quinta-feira, 26 de junho de 2014

Às vezes o silêncio fala




Há um ditado português que diz que «o calado diz tudo».
Em certas situações, concordo com ele.
Principalmente quando a conversa não tem interesse ou quando o diálogo não é possível.
Sim, porque há conversas estéreis e diálogos impossíveis!
Principalmente quando apenas um está disponível, pois para haver diálogo são precisos, pelo menos, dois.
Aí, nada feito.
O pensamento fica trancado no subconsciente, impedido de se manifestar.
Quando isso acontece, a sensação é a de que houve um corte na liberdade de expressão.
É como se nos impusessem um silêncio não desejado, como se nos obrigassem a colocar uma
mordaça.
Claro que quando isso acontece o melhor é o tal silêncio, aquele que fala dentro de nós mas que não se ouve.
Que muitas vezes nos leva apenas a reflectir no porquê da recusa do diálogo!
Quando isto acontece, penso sempre numa cantiga de há muitos anos, cantada pelo então Padre Fanhais.
Com a sua voz inconfundível, forte e clara dizia:
«Cortaram o bico ao Rouxinol!
Rouxinol sem bico não pode cantar»!...
Há gente que nunca entenderá isto!
Pudera, nem lhes passa pela cabeça o que foi a censura!
O que foi calar o pensamento!
Nunca passaram por isso!...
Não lhes levo a mal, é preciso passar para sentir!...


Abraço.







  •                                           Música para ouvir:
                                              Cortaram as asas ao rouxinol
                                              por Francisco Fanhais
                                   Aqui.

    segunda-feira, 23 de junho de 2014

    Indiferença… Desinteresse…

















    O que a gente vai observando todos os dias, dá para reflectir e desabafar para não sufocar.
    A situação política portuguesa (para me situar apenas no que me rodeia) está um caos!
    A maioria dos portugueses está desiludida e descrente.
    Os políticos perderam o brio e deixaram-se transformar em figuras ridículas e desacreditadas.
    Quais saltitões exibicionistas e com sede de poder, digladiam-se na praça pública, apoiados pelos seus acólitos mais próximos.
    Sempre que aparecem com as suas trocas e baldrocas, são motivo de chacota e apelidados com os piores epítetos.
    Esta nova geração deles, na sua maioria pouco preparada, desumanizada, fria e agindo como máquinas, deu origem a este desinteresse e quase desprezo a que foram votados.
     A maior parte das pessoas que ainda olha para eles, principalmente os que vêm de uma geração anterior, perdeu não só a paciência, como perdeu a esperança.
     Dentro das suas figuras ataviadas e com vozes esganiçadas e vazias de conteúdo, entram-nos em casa sem pedir licença e debitam nos nossos ouvidos verdadeiros atentados à inteligência.
    Tornaram-se incómodos e caminham para o descrédito.
    As suas atitudes ridículas, levianas e algumas delas graves, afastam não só quem já em tempos conviveu com políticos a sério mas também os mais jovens, que não viveram essa experiência e pensarão que, desses, não existiram nunca.
    Nasce assim uma nova geração pouco esclarecida e sem capacidade de análise dos problemas que todos os dias vão surgindo e lhes vão transformando a vida num caos!
    Estamos perante políticos injustos, que atingem a torto e a direito uns e outros sem um critério justo e honesto.
    São esses políticos frios, desumanizados e egoístas que estão a transformar o nosso país num deserto de sensibilidade, de sensatez e de humanismo.   
    Onde habitam seres igualmente frios e sem qualidades, que todos os dias praticam as maiores atrocidades!...
    São eles, políticos, que têm vindo a dar origem a um Mundo de descompensados e com deficit de afectos.
    Viciados em futilidades, recorrem a qualquer esquema para as conseguir.
    São esses políticos, e outros que hão-de vir de igual teor, os principais responsáveis por um Mundo menos bom.
    Será que algum dia alguém lhes pedirá contas?

    Abraço.

    sexta-feira, 13 de junho de 2014

    Trampolim

     


    Engraçado!
    Em conversa morna e a propósito do que poderia ser um pequeno meio de comunicação, surgiu a palavra trampolim, que me fez pensar.
    Um trampolim é uma prancha para saltar para as piscinas ou para qualquer outro sítio que se pretenda.
    É um objecto muito usado nos ginásios e em saltos.
    Em política e não só, esta palavra está sempre a vir à liça.
    Também é usada para dizer que este ou aquele posto, lugar ou serviço, é utilizado como trampolim, para outros mais rentáveis, mais importantes e mais convenientes económica ou politicamente.
    Quando alguém usa outros «alguéns» ou serviços para com isso beneficiar a nível pessoal, costuma até dizer-se que está a usá-los para lhe servirem de trampolim.
     Pois bem, todos conhecemos casos e pessoas que fazem uso disso.
    Esta palavra enquadra-se na perfeição, no raciocínio e na ideia que deu origem a esta minha divagação.
    Trampolins!
    Como dão jeito a certa gente!
    E em certos casos, que gente oportunista, digo eu!...


    Abraço.

    sexta-feira, 6 de junho de 2014

    A Família Grande

     




    Esta família grande a que me vou referir hoje, não é só uma família grande, mas uma Grande Família.
    É com orgulho que faço parte dela por via directa.
    Teve a sua origem onde menos se poderia esperar.
    No recato de uma casa paroquial onde habitavam um sacerdote, uma governanta e uma criada.
     Assim, «na paz de Deus»!...
    O silêncio devia ser muito, a solidão doía, o frio chamava companhia e a carne era fraca!...
    O sacerdote, coitado, ainda jovem, caiu em tentação.
    Não conseguiu aguentar os impulsos e zás, não fez apenas um mas quatro filhos.
    Três de uma e um de outra.
    Qual árabe no seu harém.
    Três foram assumidos pela calada, acolhidos num colégio interno em Coimbra e lá receberam a educação que o pai lhes negou!
    A sociedade assim o exigia!
    O outro, coitado, foi atirado à rua com sua mãe, cresceu e fez-se Homem a pulso e com muito sofrer.
    Sem dó nem piedade, Filho de pai Incógnito.
    Foi ele pai de treze filhos (apenas um não se criou) e meu avô e avô de tantos outros que nem sei precisar quantos!
    É esta família de homens e mulheres trabalhadores, honestos e empreendedores, que se auto-denominou por Família Abade.
    Uma forma de criar curiosidade e desmascarar a injustiça que então aconteceu?
    É esta família ou parte dela, que amanhã se vai encontrar para um almoço-convívio na terra onde têm as suas raízes.
    Tenho muita pena de não estar presente.
    Estarei em espírito e com os canais do afecto todos ligados.


    Abração especial para todos eles.

    quarta-feira, 4 de junho de 2014

    Trastes





















    Um traste, tanto quanto eu sei, é um objecto ou uma pessoa sem préstimo.
    Um trastezinho então terá ainda menos valor, menos préstimo e utilidade.
    Isto vem a propósito de uma pequena reflexão sobre o que nos vai surpreendendo no dia-a-dia.
    Dou comigo a pensar em como seria triste, sentir-me encaixada neste rol!
    Ser considerada um traste ou um trastezinho e ser apenas o invólucro sem préstimo!...
    Se pensarmos bem, quantos circulam e se cruzam connosco diariamente por aí.
    Alguns nem disfarçam, outros aparecem-nos camuflados de gente preparada.
    Apesar disso, não passam de trastes!
    Ou melhor.
    De trastezinhos!...
    Detestaria fazer parte de um ou de outro grupo.

     Abraço.

    segunda-feira, 26 de maio de 2014

    E o lacaio…


     



    O dia foi longo, o embate foi ainda maior.
    O lacaio aflito correu para a patroa.
    «Senhora Lagarde, a coisa não correu bem. E agora?»
    Ela, solícita: «Calma, tudo se vai resolver. É só continuares a seguir o trilho. O caminho está aberto, continua bem comportado, não falhes as instruções, não te faltará nada!..»
    «Mas…senhora…Lagarde, é que já não gostam de mim, das minhas brincadeiras de masoquista inveterado!...»
    «Não penses nisso, dá-lhes que eles aguentam! Tira-lhes a pele, aperta-lhes mais o cinto, manda os velhos à fava, os doentes que se lixem, os jovens que emigrem, que há cá muitos!...»
    «Pois é, senhora Lagarde!... Mas…»
    «Tem calma, tu és um bom trabalhador, continua a tua tarefa, para nós estás a ser muito útil, vais ser compensado».
    «Muito obrigado, senhora Lagarde, é uma patroa muito generosa!»
    «Até à próxima, espero ordens!...»
    E o lacaio-mor afastou-se a fazer salamaleques, submisso.


    Abraço.

    quinta-feira, 22 de maio de 2014

    Os amigos…





    Foi hoje ao percorrer os facebooks de alguns amigos, que esta frase me chamou a atenção.
    «AMIGOS NÃO SÃO AQUELES QUE NOS LIMPAM AS LÁGRIMAS, MAS AQUELES QUE NÃO AS FAZEM CAIR».
    Fiquei a pensar naquela expressão para mim tão acertada!
    É verdade! Quantas vezes aqueles que se dizem nossos amigos são os que nos provocam a lágrima, que com surpresa nos rola pelo rosto.
    Ser amigo/a verdadeiro, exige muita generosidade, muita verdade e muita capacidade de digerir.
    Talvez alguns pensem que não, mas todos nós somos cheios de defeitos e fraquezas.
    Não há os especiais, os que estão acima de qualquer erro. Ninguém é isento!
    Se não viremo-nos um pouco para dentro e façamos uma pequena reflexão séria e honesta.
    Acharemos de certeza falhas e lacunas.
    Depois bastará apenas querermos aperfeiçoar.
    Remodelar um pouco a nossa forma de ser e de estar e tentar corrigir o que achámos que está menos bem.
    Os bons amigos proporcionam uns aos outros um convívio são e leve, sem aleijar.
    Provocar lágrimas é que será mesmo uma atitude condenável!
    Não me vou esquecer daquela frase.
    «AMIGOS NÃO SÃO AQUELES QUE NOS LIMPAM AS LÁGRIMAS, MAS AQUELES QUE NÃO AS FAZEM CAIR»


    Abraço.  

    sexta-feira, 16 de maio de 2014

    A propósito de Família



    Ontem foi o dia da Família.
    Embora não tenha o culto dos dias disto e daquilo, hoje apeteceu-me muito falar da minha família.
    Desde que me conheço, que sempre tive laços fortes de amizade com os meus.
    Toda a minha vida foi assente nos alicerces onde ela foi estruturada.
    A família representa para mim a alegria, o bem-estar, o apoio e o equilíbrio.
    Sempre que possível com ela partilhei todos os momentos importantes da minha vida.
    Foi sempre o meu refúgio e a minha força de todas as horas.
    Infelizmente, esse suporte muito cedo estremeceu, abanou e ruiu.
    No meio de muitas atribulações, perdi entretanto o contacto que tinha com o outro ramo familiar, que também me tinha sido muito caro.
    Devo dizer que me fez muita falta e que me senti quase incompleta, sem essas referências para mim tão necessárias.
    Felizmente e para meu sossego e alegria, encontrei no fim de muito tempo (tempo de mais), alguns daqueles a quem noutros tempos estive mais ligada!
    Foi um presente inesperado!
    A vida e os seus percalços!...
    A família para mim é tão importante que quando não a tenho me sinto incompleta.
    Hoje em especial, um forte abração para todos os que reencontrei e que estão a fazer com que a minha vida seja ainda mais bonita.  

    Abraço.

    segunda-feira, 12 de maio de 2014

    «Acabaram-se me os dzêris»






    Em todas as aldeias existem personagens que são vítimas de chacota e de um certo deboche.
    Sou por natureza mais ou menos boa observadora.
    Era junto à minha casa que aos domingos e feriados à tarde se concentrava grande número de pessoas. Era no rés do chão da minha casa que estava instalada a televisão pública que na altura era a coqueluche!...
    Grandes e pequenos, viam televisão, conviviam e arranjavam muitas vezes namoricos.
    Todos os fins-de-semana vinha ao Casteleiro um rapaz nascido e criado numa quinta dos arredores.
    Era um camponês castiço, campónio puro, que pelo menos enquanto criança, fez a sua vida sem conhecer nada do mundo – e nesse mundo, estava incluído o Casteleiro.
     Chegou a idade em que a natureza se encarrega de mudar tudo e o bom do Alberto, não aguentou a pressão dos impulsos.
    Todas as semanas rumava ao Casteleiro com ar enamorado, à procura de par.
    Andou por ali uns tempos. E não era parvo o mancebo! Deitou o olho a uma rapariga das mais bonitas do grupo, que, de férias da escola, também procurava divertir-se.
     Deu nas vistas aquele ar enlevado!...
    Coitado do Alberto. Tomaram-lhe posse do corpo e era demais o que faziam dele.
    A moça, essa, divertiu-se à sua custa e à custa da sua inocência. Era um deboche.
    Às tantas, ele já não tinha como responder a tanta provocação.
    De um modo carinhoso falso, dizia-lhe a moça:
    «Então, Albertinho, não fala»?
    «Acabaram-se-me os dzêres!...»
    O seu ar apaixonado era quase constrangedor!....
    Gente jovem.
    Naquela altura era a forma de se divertirem.
    Sem que daí viesse grande mal ao mundo.

    Abraço.

    domingo, 11 de maio de 2014

    Manual de instruções?







    É isso. A vida deveria ter manual de instruções?
    Tudo ali delineado, organizado, muito bem explicadinho?
    «Deixa cá espreitar o que há para fazer hoje e como»!
    Na verdade, tudo seria bem mais fácil, mais seguro e bem menos stressante.
    Diminuiriam as neuroses, o stress, as preocupações e as surpresas desagradáveis não teriam lugar.
    Diminuiria a ansiedade e a vida não sofreria abanões que às vezes têm o efeito de um tsunami.
    Mas… a ser assim, onde ficaria o encanto?
    As facilidades, a falta de engenho, a papinha toda feita não seriam um tédio?
    Uma coisa seria certa. Evitar-se-iam muitos erros, muitas decepções e muitas desilusões.
    Evitavam-se muitos passos em falso, muitas atitudes menos correctas e muitos caminhos ínvios.
    Apesar de tudo, a vida tem que ser vivida e desbravada por cada um. Tem que ser programada com o esforço de todos e com o entusiasmo que, esse sim, preenche e compensa!        
    O bom senso e a imaginação têm um papel preponderante e tenaz.
    Então, manual de instruções para quê?

    Abraço.

    terça-feira, 6 de maio de 2014

    Sinfonia no silêncio



    Gosto muito de ouvir boa música.
    Também gosto muito de ouvir o silêncio.
    Neste momento optei pelo silêncio.
    Sabe bem parar, repousar das tarefas normais do dia-a-dia e ouvir os sons que me chegam da Natureza.
    Com a Primavera já instalada, os pássaros fazem pela vida e apoderaram-se da minha árvore de estimação aqui do quintal.
    Todos em uníssono, soltam pius…pius…, que se transformam numa música ritmada, com notas ora estridentes e em coro, ora baixas, como se de uma melodia calma se tratasse.
    As rolas, ronceiras e repetitivas, fazem trru…trru… , anunciando que estão prontas para a festa do acasalamento.
    O cão da vizinha rosna, quando o incomodam na sua longa sesta, onde vai buscar as energias perdidas durante a noite enquanto os donos dormem.
    As galinhas cacarejam e o galo diz com o seu vozeirão, que quem manda na capoeira é ele.
    O ventinho mole sibila moderadamente por de cima das árvores, que agitam as folhas incomodadas, preguiçosas e dolentes.
    Eu, à falta de outro tema, escuto, saboreando a variedade, e vou escrevendo e descrevendo, a realidade que me envolve.
    Desta minha atitude, não virá mal ao Mundo!...
    A ideia é ocupar-me.
    Ocupar o cérebro e partilhar, com os que me lerem, este ambiente bucólico e despoluído, em que ainda vou tendo o privilégio de viver.
    Gosto da sinfonia de sons que me envolve!
    Gosto muito do silêncio que deixa que eu a oiça, à sinfonia.
    Depois, este espaço virtual que venho utilizando também serve para mostrar o outro eu que há em mim.
    Obrigada, mãe Natureza!...
    Abraço.

    sexta-feira, 2 de maio de 2014

    O reencontro

     Pedra da Mua, Cabo Espichel


    Não escrevo há já uma semana.
    De vez em quando falta a vontade, a motivação - o que dizer: outros interesses!..
    Neste caso foram quase e só mesmo outros interesses.
    A Primavera instalou-se, os passeios são apelativos e a Natureza convida.
    Os olhos ainda com o reflexo da chama da lareira, estavam precisados de paisagens abertas, de ar puro e morno, dos sons únicos desta época, dos cheiros das plantas em flor, da maresia misturada com eucalipto e pinho!...
    Enfim, digamos que é o apelo da Mãe Natureza e de toda a sua beleza.
    O físico agradece mais esta variedade de movimento. O cérebro fica mais oleado e os neurónios mais arejados.
    Depois, aconteceu ainda outra variedade mais ou menos inesperada.
    Ultimamente tenho vindo a ser surpreendida com factos e encontros que me têm dado muito prazer e inundado de luz o espírito.
    O pensamento e a memória têm sido ocupados por contactos e recordações que, durante muito tempo, estiveram arquivados e quase selados, por os achar tão afastados e «incapazes» de os reencontrar!
    Afinal, há certas etapas da nossa vida que nem qualquer imbecil sádico comanda.
    Essas pertencem-nos e é com elas que aguentamos outras, bem precisadas de serem ignoradas!      
    Penso que tudo isto tem contribuído para esta paragem nos meus habituais «devaneios», aqui, com quem os aprecia.
    Voltarei, sempre que me aprouver!


    Abraço.  

    quinta-feira, 24 de abril de 2014

    Dia inicial



    «Esta é a madrugada que eu esperava
    O dia inicial inteiro e limpo
    Onde emergimos da noite e do silêncio
    E livres habitemos a substância do tempo»


    Sofia de Mello Breyner


    E a noite e o silêncio transformaram-se no dia mais feliz 
    das gentes deste pequeno País adormecido!
    Não deixemos morrer esse espírto.

    Abraço. 


    terça-feira, 22 de abril de 2014

    Primavera é vida






































    Ontem, depois de uma ida ao ginásio, depois de uma merecida pausa e depois de um pequeno lanche, apeteceu-me encarar a Natureza.
    Aqui muito próximo de mim, Natureza em estado puro é o que não falta.
     Por entre descidas e subidas mais ou menos inclinadas, e veredas estreitas ladeadas de arbustos, a caminhada decorreu serena, dando ainda a oportunidade ao cérebro de se  reabastecer.
    A meio do passeio, já lá em cima, na parte mais alta, brotava, de um verde ofuscante de luz, um tapete colorido, que não deixaria indiferente qualquer mortal.
    Não resisti e, deliciada, apanhei uma a uma aquelas espécies, que a Mãe-Natureza me oferecia. 
    Observei com atenção a minúcia de cada exemplar e agradeci ao Cosmos tanta perfeição! E que bem que cheiram!
    Com muito cuidado, devido à sua delicadeza, trouxe-as para casa como se de uma prenda se tratasse.
     É isso.
    Uma prenda que partilho com as pessoas que gostam de mim!
    Aí vão, com todo o carinho.


    Abraço.

    domingo, 13 de abril de 2014

    Pregões




    Tenho agora o privilégio de poder tomar o pequeno-almoço sentada à mesa com toda a calma, aliás, coisa a que todos deveriam ter direito. Quando trabalhava, não tinha essa hipótese…
    Hoje, ao pequeno-almoço, fui surpreendida pelo som estridente da gaita de um amolador.
    Engraçado! Por isto é que eu gosto de viver num meio rural!
     Assim não perco as tradições que são mais ou menos comuns a esses meios.
    Numa fracção de segundos, voltei ao meu antes. O amolador!
    Hoje, lembrei-me logo do seu homónimo que, de tempos a tempos, visitava a minha aldeia e que era sempre muito esperado por alguns, com problemas que só por si não conseguiriam resolver.
    Os seus serviços eram específicos e dirigidos.
    Pois bem, hoje com esta gaita, lembrei-me do amola-tesouras - que não se ficava por aí: fazia outras tarefas que mencionava no pregão engraçado que gritava!
    Logo ao entrar na aldeia fazia-se ouvir com a gaita especial que usava e rezava/cantava assim:
    -«Afiiiiiiiiiiam-se facas, amolam-se tesouras, compõem-se as varetas aos guarda- chuvas e não se enleia o arami»!...
    Achei sempre muita piada a este pregão e guardei-o comigo.
    Assim como outros.
    Este, por exemplo:
    «Há trapos, ferro velho, sebo ou lentecão pr’a vinderi»!....
    Também era disto que viviam as aldeias tradicionais, enquanto corria o tempo vagaroso, saboreado e sem «stress».


    Abraço.

    terça-feira, 8 de abril de 2014

    A Moita está bonita





    A memória mais antiga que tenho desta pequena aldeia situa-se por volta dos meus cinco, seis anos.
    Meu pai, um filho da Moita, levou-me com ele já ao cair da noite, a fazer uma visita à família.
    Fomos no primeiro carro que ele teve. Uma carrinha Austin cinzenta.
    Ao chegarmos, fui surpreendida pela negativa.
    A minha imaginação de criança criou uma expectativa muito para lá da realidade encontrada!
    Ao estacionar o carro, voaram-lhe para cima um bando de crianças, que o rodearam e o miravam por dentro e por fora.
    Falavam todos ao mesmo tempo e comentavam entusiasmados.
    Foi tudo muito estranho para mim.
    A aldeia era demasiado pequena, se comparada com a minha.
    O escuro era de breu – como, aliás, em todas elas na altura.
    As crianças eram mais que muitas e a gritaria também.
    Fruto dos amores e talvez da falta de outros envolvimentos, floresciam em escadinha.
    Para sairmos, teve que o meu pai abrir caminho, enquanto o grupo rodeava o veículo e o mirava por todos os lados.
    Não me lembro de mais nada.
    Apenas esta imagem.
     Só mais tarde meu pai me explicou a razão da curiosidade daquelas crianças.
    É que na Moita, e porque não era uma aldeia de passagem obrigatória, só muito de vez em quando aparecia um carro. Logo, era natural a curiosidade das crianças.
    Fiquei com aquela imagem durante muitos e muitos anos!
    Quando, não há muito tempo, por lá passei, a surpresa foi ao contrário.
    Como tudo era diferente naquela terra! Está bonita e organizada.
    Limpa e cuidada.
    Impressionou-me «a luz» das casas pintadas muito claras: a sua luminosidade surpreende.
    Desta vez, poucas crianças por lá vi!
    A fraca procriação, a desertificação, a crise, a televisão e outros meios de comunicação, terão a sua cota parte de responsabilidade!
    Interessa é que houve uma grande mudança para melhor, nesta aldeia beirã onde tenho ainda um bocadinho de mim.
    Gostei de ver.


    Abraço.

    domingo, 6 de abril de 2014

    Um passeio higiénico


























    «…Quantas noivas ficaram por casar, para que fosses nosso, ó mar!...»

    Estava hoje muito activo o «gigante».

    Estavas revoltoso, e batias com força nas rochas milenares, que aguentavam firmem as tuas investidas.
    Não percebi se aquela actividade era uma manifestação de alegria pela presença da Primavera ou se era apenas uma forma de exteriorizares a energia acumulada ao longo inverno.
    O sol resplandecente estendia os braços longos, acariciando as tuas águas de um azul que se confundia com a cor do céu.
    Apesar do bulício, respirava-se calma naquela praia afastada da confusão e rodeada de uma beleza natural que atrai os amantes da calma que a natureza em estado puro proporciona.
    Foram momentos de evasão e transporte para um mundo especial onde o som é apenas o marulhar das ondas.
    Uma lavagem aos neurónios poluídos do lixo que tentam nos entupa a inteligência.

    O mar! Aquele que dá e tira. Que nos envolve e nos machuca a alma quando menos se espera!...  


    Abraço.

    sábado, 5 de abril de 2014

    O relógio e a vida

























    Mesmo sem horários rígidos, ainda hoje me sinto mais ou menos escrava do relógio.
    Que horas são? Já são horas!... É às tantas horas!...
     É assim que a vida é feita. Tudo na base do relógio e das horas.
    Obedecendo de forma mais ou menos rigorosa, lá andamos nós comandados pelo relógio.
    Objecto dominante este!
    Com ou sem tic…, tac…, está presente em todos os momentos da vida de cada um!
    Como seria a vida sem ele?
    Como seria andar à deriva e sem orientação?
     A ideia mais remota que tenho deste utensílio é da casa de minha mãe.
    Um velho relógio de parede, que batia as horas de quarto em quarto de hora.
    Tinha um som melodioso, calmo e quase dolente.
    Lembro-me que ainda era daqueles a que tinha que se dar corda.
    Quando a minha mãe se esquecia, o som das badaladas deixava de se ouvir.
    Era de uma forma quase urgente, que ela corria e lhe repunha as forças de que ele precisava.
    Dizia ela que a casa sem aquele som ficava triste.
    Um pouco mais tarde, apareceu o relógio da Torre da Igreja.
    Esse, então, comandava de uma vez as vidas da aldeia.
    A memória mais forte que tenho dele é das tardes de verão de verdadeira canícula.
    Tardes silenciosas, eram «acordadas» do seu recolhimento, com um dlão!...dlão… dlão!... forte, que se alongava pelas ruas desertas e recolhidas na sua pacatez.
    Objecto chato por vezes, mas de grande utilidade na programação da vida.  


     Abraço.

    terça-feira, 1 de abril de 2014

    Nostalgia





















    Nem sempre a nostalgia é uma atitude de tristeza.
    Pode ser um percorrer de lembranças que nos preenchem o espírito, que nos ajudam a um encontro connosco e com outros, de quem gostamos e com quem partilhámos momentos felizes.
    Podem ser momentos que nos envolvem com o passado distante e que deixou lembranças boas.
    Que, no nosso recato, nos levam a recriar e quase a dramatizar situações vividas.
    Nesses momentos de devaneio bom somos, às vezes, surpreendidos com um sorriso inesperado e doce.
    Aqui, no meu canto quente, é muito fácil ser levada em viagem!
     Num dia como o de hoje, frio e chuvoso, nada melhor do que um pedaço de casa quente e aconchegante.
    A um canto, uma lareira-salamandra tosca crepita.
    Acolhe-nos e envolve-nos com a chama e as ondas de calor que dela emanam.
     O som do seu crepitar ajuda ao arranque para paragens e caminhos bem delineados, claros e rectilíneos.
    A paz interior que nos invade é suficiente para esquecer por largos instantes as agruras de hoje.
    Esquecer os maquiavélicos e os insignificantes que, com o seu chicote invisível, nos zurzem e tentam reduzir a nada.
    Só por isso, já valeu a «viagem»!

     Abraço.

    domingo, 30 de março de 2014

    Pirolitos

      














    A garrafa dos pirolitos e os berlindes...





    Pois é. Eu também me lembro da Cristalina do Soito!
    Mas, meus amigos, vou contar-vos uma pequena estória  que, para alguns, é mesmo uma novidade!
    Sabiam que a primeira fábrica de refrigerantes da nossa zona (pelo menos do meu conhecimento) pertenceu á minha família?
    É verdade! Sim, à família dos Abades da Moita.
    Era a chamada fábrica das laranjadas e dos pirolitos.
     Estava situada no Terreiro das Bruxas, no rés- do- chão da casa da minha tia Patrocínia Martins.
    Pertencia a ela, a meu pai e penso que também ao meu tio Armando Martins. Se estiver enganada, alguém com conhecimento que me esclareça, se faz favor – algum primo que se lembre.
    Pois é verdade: faziam-se lá uns pirolitos e umas laranjadas que eram um mimo!
    Tudo em modo artesanal e feito pelos próprios.
    Eu tenho, claro, ainda na minha memória, a imagem de estar com eles muito curiosa a ver como é que aquela maquineta rústica conseguia encher de líquido aquelas garrafas estreitas… e como tudo saía de lá tão correctamente acomodado e tão saboroso!
    Mas o entusiasmo maior, era quando alguma garrafa se partia!... O ar chateado dos responsáveis era compensado com o meu entusiasmo.
    Saíam de lá de dentro umas bolas de vidro, que eram a minha delícia. Eram aquilo a que na altura se chamava berlindes.
    (Os pirolitos eram tapados à pressão com essas bolas de vidro e, para se abrirem, tínhamos que pressionar com o dedo polegar).
    Eram berlindes de «luxo», comparados com as bogalhas dos carvalhos, com que os miúdos jogavam!....
    Gostei de vos dar conhecimento desta pequena fábrica, de que poucos já se lembrarão.
    Para mim foi mais uma aventura de criança que alegrou os meus dias.


    Abraço.

    sábado, 29 de março de 2014

    Uma homenagem





















    Penso que hoje já ninguém de bom senso dirá a uma criança que foi a cegonha que a trouxe para a vida.
    Há muitos anos atrás, essa era a resposta com que os pais fugiam à pergunta quase certa que, um dia, inevitavelmente surgiria.
    Pergunta embaraçosa, nesse tempo!
    Na altura, ainda o sexo era um tabu sem saída à vista.
    Hoje, passados tantos anos, já tudo se alterou e infelizmente o contrário aconteceu.
    Penso que, em certos casos, o tema é tratado de modo um pouco displicente.
    Quando olho para a foto que abre este meu texto, não posso deixar de pensar no acto de amor que representa.
    Com esse acto de amor, aconteceu uma família unida e feliz.
    Essa família foi abruptamente amputada.
    A sua trave mestra falhou. A forma que aparentava não o faria prever.
    A família tremeu e quase ruiu.
    Maldade sem nome. Mãe e filha sem rumo nem amparo à vista.
    Ficou um vazio não mais preenchido.
    Alguns anos mais tarde, e sem esperar, mais uma surpresa.
    O segundo elemento seguiu o caminho do primeiro
    O projecto de família interrompido terminou demasiado cedo.
    Ficaram marcas, sim, e muitas fragilidades.
    Foi preciso reaprender a viver sem eles.
    Ficou também a recordação dos afectos.
    Os muitos gestos de amor permanecem e nunca se apagarão.
    Ficou para ela, família, um lugar cativo no meu coração.   

     Abraço.


    terça-feira, 25 de março de 2014

    O dom da palavra













    Em jovem, a partir do momento em que a curiosidade pelo saber me bateu à porta, lembro-me de que ficava fascinada quando ouvia alguém falar, daquela forma que eu achava bonita.
    Atenta, ouvia a pessoa e desejava um dia saber falar assim bonito.
    Que maravilha, pensava! Como fala bem!
    Acho até que não entendia muito bem o discurso nem o sentido da coisa. Mas que era lindo de ver e ouvir, lá isso era.
    As pessoas à volta diziam: «Que bem que fala, tem o dom da palavra».
    Se fosse uma pessoa bem apresentada, então os elogios duplicavam.
    Nessa altura remota, eu, com a minha simplicidade e pouco conhecimento, ainda não tinha percebido que, a maior parte das vezes, o que prendia as pessoas era apenas o cenário e o tom de voz mais ou menos inflamado.
    Que, muitas vezes, se limitavam a debitar um discurso oco e sem conteúdo.
    O que a ingenuidade e a ignorância faz das pessoas.
    Hoje, ao pensar neste assunto, pergunto-me: onde é que eu, neste tempo presente, já vi algo semelhante?
    Só que hoje percebo quando a palavra está a ser usada e manipulada, para fins menos honestos, por pessoas menos honestas!
    A partir daí, tiro as minhas ilações.
    A partir daí, tenho também uma radiografia mais ou menos fiável de quem a utiliza de forma indevida e desrespeitosa.
    Hoje, sei que a palavra é uma arma que pode não só aleijar, como aniquilar qualquer um.
    Sei também, como o respeito por ela é tão importante.


    Abraço.

    domingo, 23 de março de 2014

    Em jeito de…




    Depois de uma vida vivida a trabalhar com crianças e seus familiares, é impossível não guardar no disco rígido da nossa memória algumas recordações de estórias diárias.
    Umas com piada, outras nem tanto.
    Hoje, lembrei-me do Fernando.
    Chegou ao infantário com quatro anos.
    Vinha de uma família desestruturada e vivia com dois avós já idosos.
    Era uma criança doce, mas instável e irrequieta.
    Quem o levava todos os dias era o avô.
    A relação dos dois era amistosa e de grande cumplicidade.
    Contudo, havia um pormenor que fazia toda a diferença.
    Aquele avô, gostava do copito. À tarde quando o ia buscar, a rua já era estreita e com alguns ziguezagues a mais!
    O Fernando, espertalhão, apercebia-se de que o avô estava em momento de facilitar.
    Então, fazia-se difícil, não queria ir embora, fingia que ia mas voltava para trás, enfim, digamos que as conversações entre os dois se tornavam um bocadito complicadas.
    «Fernando! Anda, dá um beijo à senhora»!
    O Fernando, fingia-se surdo. Mexia mais aqui, mais ali, enquanto o avô, meio toldado, se enchia de paciência e dizia mais uma vez:
    «Fernando, anda, dá um beijo à senhora!»
    Nada. O Fernando continuava a tirar partido da situação.
    Até que o avô, que era idoso mas tinha a marca de malandreco bem à vista, dizia com entusiasmo:  
    «Fernando! Dá um beijo à senhora já! Olha que se não dás tu, dou eu!...».
    Coisa atrevida, para a época.

    Esta situação só podia ter ficado para a colecção das situações consideradas anedotas que por ali iam acontecendo.
    Foi assim, em jeito de anedota, que me deu gozo contar-lha a si.
    Um bom início de semana.

    Abraço.

    sexta-feira, 21 de março de 2014

    Caridade

     


    Há cenas e momentos da nossa infância que ficaram para sempre gravadas.
    Aquela que hoje relato é uma delas.

    Quando eu era pequena, havia sempre um dia no ano em que apareciam na aldeia umas figuras vestidas de escuro, com cestos e sacos na mão, que me intrigavam muito.
    Diria até que, da primeira vez em que as vi, fiquei meio amedrontada.
    Apareciam sempre em grupos de três ou quatro.
    Lembro-me que corri para casa, e as perguntas surgiram em catadupa.
    Quem eram, porque se vestiam assim, o que queriam, para quê os cestos?
    «São as Irmãzinhas da caridade e andam a pedir esmola para os colégios onde pertencem,
    porque são muito pobres».
    Esta era a explicação de minha mãe, sempre pronta a esclarecer-me.
    O assunto não ficava para mim muito claro. Antes pelo contrário.
    Preocupada, questionava-me:
    - Então e se derem pouco?
    Preocupação de inocente!…
    Na cabecita de uma criança não ficava clara aquela situação.
    Lembro-me de que era um dia especial, em que as crianças da aldeia apareciam todas com ar interrogativo.
    Aquelas figuras eram vistas como pessoas diferentes.
    A indumentária austera que usavam, penso que seria o motivo do espanto inicial.
    Apesar disso, eram pessoas afáveis e de sorriso fácil.
     Bem mais tarde, já espigadota e a iniciar-me na condição de mulher, a curiosidade pelo saber mais e mais levou-me a descortinar os meandros de muitas coisas que até então estavam nebulosas no meu subconsciente.
    A velha e ainda actual canção de José Barata Moura («Vamos brincar à caridadezinha» - que pode ouvir aqui - basta clicar), foi mais um clique que deixou tudo bem mais claro.


    Abraço.

    quarta-feira, 19 de março de 2014

    Presunção e água benta…



    É isso. 
    Diz o povo, que «presunção e água benta, cada um toma a que quer».
    Pois é - e como é frequente depararmos com seres presunçosos!
    A qualquer despropósito, aproveitam para se evidenciarem e propagandearem aos sete ventos a prosápia que os engasga.
    Não perdem uma oportunidade.
    Debitam, por dá cá aquela palha, a grandeza e a pose de que são portadores.
    Precisam de se exibir, como precisam de comer, digo eu.
    Fazem do exibicionismo a sua forma de estar na vida.
    Com as suas atitudes descabidas, passam para o exterior, seja a que custo for, todos os indicadores da importância que pensam ter.
    Peito cheio de vaidade, mas oco de sensatez.
    Preenchem assim os seus pobres egos.
    Sim, porque são normalmente pessoas vazias de conteúdos.
    Passa-lhes ao lado seja o que for que não lhes diga respeito.
    Cheios de si, acham que o mundo lhes pertence.
    Solitários e desprovidos!
     É assim que eu vejo os vaidosos empertigados.


    Abraço. 

    quinta-feira, 13 de março de 2014

    A aldeia que eu carrego

     


    Por motivos óbvios, em determinada altura da minha vida, tive que deixar a aldeia onde nasci e onde vivi durante vinte e três anos.
    Como já aqui tenho referido, tenho bocadinhos de mim espalhados por aquela aldeia e transporto, ainda hoje, os bocadinho que arranquei dela.
    As sensações, os cheiros, os sabores, paisagens e vivências.
    E pessoas!!!...
    O que mais me marcou foi a saudade daqueles e daquelas com quem me sentia tão bem.
    Tudo o que já descrevi foi motivo de grande desconforto nos primeiros dois / três anos de adaptação ao novo ambiente.
    Senti uma nostalgia tão grande, que às vezes me impedia de ser completamente feliz.
    Dividida, fui pagando, inflacionada, aquela separação inevitável, daquele «ninho» quente e aconchegante, onde os afectos fervilhavam.
    A saudade doeu demais. O ambiente frio e impessoal da cidade, a indiferença das pessoas, a ausência de afectos e a solidão, apesar do ruído, eram um imenso deserto onde reinava a confusão.
     Nada nem ninguém me dizia nada, fora das quatro paredes em que habitava.
    A «minha» nova terra, não tinha nada de minha. Era apenas um compacto de gente e ruído que no meu cérebro, provocava um vazio imenso.
    Hoje, à distância, recordo como foi sentir-me desenraizada, e perdida no meio de tanta gente!
    A vida tem estas vertentes, às vezes necessárias, para que cresçamos e nos tornemos seres independentes.
    O preço, esse, é por vezes, um tanto alto.


    Abraço.

    terça-feira, 11 de março de 2014

    O Facebook





    Foi ainda há pouco tempo que resolvi aderir a este espaço de comunicação.
    Talvez porque estava muito atenta a situações negativas de que ouvia falar, nunca simpatizei.
    Até que um dia, alguém me falou do Descendentes do Concelho do Sabugal.
    Espreitei e achei que era um espaço engraçado, onde todos os descendentes interessados se comunicavam, se aproximavam, davam a conhecer tradições das suas terras etc… e, em alguns casos, se reencontravam, com respeito e alguma piada!
    Não havia faltas de qualidade na relação, nem em qualquer outro aspecto.
    Aderi e tenho participado o mínimo, pois também tenho interesse noutras actividades.
    Até que ontem, ao abrir a página, fiquei suspensa de um comentário que não se enquadrava no estilo a que até então me habituara.
    A ofensa, a desconsideração, a agressividade, o insulto e até a ameaça, eram a forma como a pessoa se dirigia não só a com uma pessoa em particular, mas também a todos os Descendentes do Concelho!
    Tudo isto, a propósito de uma suposta «falha», que um elemento de uma empresa terá tido, aquando de uma visita ao Sabugal!
    Não gostei do que li.
    A suposta queixosa usou este meio público para ajustar contas e se vingar de uma pessoa, podendo tê-lo feito em privado e de uma forma civilizada!
    Tentou sujar-lhe o nome!
    Tentou arrastá-la pela lama!
    Deixou-a, segundo sei, muito magoada – e com razão.
    Francamente, um meio de comunicação como este, só deveria ser usado por gente com educação e alguma cultura.
    Aquela pessoa nem sequer deveria ter acesso!...

    Abraço.

    sábado, 8 de março de 2014

    Dias de…




    Pois é.
    De vez em quando, lá vem mais um dia de… qualquer coisa!...
    Hoje, é Dia da Mulher.
    Para ser sincera, gostaria mais que não houvesse tantos dias de…
    Que houvesse sim, todos os dias de todos nós!
    Se fosse assim, certamente estaríamos todos bem mais felizes.
    Bem mais unidos e com muito mais respeito e solidariedade por cada um, e por tudo o que nos rodeia.
    Quanto a mim, estes dias de… servem, em alguns casos, apenas para incentivar ao consumismo.
    Na maioria das vezes e depois do folclore, esquecem-se os gestos e o seu significado, e parte-se para a vida, esquecendo que amanhã, e amanhã, e amanhã…, também deveria ser dia de… dia de…etc. etc.
     Enfim! Convenções que, em alguns casos, até são importadas e nem sequer têm nada a ver com a nossa maneira de ser e com as nossas tradições – essas, sim, tão genuínas e dignas de serem preservadas.
    Não quero com isto desmobilizar ninguém de ser feliz por um dia!
    Esta é apenas a minha forma de ver a vida nestes aspectos pontuais.
    Uma coisa é certa.
    No caso do Dia da Mulher, será bom pensar, pelo menos hoje, um bocadinho naquelas que nunca têm nenhum dia de coisa nenhuma e que, ainda por cima, são agredidas, violadas e violentadas, espancadas e até mortas – isso, sim, acontece infelizmente todos os dias.
    Para essas, fica o meu abraço de respeito.

    Em vez de um dia, dever ser antes: um ano todo todos os anos.


    Abraço.

    quarta-feira, 5 de março de 2014

    Os seus olhos…




    Cabinda, setenta e dois / setenta e quatro.

    Ainda guardo, nos meus olhos, os olhos grandes deles.
    Eram escuros de breu.
    Sobressaíam reluzentes, dos rostos magros.
    Surgiam de duas covas e mostravam-se tristes, enigmáticos.
     Amarelecidos pela fome, penso.
    Ao olhar aquelas figuras de crianças magras, barrigas enormes, umbigos salientes em forma de pêra, não podia deixar de pensar: «Isto é o resultado das carências alimentares e de saúde a que foram, e são ainda, sujeitos».
    Quando procuravam proximidade com os residentes daquele bairro (militares de carreira e milicianos com família), faziam-no a medo. Usavam de uma subserviência que me fazia sentir mal e parar para pensar.
    Tinham bananas para vender. Trocavam-nas por uma insignificância. O que eles queriam, sem pedir, era mesmo alimentos.
    Não raras vezes, eram recebidos com agressividade por alguns e até corridos com cães de donos sem vergonha.
     Esses, governavam-se à custa da guerra no país que não era o seu, mas sim deles: daqueles miúdos.
    Quase sempre eram crianças em idade escolar.
    A escola preparatória local recebia-os e tentava abrir-lhes horizontes.
    Andrajosos, quase nus, angariavam o que podiam.
    Os pais de muitos deles encontravam-se no mato, em zonas de combate.
    Crianças filhas da guerra e de homens que nunca foram meninos!...

    Como é possível apagar estas imagens violentas, da memória?
    Fica aqui, para que conste.


    Abraço.

    sábado, 1 de março de 2014

    Não fora tão trágico…

















    Para mim e, quase poderia afirmar que para muito mais gente, a notícia não foi surpresa.
    Um dos jovens do acidente do Meco tinha vestígios de produtos tóxicos, aquando da autópsia.

    Não seria preciso pensar muito para chegar a essa conclusão!
    Quem, no seu verdadeiro juízo, se atreveria a dirigir-se sequer, para o mar do Meco, nessa noite de fúria no mar, com alerta vermelho?
    Ficar na zona de perigo, muito menos.
    Nem os habitantes da aldeia em questão, que conhecem o mar como ninguém, se atreveriam!
    Esses ficaram dois ou três meses em terra, com todo o respeito!

    Só cabecinhas toldadas, confusas e revoltosas não veriam o que era tão óbvio!
    Foi um acidente grave demais para ser esquecido.
    Como sempre, foi preciso que acontecesse.
    Talvez, depois dele, se faça luz em algumas cabeças pensantes deste país em desnorte.
    Talvez tenha feito abanar as mentes dos responsáveis de instituições e também de familiares.
    Estes últimos, que no labutar das suas vidas, nem sequer se dão conta de que o mais importante não será só dar um curso aos filhos.
    Que o diálogo aberto e em família é necessário.
    Que a compreensão, a calma, o estar atento aos sinais, o incutir de regras e o mostrar interesse pela vida dos seus filhos, os poderá ajudar a prevenir situações destas.
    Os ensinará a ter respeito pelos outros, e pelos bons princípios que, antes de mais, deverão fazer parte do grande curso que é a vida!
    Fica apenas a minha opinião, que vale o que vale.

    Diria que sou apenas uma pequena pensante no meio dos que se preocupam com os males desta sociedade.
    Uma sociedade fria, calculista, que investe tudo no que é material e ignora a base do sucesso, que poderá ser a educação e a cultura.

    Se não pensarem numa fórmula mais eficaz de educar qual será o futuro?
    Quem poderá dar o que não recebeu?

    Abraço.

    terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

    Preocupações de pais



    Era meio da tarde e as crianças brincavam no recreio.
    Alguns pais mais disponíveis começavam a chegar e procuravam saber junto de cada responsável como tinha sido o dia da sua criança.
    A preocupação principal de grande parte deles era se o filhote tinha comido ou não.
    Sempre foi assim. A esses, não os preocupava a qualidade alimentar, nem outros aspectos importantes envolventes. Apenas se comiam ou não.
    Foi um aspecto que sempre me intrigou.
    Os meninos guardadinhos e de barriga cheia!...
    Numa dessas situações de preocupação alimentar, a mãe queixava-se de que o menino, de manhã, não tinha querido nem sequer, o iogurte!
    Um pouco afastado e «com um olho no burro, outro no cigano», estava o condutor de uma das carrinhas.
    Homem de poucas falas. Educado, bom profissional, alentejano de Arronches.
    Criado apenas pelo pai e uma madrasta pouco sensível.
    Os castigos da vida eram mais que muitos.
    Ouviu, ouviu, e, de repente, penso que depois de dar uma olhadela pela sua própria vida passada, disse baixinho:  «É como ó mê pai, tamém mi dezia todas as manhãs: comi o iogurti Álvaro!... Comi!».
    Eu estava próximo, ouvi o comentário acintoso mas dito com muita piada!
    Foi uma gargalhada espontânea, que tive de disfarçar com algum esforço.
    A vida massacrante e cheia de dificuldades não retirou àquele alentejano esclarecido o humor e a capacidade de observação.
    Muito boa gente, o senhor Álvaro!

    Abraço.

    segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

    Coliseu dos Recreios




    Não sei quantas vezes eu já passei por aquela porta!
    Às vezes em trabalho, outras para ver espectáculos que me interessam.
     Uma das actividades que me levaram lá com alguma frequência foram os espectáculos de circo pelo Natal.
    As crianças com quem então trabalhava assim o exigiam.
    Depois de tudo programado atempadamente, em fila indiana e grande excitação, tinha a difícil tarefa de levar e trazer de volta sãs e salvas, as crianças daquele grupo que me era confiado.
    Era com prazer que desempenhava aquela tarefa.
    Só para ver os rostos daquelas crianças inundado de alegria e os seus gestos de entusiasmo e espanto, valia a pena não falhar o espectáculo.
     Eram momentos esfuziantes e compensadores.
    A hora dos palhaços era a mais esperada.   
    Este fim-de-semana «fui várias vezes ao Coliseu» sem querer.
    Nas horas em que liguei a TV, normalmente para ver as notícias, lá estava o Coliseu.
    Abarrotava de gente que berrava, gesticulava, e até faziam gracinhas!
    Mas… olha! Estes não têm o chapéu de palhaços, nem nariz abatatado!...
    Só fazem piruetas umas atrás das outras, como que para ver quem faz a melhor!
    Estavam todos, desde o palhaço pobre, até ao palhaço rico.
    Alguns deles, até fazem comentário político. Mas… ali, não contestaram nem criticaram.
    Apenas se limitaram a ser todos muito amigos!... Tão queridos.
    Barões, baronesas, todos em cavaqueira amiga!
    Que saudades dos palhaços a sério e de programas que eduquem, que instruam e abram horizontes a quem não os tem!...
    Raio desta palhaçada.

    Abraço.

    terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

    Eu chamo-me…





    O nome.
    O nosso nome.
    O nosso nome faz parte de nós, da nossa identidade.
    Está colado a nós, quer gostemos dele ou não, e acompanha-nos até ao fim e para lá do fim.
    Por ser assim, tomamos posse dele e detestamos que alguém, por engano ou desconhecimento, nos chame qualquer outro que não o nosso.
    Quando isso acontece, não gostamos muito, sentimo-nos desconfortáveis e olhamos até meio atravessado.
    Embora não o confessemos, é com se nos roubassem um bocadinho de nós.
    Aconteceu-me outro dia, ao responder a uma mensagem que me foi enviada.
    Essa mensagem que eu escrevi de boa fé e com o intuito de agradar, foi apagada por quem a recebeu e que apagou também o que o próprio escreveu.
    Esse gesto fez-me parar para pensar.
    Nada naquele texto poderia ser motivo para apagar o que escrevi.
    Então! …Ah! O nome. Tratei a pessoa que até está fragilizada, por um nome que não lhe pertence.
    Penso que poderá ter sido isso que fez a pessoa sentir-se mal.
    Talvez pensasse que não tem para mim qualquer importância, pois nem o nome dela sei!
    Nada disso. Sou distraída, é o que é, li de relance e escrevi o mais óbvio.

    Abraço.


    sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

    Os tempos e os afectos






    Felizmente, de há um tempo para cá, ouve-se e lê-se alguma preocupação com a falta de sensibilidade, afectos e solidariedade entre as pessoas.
    O estilo de vida criado é talvez o responsável por isso.
    Talvez por causa dele se tenham aberto as portas ao isolamento, às relações descartáveis desapegadas e frias, que reinam por aí.
    Talvez essa vida cheia e em corrida seja a responsável pela falta de tempo para a amizade, para a partilha e para o contacto, que quanto a mim é tão necessário?
    Esta vida vivida em «stress», que passa quase sem darmos conta, é que faz a diferença.
    A falta de tempo para o contacto com os outros separa-nos e convence-nos de que nos bastamos a nós próprios.   
    Para minorar essa lacuna, temos agora os meios virtuais que, se bem utilizados, ainda vão mantendo alguma ligação.
    Mas e o toque?
    E os olhos?
     E as vivências em directo, as sensações que ficam diluídas na distância?
    Não é por acaso que, em algumas redes sociais, se recordam com saudade os tempos em que o convívio são e desinteressado acontecia entre os pares!
    E estou certa de que não é saudosismo.
    É, sim, a falta que faz uma vida vivida com mais amizade, mais ternura e solidariedade.  


    Abraço.

    terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

    Objectos com vida






















    Conheço-os desde criança: a braseira e a caldeirinha de cobre, os pratos antigos, as panelas de ferro... e muitos mais.
    Convivi com eles diariamente.
    Alguns eram mais mimados que outros, eram considerados nobres.
    Esses viviam a maior parte do tempo em «exposição».
    Só em dias «ass’lanados» (assolenados ou seja: meio solenes) é que desciam a desempenhar as funções para que tinham sido concebidos.
    Os outros, os mais vulgares, estavam de serviço todos os dias.
    Cada um me recorda momentos, sítios, gestos, sabores, cheiros e convívios saudáveis
    Falam comigo e levam me ao devaneio quando os olho.
    Mantêm-me ligada às pessoas e às origens e ao berço onde nasci.
    É qualquer coisa de muito forte que me liga a eles.
    Sinto-os com se fizessem parte de mim.
    Sinto que, se me desligasse deles, abafaria parte do meu passado.
    Com eles recordo os convívios que «à volta deles» aconteciam.
    Recordo os olhos que sorriam com carinho, os gestos de ternura e as palavras amigas.
    Recordo, ainda, a força da amizade e da solidariedade que eram verdadeiras e indispensáveis.
    Alguns desses objectos estão comigo.
    Funcionam como um laço que me amarra ao passado e aos meus.     
    Objectos sem grande valor económico, mas com um valor estimativo sem tamanho!...
    São os meus ontens que, felizmente, não morreram em mim.

    Abraço.


    quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

    Com Mozart em fundo

     



    Quase no fim de uma aula de Pilates e já em tempo de alongamentos, eis que uma tempestade de vento e chuva, tirou do silêncio o grupo que se entregava ao prazer do relax.
    O corpo saiu da quase «letargia» em que se encontrava e o cérebro, alarmado, questionou-se.
    Ninguém merecia aquele «acordar» violento.
    Ainda menos, quando se relaxa ao som de uma peça de Mozart e num silêncio que quase se ouve.
    A Natureza tem as suas regras. Ninguém a detém.
    O Homem, aquele ser que tantas vezes se deslumbra perante o que considera os seus grandes feitos, é nada, perante tão grande potência.
     Não existe ninguém, que se sobreponha à força inimaginável dos fenómenos que, de quando em vez, nos fazem descer do nosso palanque e olhar respeitosamente.
    Somos seres minúsculos e insignificantes, melhor seria remetermo-nos à nossa pequenez.
    Meio atordoado, o grupo manteve-se quieto.
    Respeitosamente.
    Mozart continuava em fundo.  
     Terça-feira haverá mais Pilates.
    Um intervalo bom, na vida de futuro incerto.

    Abraço.

    segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

    Surpresas





    Nem sempre as surpresas são agradáveis.
    Infelizmente, nestes últimos tempos, surgem umas atrás das outras em catadupa, cada uma
    pior que a outra.
    Vamo-nos dando conta de que nem «uminha» só, para nos alentar o espírito!
    As gentes destes lados do planeta andam inseguras, sisudas e meio desnorteadas.
    Vivem na expectativa.
    O presente é carga demasiado pesada e o futuro, para muitos, é incerto.
    Caminham com alguma dificuldade. O arcaboiço verga com a carga.
    O cérebro desdobra-se a inventar formas de…
     Precisa-se de algo que nos devolva o ânimo.
    De qualquer coisa que nos traga a esperança e o sorriso de volta.
    Qualquer coisa que nos devolva o conforto e o alento.
    Que nos faça pensar que, num dia não muito remoto, iremos novamente ver a vida com alguma leveza.
    Entretanto, não há outra forma.
    Orgulhemo-nos de que, apesar dos desafios e das dificuldades, não perdemos nunca, a dignidade.
    É bom acreditar que, a qualquer momento, pode aparecer uma surpresa boa.
    Daquelas que nos preenchem a alma e nos aquietam o espírito!
     Segurança e confiança - é o que precisamos.    

    Abraço.

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