminho, enquanto o grupo rodeava o veículo e o mirava por todos os lados.
Não me lembro de mais nada.
Apenas esta imagem.
 Só mais tarde meu pai me explicou a razão da curiosidade daquelas crianças.
É que na Moita, e porque não era uma aldeia de passagem obrigatória, só muito de vez em quando aparecia um carro. Logo, era natural a curiosidade das crianças.
Fiquei com aquela imagem durante muitos e muitos anos!
Quando, não há muito tempo, por lá passei, a surpresa foi ao contrário.
Como tudo era diferente naquela terra! Está bonita e organizada.
Limpa e cuidada.
Impressionou-me «a luz» das casas pintadas muito claras: a sua luminosidade surpreende.
Desta vez, poucas crianças por lá vi!
A fraca procriação, a desertificação, a crise, a televisão e outros meios de comunicação, terão a sua cota parte de responsabilidade!
Interessa é que houve uma grande mudança para melhor, nesta aldeia beirã onde tenho ainda um bocadinho de mim.
Gostei de ver.


Abraço.

domingo, 6 de abril de 2014

Um passeio higiénico


























«…Quantas noivas ficaram por casar, para que fosses nosso, ó mar!...»

Estava hoje muito activo o «gigante».

Estavas revoltoso, e batias com força nas rochas milenares, que aguentavam firmem as tuas investidas.
Não percebi se aquela actividade era uma manifestação de alegria pela presença da Primavera ou se era apenas uma forma de exteriorizares a energia acumulada ao longo inverno.
O sol resplandecente estendia os braços longos, acariciando as tuas águas de um azul que se confundia com a cor do céu.
Apesar do bulício, respirava-se calma naquela praia afastada da confusão e rodeada de uma beleza natural que atrai os amantes da calma que a natureza em estado puro proporciona.
Foram momentos de evasão e transporte para um mundo especial onde o som é apenas o marulhar das ondas.
Uma lavagem aos neurónios poluídos do lixo que tentam nos entupa a inteligência.

O mar! Aquele que dá e tira. Que nos envolve e nos machuca a alma quando menos se espera!...  


Abraço.

sábado, 5 de abril de 2014

O relógio e a vida

























Mesmo sem horários rígidos, ainda hoje me sinto mais ou menos escrava do relógio.
Que horas são? Já são horas!... É às tantas horas!...
 É assim que a vida é feita. Tudo na base do relógio e das horas.
Obedecendo de forma mais ou menos rigorosa, lá andamos nós comandados pelo relógio.
Objecto dominante este!
Com ou sem tic…, tac…, está presente em todos os momentos da vida de cada um!
Como seria a vida sem ele?
Como seria andar à deriva e sem orientação?
 A ideia mais remota que tenho deste utensílio é da casa de minha mãe.
Um velho relógio de parede, que batia as horas de quarto em quarto de hora.
Tinha um som melodioso, calmo e quase dolente.
Lembro-me que ainda era daqueles a que tinha que se dar corda.
Quando a minha mãe se esquecia, o som das badaladas deixava de se ouvir.
Era de uma forma quase urgente, que ela corria e lhe repunha as forças de que ele precisava.
Dizia ela que a casa sem aquele som ficava triste.
Um pouco mais tarde, apareceu o relógio da Torre da Igreja.
Esse, então, comandava de uma vez as vidas da aldeia.
A memória mais forte que tenho dele é das tardes de verão de verdadeira canícula.
Tardes silenciosas, eram «acordadas» do seu recolhimento, com um dlão!...dlão… dlão!... forte, que se alongava pelas ruas desertas e recolhidas na sua pacatez.
Objecto chato por vezes, mas de grande utilidade na programação da vida.  


 Abraço.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Nostalgia





















Nem sempre a nostalgia é uma atitude de tristeza.
Pode ser um percorrer de lembranças que nos preenchem o espírito, que nos ajudam a um encontro connosco e com outros, de quem gostamos e com quem partilhámos momentos felizes.
Podem ser momentos que nos envolvem com o passado distante e que deixou lembranças boas.
Que, no nosso recato, nos levam a recriar e quase a dramatizar situações vividas.
Nesses momentos de devaneio bom somos, às vezes, surpreendidos com um sorriso inesperado e doce.
Aqui, no meu canto quente, é muito fácil ser levada em viagem!
 Num dia como o de hoje, frio e chuvoso, nada melhor do que um pedaço de casa quente e aconchegante.
A um canto, uma lareira-salamandra tosca crepita.
Acolhe-nos e envolve-nos com a chama e as ondas de calor que dela emanam.
 O som do seu crepitar ajuda ao arranque para paragens e caminhos bem delineados, claros e rectilíneos.
A paz interior que nos invade é suficiente para esquecer por largos instantes as agruras de hoje.
Esquecer os maquiavélicos e os insignificantes que, com o seu chicote invisível, nos zurzem e tentam reduzir a nada.
Só por isso, já valeu a «viagem»!

 Abraço.

domingo, 30 de março de 2014

Pirolitos

  














A garrafa dos pirolitos e os berlindes...





Pois é. Eu também me lembro da Cristalina do Soito!
Mas, meus amigos, vou contar-vos uma pequena estória  que, para alguns, é mesmo uma novidade!
Sabiam que a primeira fábrica de refrigerantes da nossa zona (pelo menos do meu conhecimento) pertenceu á minha família?
É verdade! Sim, à família dos Abades da Moita.
Era a chamada fábrica das laranjadas e dos pirolitos.
 Estava situada no Terreiro das Bruxas, no rés- do- chão da casa da minha tia Patrocínia Martins.
Pertencia a ela, a meu pai e penso que também ao meu tio Armando Martins. Se estiver enganada, alguém com conhecimento que me esclareça, se faz favor – algum primo que se lembre.
Pois é verdade: faziam-se lá uns pirolitos e umas laranjadas que eram um mimo!
Tudo em modo artesanal e feito pelos próprios.
Eu tenho, claro, ainda na minha memória, a imagem de estar com eles muito curiosa a ver como é que aquela maquineta rústica conseguia encher de líquido aquelas garrafas estreitas… e como tudo saía de lá tão correctamente acomodado e tão saboroso!
Mas o entusiasmo maior, era quando alguma garrafa se partia!... O ar chateado dos responsáveis era compensado com o meu entusiasmo.
Saíam de lá de dentro umas bolas de vidro, que eram a minha delícia. Eram aquilo a que na altura se chamava berlindes.
(Os pirolitos eram tapados à pressão com essas bolas de vidro e, para se abrirem, tínhamos que pressionar com o dedo polegar).
Eram berlindes de «luxo», comparados com as bogalhas dos carvalhos, com que os miúdos jogavam!....
Gostei de vos dar conhecimento desta pequena fábrica, de que poucos já se lembrarão.
Para mim foi mais uma aventura de criança que alegrou os meus dias.


Abraço.

sábado, 29 de março de 2014

Uma homenagem





















Penso que hoje já ninguém de bom senso dirá a uma criança que foi a cegonha que a trouxe para a vida.
Há muitos anos atrás, essa era a resposta com que os pais fugiam à pergunta quase certa que, um dia, inevitavelmente surgiria.
Pergunta embaraçosa, nesse tempo!
Na altura, ainda o sexo era um tabu sem saída à vista.
Hoje, passados tantos anos, já tudo se alterou e infelizmente o contrário aconteceu.
Penso que, em certos casos, o tema é tratado de modo um pouco displicente.
Quando olho para a foto que abre este meu texto, não posso deixar de pensar no acto de amor que representa.
Com esse acto de amor, aconteceu uma família unida e feliz.
Essa família foi abruptamente amputada.
A sua trave mestra falhou. A forma que aparentava não o faria prever.
A família tremeu e quase ruiu.
Maldade sem nome. Mãe e filha sem rumo nem amparo à vista.
Ficou um vazio não mais preenchido.
Alguns anos mais tarde, e sem esperar, mais uma surpresa.
O segundo elemento seguiu o caminho do primeiro
O projecto de família interrompido terminou demasiado cedo.
Ficaram marcas, sim, e muitas fragilidades.
Foi preciso reaprender a viver sem eles.
Ficou também a recordação dos afectos.
Os muitos gestos de amor permanecem e nunca se apagarão.
Ficou para ela, família, um lugar cativo no meu coração.   

 Abraço.


terça-feira, 25 de março de 2014

O dom da palavra













Em jovem, a partir do momento em que a curiosidade pelo saber me bateu à porta, lembro-me de que ficava fascinada quando ouvia alguém falar, daquela forma que eu achava bonita.
Atenta, ouvia a pessoa e desejava um dia saber falar assim bonito.
Que maravilha, pensava! Como fala bem!
Acho até que não entendia muito bem o discurso nem o sentido da coisa. Mas que era lindo de ver e ouvir, lá isso era.
As pessoas à volta diziam: «Que bem que fala, tem o dom da palavra».
Se fosse uma pessoa bem apresentada, então os elogios duplicavam.
Nessa altura remota, eu, com a minha simplicidade e pouco conhecimento, ainda não tinha percebido que, a maior parte das vezes, o que prendia as pessoas era apenas o cenário e o tom de voz mais ou menos inflamado.
Que, muitas vezes, se limitavam a debitar um discurso oco e sem conteúdo.
O que a ingenuidade e a ignorância faz das pessoas.
Hoje, ao pensar neste assunto, pergunto-me: onde é que eu, neste tempo presente, já vi algo semelhante?
Só que hoje percebo quando a palavra está a ser usada e manipulada, para fins menos honestos, por pessoas menos honestas!
A partir daí, tiro as minhas ilações.
A partir daí, tenho também uma radiografia mais ou menos fiável de quem a utiliza de forma indevida e desrespeitosa.
Hoje, sei que a palavra é uma arma que pode não só aleijar, como aniquilar qualquer um.
Sei também, como o respeito por ela é tão importante.


Abraço.

domingo, 23 de março de 2014

Em jeito de…




Depois de uma vida vivida a trabalhar com crianças e seus familiares, é impossível não guardar no disco rígido da nossa memória algumas recordações de estórias diárias.
Umas com piada, outras nem tanto.
Hoje, lembrei-me do Fernando.
Chegou ao infantário com quatro anos.
Vinha de uma família desestruturada e vivia com dois avós já idosos.
Era uma criança doce, mas instável e irrequieta.
Quem o levava todos os dias era o avô.
A relação dos dois era amistosa e de grande cumplicidade.
Contudo, havia um pormenor que fazia toda a diferença.
Aquele avô, gostava do copito. À tarde quando o ia buscar, a rua já era estreita e com alguns ziguezagues a mais!
O Fernando, espertalhão, apercebia-se de que o avô estava em momento de facilitar.
Então, fazia-se difícil, não queria ir embora, fingia que ia mas voltava para trás, enfim, digamos que as conversações entre os dois se tornavam um bocadito complicadas.
«Fernando! Anda, dá um beijo à senhora»!
O Fernando, fingia-se surdo. Mexia mais aqui, mais ali, enquanto o avô, meio toldado, se enchia de paciência e dizia mais uma vez:
«Fernando, anda, dá um beijo à senhora!»
Nada. O Fernando continuava a tirar partido da situação.
Até que o avô, que era idoso mas tinha a marca de malandreco bem à vista, dizia com entusiasmo:  
«Fernando! Dá um beijo à senhora já! Olha que se não dás tu, dou eu!...».
Coisa atrevida, para a época.

Esta situação só podia ter ficado para a colecção das situações consideradas anedotas que por ali iam acontecendo.
Foi assim, em jeito de anedota, que me deu gozo contar-lha a si.
Um bom início de semana.

Abraço.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Caridade

 


Há cenas e momentos da nossa infância que ficaram para sempre gravadas.
Aquela que hoje relato é uma delas.

Quando eu era pequena, havia sempre um dia no ano em que apareciam na aldeia umas figuras vestidas de escuro, com cestos e sacos na mão, que me intrigavam muito.
Diria até que, da primeira vez em que as vi, fiquei meio amedrontada.
Apareciam sempre em grupos de três ou quatro.
Lembro-me que corri para casa, e as perguntas surgiram em catadupa.
Quem eram, porque se vestiam assim, o que queriam, para quê os cestos?
«São as Irmãzinhas da caridade e andam a pedir esmola para os colégios onde pertencem,
porque são muito pobres».
Esta era a explicação de minha mãe, sempre pronta a esclarecer-me.
O assunto não ficava para mim muito claro. Antes pelo contrário.
Preocupada, questionava-me:
- Então e se derem pouco?
Preocupação de inocente!…
Na cabecita de uma criança não ficava clara aquela situação.
Lembro-me de que era um dia especial, em que as crianças da aldeia apareciam todas com ar interrogativo.
Aquelas figuras eram vistas como pessoas diferentes.
A indumentária austera que usavam, penso que seria o motivo do espanto inicial.
Apesar disso, eram pessoas afáveis e de sorriso fácil.
 Bem mais tarde, já espigadota e a iniciar-me na condição de mulher, a curiosidade pelo saber mais e mais levou-me a descortinar os meandros de muitas coisas que até então estavam nebulosas no meu subconsciente.
A velha e ainda actual canção de José Barata Moura («Vamos brincar à caridadezinha» - que pode ouvir aqui - basta clicar), foi mais um clique que deixou tudo bem mais claro.


Abraço.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Presunção e água benta…



É isso. 
Diz o povo, que «presunção e água benta, cada um toma a que quer».
Pois é - e como é frequente depararmos com seres presunçosos!
A qualquer despropósito, aproveitam para se evidenciarem e propagandearem aos sete ventos a prosápia que os engasga.
Não perdem uma oportunidade.
Debitam, por dá cá aquela palha, a grandeza e a pose de que são portadores.
Precisam de se exibir, como precisam de comer, digo eu.
Fazem do exibicionismo a sua forma de estar na vida.
Com as suas atitudes descabidas, passam para o exterior, seja a que custo for, todos os indicadores da importância que pensam ter.
Peito cheio de vaidade, mas oco de sensatez.
Preenchem assim os seus pobres egos.
Sim, porque são normalmente pessoas vazias de conteúdos.
Passa-lhes ao lado seja o que for que não lhes diga respeito.
Cheios de si, acham que o mundo lhes pertence.
Solitários e desprovidos!
 É assim que eu vejo os vaidosos empertigados.


Abraço.